Wednesday, December 09, 2015

Tradução apressada mas bem-intencionada da Seção X de Notes Toward a Supreme Fiction, 
do Wallace Stevens
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Menina gorda, terrestre, meu verão, minha noite,
Como é que eu te encontro na diferença, te vejo ali
Num contorno movente, mudança não de todo completada?

Você é familiar e no entanto uma aberração.
Educado, madame, eu sou, mas embaixo
uma árvore, essa sensação não-provocada requer

Que eu deva nomeá-la de cara, desperdiçar palavra nenhuma,
Checar suas evasões, te segurar pra você mesma.
Mesmo assim quando penso em você como forte ou cansada

Debruçada no trabalho, ansiosa, satisfeita, sozinha,
Você continua a figura mais natural. Você
se torna o fantasma de pé leve, a distorção

irracional, fragrante que seja, querida que
seja. É isso: a distorção mais que racional,
A ficção que resulta do sentimento. Sim, isso.

Um dia eles acertam na Sorbonne
Vamos voltar da aula no anoitecer
Agradados que o irracional é racional

Até que triscado por sentimento, numa rua doirada
Eu te chamo pelo nome, meu verde, meu mundo fluente,

Você vai ter parado de revolver exceto em cristal.

Monday, August 17, 2015

Educações Sentimentais
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However,
education can bring out the potentialities
not just of people
but of things.
You can só bend a stick
that it can learn to break.
Put a lighted match to paper
and you can teach that paper
to burn




Júlio-Emanuel Bruno era nascido de uma família paulista enorme, seis irmãs e dois irmãos gerados em duas ondas reprodutivas diferentes (74-79, 87-92). Os pais provenientes de duas famílias endinheiradas desde sempre, e de um casamento quase indecorosamente bem-sucedido (num sentido afetivo-sexual). Os filhos todos se acostumaram desde cedo a escutar os gemidos, os gritos histéricos, móveis arrastando e demais barulhos inescrutáveis durante quase toda noite, e só Júlio-Emanuel que parecia se incomodar com aquilo (talvez por ter de escutá-los sozinho, sem ter com quem comentar e fazer graça, como sempre tiveram seus irmãos, talvez porque os gritos e os barulhos foram ficando mais criativos e estranhos, mesmo, com o passar do tempo, a sedimentação cinzenta do hábito e a necessidade imperiosa de se apimentar as coisas)

Os dois, já aposentados de seus cargos comissionados no governo do estado de São Paulo, pareciam hoje só falar a todo tempo de sua paternidade e maternidade conjunta, o investimento emocional e as recompensas e dificuldades de persegui-las em dupla, com um/uma companheiro(a). Como se aquela fosse a efetiva carreira deles, o seu período produtivo no mundo que eles agora se ocupavam só de resenhar em voz alta, como um artista em declínio. A casa toda já havia crescido há tempo, algumas irmãs eram artistas plásticas, outras médicas, os dois irmãos eram advogados tributaristas (e igualmente chamavam Lourenço-Lourenço). Os pais sempre foram criativos com os nomes, mas foi  lá pro sexto filho que realmente começaram a esculhambar. 

Júlio Emanuel-Bruno odiava o seu nome quase tanto quanto ele odiava a sua filiação, embora admitisse as suas enormes vantagens práticas.  Ele era o caçula, recebendo os irmãos mais velhos em visitas como tios, servindo chá que ele fervia depois do almoço enquanto os pais ainda estavam acordando, a porta trancada. Qualquer manifestação que Júlio fizesse era vista como um simulacro de alguma manifestação infantil de algum irmão ou irmã. Ninguém levava ele a sério. Rapa do tacho, eles chamavam, não sem alguma agressividade. 

