Thursday, March 12, 2015

Gaia e suas tretas
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If thou openest not the gate to let me enter,
I will break the door, I will wrench the lock,
I will smash the door-posts, I will force the doors.
I will bring up the dead to eat the living.
And the dead will outnumber the living."




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Outubro passado ocorreu o colóquio Mil Nomes de Gaia, no Rio, com Viveiros de Castro, Bruno Latour, Isabelle Stengers, telepresença da Donna Haraway e grande elenco. 

Isso aqui são uns comentários que escrevi um pouco depois, baseado nas notas que fui tomando esparsamente durante as falas. 

I. 

Um dos maiores problemas da crise climática é a dificuldade aparente de fazer o que já parece ser certeza científica se traduzir de forma expressiva em termos políticos. Há quem (como a Naomi Klein) veja nessa situação uma oportunidade tremenda para catalisar todas as principais demandas emancipatórias globais, organizadas agora em torno das demandas urgentes por redução da nossa taxa de emissão de combustíveis fósseis (que necessariamente precisa passar por uma redefinição global do que se estabeleceu nas últimas décadas como expectativa quase universal de consumo). Por enquanto, as chances não parecem lá das melhores. 

 A causa ambiental já é corrente (e massificada, ainda que de forma diluída e inofensiva, quase sempre) há décadas, todos que costumam trafegar por causas tidas por progressistas costumam fazer lá suas menções eventuais e defesas de elementos pontuais. Mas é difícil ver mesmo a retórica desses grupos assumir a escala de urgência que os especialistas sugerem que deveríamos assumir. O que acontece, quase sempre, é mais um esforço publicitário de se botar um verniz eco-amigável em tudo que é atividade dispendiosa e destruidora, antes de se tentar mudar qualquer aspecto substancioso da nossa situação (o que implicaria, se não uma mudança radical de regime político-econômico, no mínimo um re-arranjar brutal da maneira de produzir coletivamente os nosso desejos)

 Esse problema, como todo problema político, é, em grande parte, se não todo, imaginativo (ou seja, estético). 

II. 

A Gaia de seios vastos da Teogonia do Hesíodo, a Pachamama andina e quaisquer outras imagens míticas para a Terra que se quiser arranjar são geralmente figuras de uma extensão e poder avassaladores, primordiais, muitas vezes maiores do que as capacidades dos meros humanos. Isso, obviamente, não é acidental, as figuras que fazemos da Terra sempre espelham o assombro que a escala e o poder dos fenômenos naturais trazem pro nosso corpo. O difícil, em parte, é fazer esse tremendo reajuste imaginativo a respeito da espécie humana, que com os avanços da técnica desde a revolução industrial passou em pouco tempo de entidade biológica (como tantas outras na Terra, ainda que uma bem esperta) a força geológica, capaz de mudar os termos do contexto em que se encontra numa proporção que antes só a mitologia costumava achar possível.

 Perceber que a nossa compósita agência pode, sim, ameaçar a integridade do sistema biológico no qual tamos metidos é estranho, até meio contra-intuitivo, mas é uma realidade técnica com a qual convivemos pelo menos desde a invenção da bomba (que alguns colocam como o marco zero do antropoceno). Oppenheimer famosamente citou o Bhagavad Gita ao se deparar com o teste da bomba, "Agora eu me tornei morte, destruidor de mundos", num misto estranho de aparente húbris e genuíno pavor diante da força avassaladora que se criava. Quem tem cu tem medo e treme, diria o poeta. O temor e o tremor que já vem empacotados juntos na cabulosidade atômica, tão bem assimilados pela cultura popular japonesa, devia, talvez, ajudar-nos um pouco a entender a dimensão técnica da nossa espécie (assim como a de alguns impérios), tão esperta e tão imbecil, capaz de instrumentalizar a natureza da qual faz parte a ponto de botá-la em risco.

 É genuinamente difícil olhar para o mar - essa coisa tão enorme, tão absoluta, de onde se arrastaram os veículos expressivos de água que acabaram dando na gente - e enxergar naquela imensidão toda que ele congrega e representa em toda sua avassaladora profundidade uma força sujeita às modificações que a nossa presença coletiva faz no ambiente (o lixo que produzimos, a energia que consumimos). A impressão para quem bota os pés na água fria castrante ainda é de que aquela força ainda nos é infinitamente superior pra todos os lados.

Freud, num de seus momentos mais descaradamente mitógrafos, diz em Totem e Tabu que a cultura começa com um patricídio conjunto feito por irmãos. Luce Irigaray diria que antes disso teria acontecido um matricídio ainda mais primordial. As duas hipóteses parecem meio fantásticas, enquanto narrativas antropológicas efetivas e totalizantes pro nascimento da cultura, mas não deixam de ter, ambas, sua distinta expressividade política (a segunda um tanto maior, é verdade, até porque o que o Freud tá dizendo dá pra encontrar na Teogonia, já, ainda que exposta em outros termos).

