Monday, January 30, 2017

Aquilo que dá de se fazer  
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Achar uma hora que deve escrever diante da pilha de merda quando na verdade o que se quer é mais aquela cena abestada que se monta, que quando funciona funciona tanto. Dificilmente sai algo que presta, claro mas tem pelo menos o momento de se encadear um trem noutro, de botar um pedaço duma coisa coisa num pedaço de outra até que resulte numa outra que não é bem uma terceira coisa, mas um espaço, ou uma superfície na qual se roçar. Porque dá pra fazer uma superfície com qualquer coisa, os artistas tão lá gritando tem tempo, teimando. Vocês venceram, gente, calma. Com papel de bala, com papelão, com madeira de demolição, com metal amassado de um carro por um acidente a centenas de quilômetros por hora (eu digo centenas porque fica bom, mas dificilmente são mais de duas). Outra forma de dizer é que perderam, claro, já que isso também quer dizer, na exata mesma hora, que dá também pra fazer lixo com absolutamente qualquer coisa. São como aquelas ilusões de óticas nas quais não se diz direito se o trem tâ côncavo ou tá convexo, e que acabam por te deixar tonto. Um jeito mais comprimido de dizê-lo então seria que todo tipo de lixo cria também suas formas próprias de estese, e portanto de curtição e destruição. Arranjei um exemplo ótimo que alguns de vocês vão adorar (e que talvez faça outros tantos parar de ler; o que é bom, também). O inglês é hoje essa língua amorfa e morna que se espalha por todo canto nas camisas incoerentes que usamos, primeiro por causa da competência rija e austera do império naval britânico, com suas linhas de crédito e suas tripas a vapor, e depois por sua extensão técnica e simbólica possibilitada pelo cinema e pela música norte-americana, depois da segunda grande guerra europeia. Beleza. Também que é uma língua eficiente que foi se contraindo e contraindo até caber em todo canto, e trazer embutido os dutos de desejo mais dúcteis de que se tem notícia. O quanto disso foi aptidão anglo-saxã e protestante e o quanto foi contingência técnico-industrial não temos competência para julgar. Talvez ninguém tenha, nem os japoneses. Mas depois que ela está aí com seus buracos de remessa e demanda já cavados nas nossas têmporas e nas nossas gengivas isso pelo menos ajuda milhões de pessoas de cantos distintos do mundo a terem um território em comum, algo no qual todo mundo tá pisando, ainda que com pantufas, sapatos, tênis (tênises?), chinelos e calos muitíssimos diferentes. Sabe o Tom Hanks? Sei. Sabe Guerra nas Estrelas? Sei. É um ponto de partida. Um ponto de partida péssimo, mas ainda assim um ponto de partida. E se tamos sempre no meio (sempre no meio), às vezes é bom termos pontos de partida. Só não se deve confundir uma gestalt ensinada na infância com uma origem, um rosto que nos imprimiram no córtex com uma matriz a que deveríamos alguma espécie de fidelidade filial, o que é familiar com o que é quente, fértil e nutritivo (um buraco cheio de lixo úmido não é uma boceta, exceto num sentido muitíssimo peculiar para o qual não temos, infelizmente, tempo, ao menos não no momento) Não é porque crescemos junto de algo que lhe devemos, por isso, carinho. E nem origens são essa coca-cola toda. Sabe o lanterna verde? Então vocês olham pra mim com impaciência e eu olho para o relógio e para os produtores da minha palestra motivacional ecumênica e carrego o meu tom como se culminasse numa conclusão (mas claro que não haverá nada do tipo, os espertos já perceberam e já estão cochichando nos ouvidos daqueles que imaginam menos espertos, mas ainda assim espertos o bastante para servirem de cúmplice) Então eu desço o telão e aponto para uma série de pontos concentrados e sequenciais, exaustivos se nunca exaurientes. Risos de ninguém a não ser eu mesmo. Adoto a minha melhor voz de líder empresarial. Conhecer um território para mapeá-lo, mapeá-lo para saber suas quinas, queixos e interstícios, conhecer suas quinas, queixos e interstícios para saber onde ele cede, onde ele é irresistível e onde ele revela câmaras subterrâneas cheias de gás venenoso, tipos inteiramente novos de tubérculos e besouros ainda não nomeados em língua alguma que se registre. Devorar o lixo do império, raspar com o dedo todo o seu resto rançoso, lambê-lo no chão e nos suvacos e nos beiços, só para vomitá-lo de volta na sua própria garganta, com pouquíssimo ódio, todo (todo ele) o respeito.