O moleque tomando café da manhã sozinho na cozinha em pé, todo dia antes da aula, ainda de olhos fechados. Ele desenvolve aos poucos a noção de que já é adulto, uma pessoa formada. Lê vários livros para adquirir informação de como deve se portar a psique de um homem adulto. Simula mentalmente sentimentos incompreensíveis de amadurecimento, impotência diante do mundo, cinismo, resignação amarga. Pensa muito sobre a desesperança da senescência sexual mesmo antes mesmo de jamais bater uma punheta bem-sucedida. Essa simulação acaba por operar com alguma força próxima de experiências reais, pela imaginação poderosa de Júlio Emanuel-Bruno, estimulada com diversos aparatos e relativa liberdade libidinal desde a mínima infância, capaz de configurar extrema força emocional a eventos descarregados de realidade concreta. Júlio-Emanuel Bruno encena mentalmente transformações catárticas de si mesmo em sequências dramático-afetivas reproduzidas de estruturas de sentimento aprendidas de todos os filmes, poemas, óperas, canções populares, estátuas, vídeo-jogos, trípticos, instalações, documentários, vídeos comédia e demais objetos disponíveis para recuperação técnica a uma família afluente e aberta. 

Meu cérebro, ele pensa, esse volumoso pudim

Júlio-Emanuel Bruno, então, não era nem um pouco emocionalmente maduro, mas o era, um tanto, mentalmente. Adquiriu com esforço uma história sedimentada de sentimento artificioso e variado, duramente sulcado. Chegava em casa da aula na oitava série com um cansaço enorme da imaturidade de seus colegas, metido já num desalento existencial, esfregando as têmporas lentamente com a toalha em volta do pescoço, depois de um tomar uma ducha quente. Seu cabelo ainda molhado pingando fora do tapetinho no chão e o espelho ainda embaçado se esclarecendo lentamente, o mundo vago tentando ganhar forma e impor seus contornos convencionais. Esse cansaço espiritual lhe traz a vontade de se aposentar, mudar de vida, tomar Ayahuasca, andar por cordilheiras andinas, virar budista, coisas assim. Encontrar monges sábios e cabalistas provençais e animais surpreendentemente falantes com ensinamentos dos antepassados que ele gostaria que fossem os seus,  os legítimos donos daquela terra (de cosmogonias tão comédia, quase todas). Júlio-Emanuel Bruno começou aos onze a organizar sua longa viagem que culminaria a sua educação sentimental, sua descolagem, despirocada e eventual retomada do mundo. Durante o almoço, com seus pais de calça de pijama comendo torta alemã de prato principal e assistindo DVD da segunda temporada de House, ignorando o que ele fala, Júlio-Emanuel Bruno já não sente raiva, sente uma benevolência distante dos seus pais, tão presos em ciclos sentimentais tão vulgares, tão auto-indulgentes. Júlio-Emanuel Bruno empreende sua viagem logo antes do seu aniversário de dezesseis anos. 

Conhece mais dificuldades do que imagina, é preso na Holanda, perde um dedo na Turquia, tem uma série de crises de ansiedade em aeroportos, descobre-se quase impotente em Angola. O mundo das engrenagens práticas e das interpenetrações orgânicas se revela mais dificultoso do que ele imaginava. Já pensa em cortar a viagem pela metade e admitir a sua insuficiência diante dos incontáveis braços de Coto, Giges e Briareu quando faz um amigo na Ucrânia, um senhor perdido nas ruas, cego de um olho, aposentado, segurando um cachimbo vazio, que oferece a todo transeunte um resumo histórico das procelosas complicações geopolíticas da região por apenas oitenta grívnias – não coincidentemente o preço de uma sopa de cebola muito bem feita num restaurante ali próximo. Bruno fica amigo desse senhor - “uma amizade muito especial”. Em diversos momentos, ao dormirem juntos no sofá-cama cheirando a mijo velho em que dorme o senhor, na casa de suas duas tias idosíssimas, já quase mortas, dá impressão de que vão transar. Bate maior climão, mas acaba que nunca acontece. Nenhum dos dois já comeu ou deu prum homem antes, e não entendem como se dá a diplomacia ativo-passivo. São ambos, e de maneira diversa, muito tímidos. Acabam se casando num arranjo não-sexual, jogando muito videogame. 