Se os mais alarmados estiverem perto da verdade (e eles podem até estar exagerando um tanto que a coisa continua bem tenebrosa), isso significa que nós já matamos, não necessariamente a terra, ela mesma (até porque ela teria que constituir um organismo vivo inteiriço pra morrer, segundo vai o vocabulário conceitual mais óbvio, e nem Lovelock sugere isso, exatamente), mas a conjuntura específica de fatores que tornou nossa espécie possível; isto é, o meio no qual sempre estivemos imersos, do qual sempre fomos dependentes, em sua interrelação de componentes que tornaram o nosso tipo de organismo possível;  e que em sua totalidade expressiva já foi em tantas mitologias figurada como uma mãe, pela analogia com seu aspecto de força fértil geradora. O matricídio primordial repetido, agora numa escala inumana. 

Uma das coisas que se disse mais de uma vez durante o colóquio (uma das vezes pela Juliana Fausto) é que a maior evidência do antropoceno não é a climática, mas a de perda de espécies. Os últimos duzentos anos tiveram uma taxa de extinção tão absurdamente acelerada que isso, por si só, fora a situação climática, já bastaria para qualificar uma brutal mudança de termos cênicos (se permitem o trocadilho). 

Formas de vida extintas significam mundos expressivos inteiros destruídos, sumidos do universo, daquilo que é o caso. Como quando o mundo perde uma língua ou uma cultura, o que se perde é todo um repositório expressivo  (Vicente Ferreira diria cênico) da vida na terra e de suas compossíveis articulações contextuais. 

Se toda cultura é uma manifestação externa cristalizada de como o homem consegue produzir identidades e localidades, uma nova versão das plásticas possibilidades coletivas da nossa espécie, se uma língua comporta sempre uma gramática expressiva do mundo, todo animal e planta é também uma forma própria de se organizar em meio a um ambiente, todas as formas de vida um repertório intrincado de respostas a problemas do seu meio que compõem o todo interrelacionado da natureza enquanto totalidade criada e criadora. Toda coisa viva é crítica, diria Kenneth Burke (toda coisa pensa, o Deleuze)*. Os dois, acho que dá pra dizer, via Leibniz e sua mônada. 

O que não se costuma deixar claro com tanta frequência é que tanto a destruição de formas culturais pela universalização de algumas expectativas de consumo quanto a destruição de formas de vida através da nossa maneira violenta de viver enquanto espécie implicam em perdas informacionais genuínas para o todo. O mundo fica mais pobre com toda cultura e língua que se destrói ou se assimila à força aos moldes e sulcos do consumo, e o mundo fica mais pobre com todo animal que exterminamos. Perde articulações, instrumentos e virtualidades expressivas de diversas ordens.

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*. Toute corps, toute chose, pense et est une pensée, pour autant que, réduite à ses raisons intensives, elle exprime une Idée dont elle determine l'actualisation (Différence et Répetition, p.327)

Todo corpo, toda coisa, pensa e é um pensamento, pelo tanto que, reduzido às suas razões intensivas, ela exprime uma idéia cuja atualização ela determina.

III.

A nossa capacidade atual de exterminar diversidade e produzir o mesmo numa proporção aterradora pode, talvez, ser vista como uma aceleração desenfreada dos processos naturais de entropia. Foi isso o que entendi da apresentação muitíssimo interessante (e igualmente confusa) do Mauro de Almeida. Se o universo tende para a perda gradual de complexidade e aumento da desorganização, culminando daqui a uma cagalhada de tempo numa morte térmica inevitável, (como sugere a segunda lei da Termodinâmica), a monocultura civilizacional do consumo, inventada há tão pouco tempo, vai continuar indefinidamente aumentando a proporção em que consume fósseis antigos (vida sedimentada por tanto tempo) e produz novos. Carcaças de celulares, de carros, de geladeira, assim como infinitas embalagens de plástico pra povoar as nossas vastas terras desoladas por alguns milhares de anos, pelo menos. 

Se tanto das possibilidades da técnica hoje implicam em enxergar o mundo todo como matéria-prima para transformação energética que mantenha girando e crescendo os moinhos do Deus-consumo, os efeitos materiais brutos dessa disposição insustentável ficam, geralmente, bem longe das bolhas de otimização (ou de redução de entropia) onde o topo da pirâmide mora.  O que fica encapsulado na interface do consumo é toda a cadeia produtiva daquilo que se consome. Quem tá lá usando smartphone, andando de SUV e comendo sushi não tem que lidar com a realidade da fábrica que montou o celular, não tá sentindo o desperdício colossal de energia que a sua locomoção acarreta, sentindo o cheiro de lixo e merda que sua pessoa causa fora dali, e nem vendo os quilos de vida marinha morta colateralmente pra se arranjar aquelas fatiazinhas tão gostosas de atum.

