Monday, August 17, 2015

Educações Sentimentais
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However,
education can bring out the potentialities
not just of people
but of things.
You can só bend a stick
that it can learn to break.
Put a lighted match to paper
and you can teach that paper
to burn




Júlio-Emanuel Bruno era nascido de uma família paulista enorme, seis irmãs e dois irmãos gerados em duas ondas reprodutivas diferentes (74-79, 87-92). Os pais provenientes de duas famílias endinheiradas desde sempre, e de um casamento quase indecorosamente bem-sucedido (num sentido afetivo-sexual). Os filhos todos se acostumaram desde cedo a escutar os gemidos, os gritos histéricos, móveis arrastando e demais barulhos inescrutáveis durante quase toda noite, e só Júlio-Emanuel que parecia se incomodar com aquilo (talvez por ter de escutá-los sozinho, sem ter com quem comentar e fazer graça, como sempre tiveram seus irmãos, talvez porque os gritos e os barulhos foram ficando mais criativos e estranhos, mesmo, com o passar do tempo, a sedimentação cinzenta do hábito e a necessidade imperiosa de se apimentar as coisas)

Os dois, já aposentados de seus cargos comissionados no governo do estado de São Paulo, pareciam hoje só falar a todo tempo de sua paternidade e maternidade conjunta, o investimento emocional e as recompensas e dificuldades de persegui-las em dupla, com um/uma companheiro(a). Como se aquela fosse a efetiva carreira deles, o seu período produtivo no mundo que eles agora se ocupavam só de resenhar em voz alta, como um artista em declínio. A casa toda já havia crescido há tempo, algumas irmãs eram artistas plásticas, outras médicas, os dois irmãos eram advogados tributaristas (e igualmente chamavam Lourenço-Lourenço). Os pais sempre foram criativos com os nomes, mas foi  lá pro sexto filho que realmente começaram a esculhambar. 

Júlio Emanuel-Bruno odiava o seu nome quase tanto quanto ele odiava a sua filiação, embora admitisse as suas enormes vantagens práticas.  Ele era o caçula, recebendo os irmãos mais velhos em visitas como tios, servindo chá que ele fervia depois do almoço enquanto os pais ainda estavam acordando, a porta trancada. Qualquer manifestação que Júlio fizesse era vista como um simulacro de alguma manifestação infantil de algum irmão ou irmã. Ninguém levava ele a sério. Rapa do tacho, eles chamavam, não sem alguma agressividade. 

O moleque tomando café da manhã sozinho na cozinha em pé, todo dia antes da aula, ainda de olhos fechados. Ele desenvolve aos poucos a noção de que já é adulto, uma pessoa formada. Lê vários livros para adquirir informação de como deve se portar a psique de um homem adulto. Simula mentalmente sentimentos incompreensíveis de amadurecimento, impotência diante do mundo, cinismo, resignação amarga. Pensa muito sobre a desesperança da senescência sexual mesmo antes mesmo de jamais bater uma punheta bem-sucedida. Essa simulação acaba por operar com alguma força próxima de experiências reais, pela imaginação poderosa de Júlio Emanuel-Bruno, estimulada com diversos aparatos e relativa liberdade libidinal desde a mínima infância, capaz de configurar extrema força emocional a eventos descarregados de realidade concreta. Júlio-Emanuel Bruno encena mentalmente transformações catárticas de si mesmo em sequências dramático-afetivas reproduzidas de estruturas de sentimento aprendidas de todos os filmes, poemas, óperas, canções populares, estátuas, vídeo-jogos, trípticos, instalações, documentários, vídeos comédia e demais objetos disponíveis para recuperação técnica a uma família afluente e aberta. 