Anos mais tarde, sintetizam um filho com o seu material genético combinado e a ajuda do óvulo, do útero, da despachância e dos préstimos rítmicos de uma senhora congolesa muito gorda, testuda e gentil, com quem formam uma família ainda mais especial. Mudam-se para Boiçucanga, onde montam uma pousada. O bebê nasce hermafrodita, com quatro olhos e seis braços, lindíssimo. Nasce já falando sânscrito e iorubá, manejando o arco e programando em UNIX. Os três criam o bebê para liderar politicamente as massas revoltosas e famélicas contra o Ocidente, destruir o Império Imagético de Consumo Norte-Americano com hipnose e Tecno-Umbanda, executar membros do parlamento europeu numa cerimônia ao vivo (com shows de bandas cover do Sepultura e do Olodum) forçar os países que colonizaram outros países a arcar devidamente com sua dívida histórica, devolver os tesouros históricos que saquearam, resetar todo o sistema financeiro internacional e formar uma união pluriafetiva-transespecífica-politeísta-e-pancontinental de povos que vem a reunir um terço da população mundial, antes de ser tragicamente derrotada por uma traição vergonhosa dos franceses, dos ingleses e dos alemães, que preferem ser dominados pela China e pela Rússia a engolir aquela putaria toda no seu quintal, com aquele tanto de viado, de bicho, aquele cheiro empestado de curry. 

Thursday, March 12, 2015

Gaia e suas tretas
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If thou openest not the gate to let me enter,
I will break the door, I will wrench the lock,
I will smash the door-posts, I will force the doors.
I will bring up the dead to eat the living.
And the dead will outnumber the living."




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Outubro passado ocorreu o colóquio Mil Nomes de Gaia, no Rio, com Viveiros de Castro, Bruno Latour, Isabelle Stengers, telepresença da Donna Haraway e grande elenco. 

Isso aqui são uns comentários que escrevi um pouco depois, baseado nas notas que fui tomando esparsamente durante as falas. 

I. 

Um dos maiores problemas da crise climática é a dificuldade aparente de fazer o que já parece ser certeza científica se traduzir de forma expressiva em termos políticos. Há quem (como a Naomi Klein) veja nessa situação uma oportunidade tremenda para catalisar todas as principais demandas emancipatórias globais, organizadas agora em torno das demandas urgentes por redução da nossa taxa de emissão de combustíveis fósseis (que necessariamente precisa passar por uma redefinição global do que se estabeleceu nas últimas décadas como expectativa quase universal de consumo). Por enquanto, as chances não parecem lá das melhores. 

 A causa ambiental já é corrente (e massificada, ainda que de forma diluída e inofensiva, quase sempre) há décadas, todos que costumam trafegar por causas tidas por progressistas costumam fazer lá suas menções eventuais e defesas de elementos pontuais. Mas é difícil ver mesmo a retórica desses grupos assumir a escala de urgência que os especialistas sugerem que deveríamos assumir. O que acontece, quase sempre, é mais um esforço publicitário de se botar um verniz eco-amigável em tudo que é atividade dispendiosa e destruidora, antes de se tentar mudar qualquer aspecto substancioso da nossa situação (o que implicaria, se não uma mudança radical de regime político-econômico, no mínimo um re-arranjar brutal da maneira de produzir coletivamente os nosso desejos)

 Esse problema, como todo problema político, é, em grande parte, se não todo, imaginativo (ou seja, estético). 

II. 

A Gaia de seios vastos da Teogonia do Hesíodo, a Pachamama andina e quaisquer outras imagens míticas para a Terra que se quiser arranjar são geralmente figuras de uma extensão e poder avassaladores, primordiais, muitas vezes maiores do que as capacidades dos meros humanos. Isso, obviamente, não é acidental, as figuras que fazemos da Terra sempre espelham o assombro que a escala e o poder dos fenômenos naturais trazem pro nosso corpo. O difícil, em parte, é fazer esse tremendo reajuste imaginativo a respeito da espécie humana, que com os avanços da técnica desde a revolução industrial passou em pouco tempo de entidade biológica (como tantas outras na Terra, ainda que uma bem esperta) a força geológica, capaz de mudar os termos do contexto em que se encontra numa proporção que antes só a mitologia costumava achar possível.

 Perceber que a nossa compósita agência pode, sim, ameaçar a integridade do sistema biológico no qual tamos metidos é estranho, até meio contra-intuitivo, mas é uma realidade técnica com a qual convivemos pelo menos desde a invenção da bomba (que alguns colocam como o marco zero do antropoceno). Oppenheimer famosamente citou o Bhagavad Gita ao se deparar com o teste da bomba, "Agora eu me tornei morte, destruidor de mundos", num misto estranho de aparente húbris e genuíno pavor diante da força avassaladora que se criava. Quem tem cu tem medo e treme, diria o poeta. O temor e o tremor que já vem empacotados juntos na cabulosidade atômica, tão bem assimilados pela cultura popular japonesa, devia, talvez, ajudar-nos um pouco a entender a dimensão técnica da nossa espécie (assim como a de alguns impérios), tão esperta e tão imbecil, capaz de instrumentalizar a natureza da qual faz parte a ponto de botá-la em risco.