Arranjar formas práticas de tornar inteligível a extensão técnica dos nossos atos de consumo é um desafio do caramba. Como já falei, até por uma questão de escala, tanto no sentido da magnitude esmigalhar a nossa capacidade de reconstituição imaginativa quanto no sentido da ubiquidade de determinadas práticas tornar muito difícil, para a maioria das pessoas, enxergar nelas algo possivelmente errado ou sequer estranho (comer carne criada de forma industrial, adicionar um sabor artificial de batata numa batata congelada, ter como padrão usar terno e ar-condicionado num país tropical)

 A maneira mais alardeada da própria máquina lidar com a situação, claro, é de traduzir essa consciência em consumo sofisticado eticamente consciente e inovações tecnológicas estrombólicas que salvem o nosso rabo quando a coisa esquentar de fato. Opções orgânicas e locais se tornando uma estilização ética pra determinados grupos socioeconômicos, de um lado, e geoengenharia e semelhantes temerosidades do outro. Nenhuma das duas coisas, por si só, deve chegar a fazer cócegas no problema.

Tentando meter a nossa imaginação em marchas que dêem conta do tamanho da besta, é fácil acabar olhando pra gente como qualquer outra máquina auto-replicante, um aparato que reitera a si mesmo (com muito sucesso, aliás) e vai se reproduzindo como pode. Além da conta, no nosso caso, e da maneira mais desastrada possível, até comer o próprio rabo. Retomando a metáfora (admitidamente imprópria) de Gaia como um organismo, a gente passa a se parecer bastante com um câncer.

O problema de enxergar a coisa nessa escala é que podemos perder de vista quem são os responsáveis por esse quadro. Foi a nossa espécie que chegou nesse cume, certo, mas foram espécimes bem específicos dessa espécie que criaram a situação (devemos agradecimentos antes de tudo aos modernos, por sua instrumentalização técnica de toda realidade, sem a qual nada disso seria possível; depois, suponho, ao império norte-americano, por sua criação desde o fim da segunda guerra de uma utopia simbólica de consumo produzida em massa em escala global; depois, que tal as 90 empresas responsáveis por dois terços de toda emissão humana? a lista continua, mas claro que não tenho competência pra preenchê-la com a devida gravidade) 

Perceber o quanto o regime desastroso em que vivemos data de pouquíssimo tempo atrás pode tanto trazer otimismo (se foi feito ontem, pode ser desmontado amanhã) quanto pessimismo (como que conseguiram me cagar tudo tão rápido assim?). O mais importante, acho, ou uma das coisas mais importantes, é fortalecer a todo tempo o estranhamento diante da estupidez dessas formas de habitação e atentar para a genealogia de todas as péssimas escolhas civilizacionais tomadas nas últimas décadas*. E já  que tamos falando nisso, aliás, atentar pra materialidade de todas as nossas redes técnicas de comunicação social tampouco seria uma má ideia. 

Há quem goste de diminuir ou desqualificar o ímpeto socialista (ou até, digamos, o anarquista) dizendo que é uma "imanentização do eschaton" (ou seja, a vontade de tornar imanente o estado ou lugar sobreterreno que fica pra depois da história, o apocalipse). Se as previsões se confirmarem, a ironia é que terá sido justamente o capitalismo, junto de seu deus-consumo, a trazer o eschaton, ainda que de outro tipo. Os dois terão enfim um apocalipse bem imanente pra chamar de seu. Ou ainda, vários deles, sucessivos, arrastados e diferentes de tudo que já se imaginou. E, como sempre, a parte de baixo da pirâmide será a primeira a sentir na pele os seus efeitos mais brutos. Ou, como um amigo meu diz há alguns anos, se o Capitalismo enfim levar o mundo a um desastre ambiental da escala do que se prevê de forma já corriqueira, ele terá sido, sem sombra de dúvida, o pior sistema de alocação de recursos já produzido. 


No lugar de uma conclusão, que não existe, um poema do Gregório de Matos: 

Na oração que desaterra a terra 
Quer Deus que a quem está o cuidado dado 
Pregue que a vida é emprestado estado 
Mistérios mil que desenterra enterra

Quem não cuida de si, que é terra, erra
Que o alto rei, por afamado amado 
É quem assiste ao desvelado lado 
Da morte ao ar não desaferra aferra

Quem do mundo a mortal loucura cura
A vontade de Deus sagrada agrada
Atar-lhe a vida em atadura dura 
Ò voz zelosa que dobrada brada
Já sei que a flor da formosura, usura
Será no fim dessa jornada nada 

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Perceber, entre outras tantas coisas, que os muitos exemplos que a antropologia mostra de sociedades sem estado não precisam ser considerados falhos ou insuficientes frente uma totalidade que se atinge numa progressão evolutiva inequívoca. Assim como o monoteísmo não é uma culminação necessária (ou sofisticação técnica) do politeísmo, como tantas vezes se propôs no ocidente. 

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