Meu cérebro, ele pensa, esse volumoso pudim

Júlio-Emanuel Bruno, então, não era nem um pouco emocionalmente maduro, mas o era, um tanto, mentalmente. Adquiriu com esforço uma história sedimentada de sentimento artificioso e variado, duramente sulcado. Chegava em casa da aula na oitava série com um cansaço enorme da imaturidade de seus colegas, metido já num desalento existencial, esfregando as têmporas lentamente com a toalha em volta do pescoço, depois de um tomar uma ducha quente. Seu cabelo ainda molhado pingando fora do tapetinho no chão e o espelho ainda embaçado se esclarecendo lentamente, o mundo vago tentando ganhar forma e impor seus contornos convencionais. Esse cansaço espiritual lhe traz a vontade de se aposentar, mudar de vida, tomar Ayahuasca, andar por cordilheiras andinas, virar budista, coisas assim. Encontrar monges sábios e cabalistas provençais e animais surpreendentemente falantes com ensinamentos dos antepassados que ele gostaria que fossem os seus,  os legítimos donos daquela terra (de cosmogonias tão comédia, quase todas). Júlio-Emanuel Bruno começou aos onze a organizar sua longa viagem que culminaria a sua educação sentimental, sua descolagem, despirocada e eventual retomada do mundo. Durante o almoço, com seus pais de calça de pijama comendo torta alemã de prato principal e assistindo DVD da segunda temporada de House, ignorando o que ele fala, Júlio-Emanuel Bruno já não sente raiva, sente uma benevolência distante dos seus pais, tão presos em ciclos sentimentais tão vulgares, tão auto-indulgentes. Júlio-Emanuel Bruno empreende sua viagem logo antes do seu aniversário de dezesseis anos. 

Conhece mais dificuldades do que imagina, é preso na Holanda, perde um dedo na Turquia, tem uma série de crises de ansiedade em aeroportos, descobre-se quase impotente em Angola. O mundo das engrenagens práticas e das interpenetrações orgânicas se revela mais dificultoso do que ele imaginava. Já pensa em cortar a viagem pela metade e admitir a sua insuficiência diante dos incontáveis braços de Coto, Giges e Briareu quando faz um amigo na Ucrânia, um senhor perdido nas ruas, cego de um olho, aposentado, segurando um cachimbo vazio, que oferece a todo transeunte um resumo histórico das procelosas complicações geopolíticas da região por apenas oitenta grívnias – não coincidentemente o preço de uma sopa de cebola muito bem feita num restaurante ali próximo. Bruno fica amigo desse senhor - “uma amizade muito especial”. Em diversos momentos, ao dormirem juntos no sofá-cama cheirando a mijo velho em que dorme o senhor, na casa de suas duas tias idosíssimas, já quase mortas, dá impressão de que vão transar. Bate maior climão, mas acaba que nunca acontece. Nenhum dos dois já comeu ou deu prum homem antes, e não entendem como se dá a diplomacia ativo-passivo. São ambos, e de maneira diversa, muito tímidos. Acabam se casando num arranjo não-sexual, jogando muito videogame. 

Anos mais tarde, sintetizam um filho com o seu material genético combinado e a ajuda do óvulo, do útero, da despachância e dos préstimos rítmicos de uma senhora congolesa muito gorda, testuda e gentil, com quem formam uma família ainda mais especial. Mudam-se para Boiçucanga, onde montam uma pousada. O bebê nasce hermafrodita, com quatro olhos e seis braços, lindíssimo. Nasce já falando sânscrito e iorubá, manejando o arco e programando em UNIX. Os três criam o bebê para liderar politicamente as massas revoltosas e famélicas contra o Ocidente, destruir o Império Imagético de Consumo Norte-Americano com hipnose e Tecno-Umbanda, executar membros do parlamento europeu numa cerimônia ao vivo (com shows de bandas cover do Sepultura e do Olodum) forçar os países que colonizaram outros países a arcar devidamente com sua dívida histórica, devolver os tesouros históricos que saquearam, resetar todo o sistema financeiro internacional e formar uma união pluriafetiva-transespecífica-politeísta-e-pancontinental de povos que vem a reunir um terço da população mundial, antes de ser tragicamente derrotada por uma traição vergonhosa dos franceses, dos ingleses e dos alemães, que preferem ser dominados pela China e pela Rússia a engolir aquela putaria toda no seu quintal, com aquele tanto de viado, de bicho, aquele cheiro empestado de curry. 

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