 É genuinamente difícil olhar para o mar - essa coisa tão enorme, tão absoluta, de onde se arrastaram os veículos expressivos de água que acabaram dando na gente - e enxergar naquela imensidão toda que ele congrega e representa em toda sua avassaladora profundidade uma força sujeita às modificações que a nossa presença coletiva faz no ambiente (o lixo que produzimos, a energia que consumimos). A impressão para quem bota os pés na água fria castrante ainda é de que aquela força ainda nos é infinitamente superior pra todos os lados.

Freud, num de seus momentos mais descaradamente mitógrafos, diz em Totem e Tabu que a cultura começa com um patricídio conjunto feito por irmãos. Luce Irigaray diria que antes disso teria acontecido um matricídio ainda mais primordial. As duas hipóteses parecem meio fantásticas, enquanto narrativas antropológicas efetivas e totalizantes pro nascimento da cultura, mas não deixam de ter, ambas, sua distinta expressividade política (a segunda um tanto maior, é verdade, até porque o que o Freud tá dizendo dá pra encontrar na Teogonia, já, ainda que exposta em outros termos).

Se os mais alarmados estiverem perto da verdade (e eles podem até estar exagerando um tanto que a coisa continua bem tenebrosa), isso significa que nós já matamos, não necessariamente a terra, ela mesma (até porque ela teria que constituir um organismo vivo inteiriço pra morrer, segundo vai o vocabulário conceitual mais óbvio, e nem Lovelock sugere isso, exatamente), mas a conjuntura específica de fatores que tornou nossa espécie possível; isto é, o meio no qual sempre estivemos imersos, do qual sempre fomos dependentes, em sua interrelação de componentes que tornaram o nosso tipo de organismo possível;  e que em sua totalidade expressiva já foi em tantas mitologias figurada como uma mãe, pela analogia com seu aspecto de força fértil geradora. O matricídio primordial repetido, agora numa escala inumana. 

Uma das coisas que se disse mais de uma vez durante o colóquio (uma das vezes pela Juliana Fausto) é que a maior evidência do antropoceno não é a climática, mas a de perda de espécies. Os últimos duzentos anos tiveram uma taxa de extinção tão absurdamente acelerada que isso, por si só, fora a situação climática, já bastaria para qualificar uma brutal mudança de termos cênicos (se permitem o trocadilho). 

Formas de vida extintas significam mundos expressivos inteiros destruídos, sumidos do universo, daquilo que é o caso. Como quando o mundo perde uma língua ou uma cultura, o que se perde é todo um repositório expressivo  (Vicente Ferreira diria cênico) da vida na terra e de suas compossíveis articulações contextuais. 

Se toda cultura é uma manifestação externa cristalizada de como o homem consegue produzir identidades e localidades, uma nova versão das plásticas possibilidades coletivas da nossa espécie, se uma língua comporta sempre uma gramática expressiva do mundo, todo animal e planta é também uma forma própria de se organizar em meio a um ambiente, todas as formas de vida um repertório intrincado de respostas a problemas do seu meio que compõem o todo interrelacionado da natureza enquanto totalidade criada e criadora. Toda coisa viva é crítica, diria Kenneth Burke (toda coisa pensa, o Deleuze)*. Os dois, acho que dá pra dizer, via Leibniz e sua mônada. 

O que não se costuma deixar claro com tanta frequência é que tanto a destruição de formas culturais pela universalização de algumas expectativas de consumo quanto a destruição de formas de vida através da nossa maneira violenta de viver enquanto espécie implicam em perdas informacionais genuínas para o todo. O mundo fica mais pobre com toda cultura e língua que se destrói ou se assimila à força aos moldes e sulcos do consumo, e o mundo fica mais pobre com todo animal que exterminamos. Perde articulações, instrumentos e virtualidades expressivas de diversas ordens.

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*. Toute corps, toute chose, pense et est une pensée, pour autant que, réduite à ses raisons intensives, elle exprime une Idée dont elle determine l'actualisation (Différence et Répetition, p.327)

Todo corpo, toda coisa, pensa e é um pensamento, pelo tanto que, reduzido às suas razões intensivas, ela exprime uma idéia cuja atualização ela determina.

III.

A nossa capacidade atual de exterminar diversidade e produzir o mesmo numa proporção aterradora pode, talvez, ser vista como uma aceleração desenfreada dos processos naturais de entropia. Foi isso o que entendi da apresentação muitíssimo interessante (e igualmente confusa) do Mauro de Almeida. Se o universo tende para a perda gradual de complexidade e aumento da desorganização, culminando daqui a uma cagalhada de tempo numa morte térmica inevitável, (como sugere a segunda lei da Termodinâmica), a monocultura civilizacional do consumo, inventada há tão pouco tempo, vai continuar indefinidamente aumentando a proporção em que consume fósseis antigos (vida sedimentada por tanto tempo) e produz novos. Carcaças de celulares, de carros, de geladeira, assim como infinitas embalagens de plástico pra povoar as nossas vastas terras desoladas por alguns milhares de anos, pelo menos. 

Se tanto das possibilidades da técnica hoje implicam em enxergar o mundo todo como matéria-prima para transformação energética que mantenha girando e crescendo os moinhos do Deus-consumo, os efeitos materiais brutos dessa disposição insustentável ficam, geralmente, bem longe das bolhas de otimização (ou de redução de entropia) onde o topo da pirâmide mora.  O que fica encapsulado na interface do consumo é toda a cadeia produtiva daquilo que se consome. Quem tá lá usando smartphone, andando de SUV e comendo sushi não tem que lidar com a realidade da fábrica que montou o celular, não tá sentindo o desperdício colossal de energia que a sua locomoção acarreta, sentindo o cheiro de lixo e merda que sua pessoa causa fora dali, e nem vendo os quilos de vida marinha morta colateralmente pra se arranjar aquelas fatiazinhas tão gostosas de atum.

Arranjar formas práticas de tornar inteligível a extensão técnica dos nossos atos de consumo é um desafio do caramba. Como já falei, até por uma questão de escala, tanto no sentido da magnitude esmigalhar a nossa capacidade de reconstituição imaginativa quanto no sentido da ubiquidade de determinadas práticas tornar muito difícil, para a maioria das pessoas, enxergar nelas algo possivelmente errado ou sequer estranho (comer carne criada de forma industrial, adicionar um sabor artificial de batata numa batata congelada, ter como padrão usar terno e ar-condicionado num país tropical)

 A maneira mais alardeada da própria máquina lidar com a situação, claro, é de traduzir essa consciência em consumo sofisticado eticamente consciente e inovações tecnológicas estrombólicas que salvem o nosso rabo quando a coisa esquentar de fato. Opções orgânicas e locais se tornando uma estilização ética pra determinados grupos socioeconômicos, de um lado, e geoengenharia e semelhantes temerosidades do outro. Nenhuma das duas coisas, por si só, deve chegar a fazer cócegas no problema.

Tentando meter a nossa imaginação em marchas que dêem conta do tamanho da besta, é fácil acabar olhando pra gente como qualquer outra máquina auto-replicante, um aparato que reitera a si mesmo (com muito sucesso, aliás) e vai se reproduzindo como pode. Além da conta, no nosso caso, e da maneira mais desastrada possível, até comer o próprio rabo. Retomando a metáfora (admitidamente imprópria) de Gaia como um organismo, a gente passa a se parecer bastante com um câncer.

O problema de enxergar a coisa nessa escala é que podemos perder de vista quem são os responsáveis por esse quadro. Foi a nossa espécie que chegou nesse cume, certo, mas foram espécimes bem específicos dessa espécie que criaram a situação (devemos agradecimentos antes de tudo aos modernos, por sua instrumentalização técnica de toda realidade, sem a qual nada disso seria possível; depois, suponho, ao império norte-americano, por sua criação desde o fim da segunda guerra de uma utopia simbólica de consumo produzida em massa em escala global; depois, que tal as 90 empresas responsáveis por dois terços de toda emissão humana? a lista continua, mas claro que não tenho competência pra preenchê-la com a devida gravidade) 

Perceber o quanto o regime desastroso em que vivemos data de pouquíssimo tempo atrás pode tanto trazer otimismo (se foi feito ontem, pode ser desmontado amanhã) quanto pessimismo (como que conseguiram me cagar tudo tão rápido assim?). O mais importante, acho, ou uma das coisas mais importantes, é fortalecer a todo tempo o estranhamento diante da estupidez dessas formas de habitação e atentar para a genealogia de todas as péssimas escolhas civilizacionais tomadas nas últimas décadas*. E já  que tamos falando nisso, aliás, atentar pra materialidade de todas as nossas redes técnicas de comunicação social tampouco seria uma má ideia. 

Há quem goste de diminuir ou desqualificar o ímpeto socialista (ou até, digamos, o anarquista) dizendo que é uma "imanentização do eschaton" (ou seja, a vontade de tornar imanente o estado ou lugar sobreterreno que fica pra depois da história, o apocalipse). Se as previsões se confirmarem, a ironia é que terá sido justamente o capitalismo, junto de seu deus-consumo, a trazer o eschaton, ainda que de outro tipo. Os dois terão enfim um apocalipse bem imanente pra chamar de seu. Ou ainda, vários deles, sucessivos, arrastados e diferentes de tudo que já se imaginou. E, como sempre, a parte de baixo da pirâmide será a primeira a sentir na pele os seus efeitos mais brutos. Ou, como um amigo meu diz há alguns anos, se o Capitalismo enfim levar o mundo a um desastre ambiental da escala do que se prevê de forma já corriqueira, ele terá sido, sem sombra de dúvida, o pior sistema de alocação de recursos já produzido. 


No lugar de uma conclusão, que não existe, um poema do Gregório de Matos: 

Na oração que desaterra a terra 
Quer Deus que a quem está o cuidado dado 
Pregue que a vida é emprestado estado 
Mistérios mil que desenterra enterra

Quem não cuida de si, que é terra, erra
Que o alto rei, por afamado amado 
É quem assiste ao desvelado lado 
Da morte ao ar não desaferra aferra

Quem do mundo a mortal loucura cura
A vontade de Deus sagrada agrada
Atar-lhe a vida em atadura dura 
Ò voz zelosa que dobrada brada
Já sei que a flor da formosura, usura
Será no fim dessa jornada nada 

______________
*
Perceber, entre outras tantas coisas, que os muitos exemplos que a antropologia mostra de sociedades sem estado não precisam ser considerados falhos ou insuficientes frente uma totalidade que se atinge numa progressão evolutiva inequívoca. Assim como o monoteísmo não é uma culminação necessária (ou sofisticação técnica) do politeísmo, como tantas vezes se propôs no ocidente. 

Thursday, February 12, 2015

Alguns exercícios
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Pense num estabelecimento comercial. O dono é um senhor barrigudo cujo nariz quase certeza que é um tubérculo. Ele nunca olha para as pessoas que entram no seu estabelecimento, apenas bufa audivelmente. Quando acontece de olhar, sempre parece por acidente. Trabalham nesse estabelecimento mais duas garotas, novas, que riem bastante. Sempre que você compra (suco, pão, cigarro) nesse estabelecimento você tem a ligeira impressão (1) de que o homem te acha ridículo e (2) de que as meninas te acham risível. Existem outros estabelecimentos comerciais no seu bairro, inclusive vendendo melhores marcas de achocolatado e apresuntado. Você, no entanto, só compra nesse.

Pense num país. Bem pequeno, com uma burocracia que não precisa de mais do que sessenta e cinco pessoas pra ser gerida. O organograma de todo o serviço público do país cabe numa cartolina comprida que fica enrolada na sala do Ministro do Interior. O ministro do Interior não tem muito o que fazer. O país não tem obras de infraestrutura a serem realizadas, não tem potenciais de exportação ainda não explorados, não tem dinâmicas internas de produção que precisem ser interanimadas com outros setores da economia. No dias mais vazios, depois das três da tarde, o ministro começa a tomar seu uisquinho. Tira os pés dos sapatos, senta com as pernas cruzadas na cadeira. Desenrola a cartolina com o organograma do serviço público nacional, vai adicionando de caneta bic ramificações do seu ministério, subdepartamentos inexistentes, atribuições rocambolescas, dotações orçamentárias ultrajantes. A secessão de um bairro no país faz com que o Estado fique menor ainda. Perguntam para o Ministro se ele se incomodaria de dividir a sala com o Procurador-Geral da República. Ele responde tacando um de seus sapatos na direção da porta.

Pense na sua alma. Se você acha alma uma palavra "espiritual" ou "transcendental" demais, pense no seu estômago, intentino delgado ou grosso, par de pulmões, etc. Agora pense nessa alma (ou estômago, ou intestino delgado, ou grosso, ou sistema circulatório, até) esvaziada do que ela tem, derramando pelas mangas, jorrando mesmo, e depois esprimida, até não sobrar nada, ficar só a forma oca, despreenchida, dobrada em si mesma. Caídas no chão, as suas partes parecem agora algo como pedaços de pano e juntas movediças sujas de alguma coisa gosmenta. Agora volte e passe espíritos distintos naquele mesmo maquinário, pra ver o que acontece. Ele fatalmente vai se inflar de novo, assumir diversas poses, figuras, esgarçar umas aberturas, amolecer umas partes rígidas de sua anatomia, enrijecer partes moles, assumir o que poderíamos chamar de uma plasticidade formal maior, de um repertório expressivo significativamente mais robusto. Agora retorne o seu espírito anterior pra dentro daquele maquinário (se o tiver extraviado; o que é normal, arrume outro, de qualquer material). Você verá com toda certeza que quase todos os seus medos deixaram de existir.

Pense num jogo de futebol americano universitário. Diversos homens correndo, trombando deliberadamente uns com os outros. Os cérebros dentro do maquinário de ligas, juntas e carne se chocam o tempo todo contra as paredes do crânio. Na plateia, um antropólogo e um analista de sistemas discutem o que é que eles estão assistindo. O analista de sistemas é tcheco, acha o esporte ridículo, só gosta de futebol de verdade. O antropólogo é norte-americano, cresceu assistindo aquilo, mas hoje tem dificuldade de conciliar o seu carinho pelo esporte com a violência que ele envolve, necessariamente. Vários daqueles jogadores terão demência no final da vida, ele diz. Eles todos estão sofrendo o equivalente a uma série de pequenas colisões de carro, toda vez que jogam esse jogo. O primeiro diz que aquilo é um análogo de guerra, mas um que traz catarse, deixa a galera ventoar umas coisas, e que esse lado ele acha legal (o analista de sistemas inventa palavras quando não sabe se expressar com uma existente, o antropólogo sabe e gosta disso). O antropólogo fala que acha que é, sim, um análogo expressivo da guerra, até pela coisa territorial, mas não acha que seja minimamente catártico, acha que funciona mais na base mimética mesmo, uma estrutura menor e menos séria  daquele que é o gesto representativo total daquela sociedade, espelhando e reforçando o ato dramático que mais diretamente congrega aquela vastidão num único corpo expressivo. A guerra. As tropas sinedóticas que morrem pela sua liberdade lá nos longes marrons, eles acreditam. A sério. Os dois estão bêbados; um deles está, também, fumado. Os dois ficam em silêncio, demoram por um instante os seus olhares nos traseiros chacoalhantes das animadoras de torcida, embora um deles seja homosexual (eles estão perto o bastante pra que no momento toda a comoção coreografada e tão jovem reúna boa parte das atenções disponíveis). O analista de sistemas pergunta: se agora eles estão subcontratando a guerra para os robôs, será que vão fazer isso com essa aqui, simbólica, também? O antropólogo ri, levanta os olhos de novo para o jogo, imagina aquele mesmo lugar tomado por robôs (ou ciborgues) daqui a vinte, ou trinta, anos. Maxilares que caem e são re-instalados na hora, botinhas turbo que soltam fogo, lançamentos precisos de centenas de metros, eles se desmontando nas porradas, torsos se descolando das cinturas (como naqueles Comandos em Ação antigos) e se remontando. Ambas espinhas tem um tremelique.

Pense na pessoa que você mais ama, e que agora tem apenas desprezo por você e tudo que a sua pessoa congrega e representa (se essa pessoa não existir, conjure a sua dimensão emocional a partir de elementos de pessoas que existam). Imagine agora essa pessoa do seu lado, contorcendo o seu rosto em figurações expressivas de desprezo, formulando durante horas variações de frases incisivas que repisem justamente aqueles pontos mais farelentos e quebradiços do seu caráter. O seu amor por ela, enquanto isso, vai inchando, sem saber pra onde ir e o que fazer consigo mesmo, preenchendo sulcos esparramados, completando reservatórios secos, vestindo paletós e calças guardados no armário.

Vocês se separam de novo. Você volta aí pro seu trabalho na firma, ela volta para a sua rotina itinerante onde ela coordena diversas forças-tarefa eminentemente práticas e locais em defesa do meio ambiente, dos direitos humanos e da diversidade ontológica (amplamente compreendida)

Você acompanha as vitórias dela pelas redes alternativas de angariação e reverberação de eventos noticiosos. O seu grupo liberta diversas cidades, escravos, espécies, afirma a legitimidade política e afetiva de uma série de agrupamentos comportamentais. Vários amigos seus compartilham fotos dela em palanques, comitês, barricadas. O seu amor por ela explode canos, irrompe de aortas.  Enquanto isso, a firma para a qual você trabalha vende aparelhos usados de radiografia para presídios do interior, você mente para a sua avó deprimida e sozinha que está ocupado demais para visitá-la.

Todos os eventos contínuos da realidade parecem confirmar de maneira quase escandalosa todos os pontos defendidos por ela na última ocasião em que você foi (justamente) descascado. Você secretamente acredita que ela talvez seja o messias redivivo (ou, no caso, rediviva). Numa das fotos, se você olha direito, ela parece estar levitando.

Vocês se encontram novamente, dessa vez no interior do Paraná. Ela está lá a trabalho, você a seguiu para que pudessem se encontrar, de novo. A passagem, comprada de última hora, não foi barata. Ela chega duas horas atrasada, cercada da patuscada irritante que sempre corre com ela agora. Tá vestida só de diversas penas sintéticas coloridas formando uma penugem iridescente como a cauda de um pavão, com só uns trinta por cento do seu corpo descoberto (mas justamente as partes mais interessantes). Quando você pergunta pra ela de qual é a das penas e faz uma piada a respeito do Carnaval ser só semana que vem, ela nem finge que ri e fala por tempo demais do pavão e seu simbolismo alquímico, Proustiano, Jorge Beniano. Você olha pra cima, pras unhas.

Por um instante, a arrogância tão feia dela (ainda que justa, em certo sentido) a respeito da sua própria  exuberância  lhe permite que sua extrema pujança moral e estética se veja diminuída por um instante. Por esse tanto, pelo menos, você é muito grato.

Pense num professor universitário de religião comparada. Ele (você) tem trinta e cinco anos e rabinho de cavalho, alterna estranhamente entre camiseta e pochete e um blazer de veludo verde-escuro. Tenta cultivar uma imagem aberta, experiente e um pouco misteriosa, de alguém que detém mistérios orientais e alguma expertise lisérgica e mística que ele gostaria que já sentissem nele antes que ele soltasse qualquer sinal mais explícito nesse sentido. Ele nunca tinha tido nada muito próximo de uma experiência mística, embora as achasse bem interessantes de se ler, fingidas ou genuínas.

Um dia, depois de cochilar diversas vezes assistindo televisão, e não conseguir nem chegar na metade da comprida cinebiografia do Malcolm X, ele decide desligar a televisão, vai do sofá pra rede. Fica deitado na rede olhando para o armário de cor de madeira, pescando.
Olha de repente para a janela, a faixa de vidro que fica bem à altura da sua atenção quando está na rede (e só nessa ocasião).


Tem só três meses que ele mudou pra esse apartamento. Ele olha e de longe tem a impressão de estar vendo um palito de fosfóro e as lascas de um lápis, assim flutuando no escuro. Ele não entende direito o que é que ele tá vendo. Pensa de repente que estão congelados ali gestos dele dos quais ele ja tinha esquecido. Fixos por alguma estranha intervenção.  Talvez por estar quase dormindo, isso lhe parece muitíssimo óbvio e profundo, ao mesmo tempo, e ele em seguida entende, com muita naturalidade, o tempo como um elemento espesso no qual todo mundo está metido, entranhado, o tempo todo, viscoso como xarope de bordo. E vidro era luz grossa. As imagens deviam ter se atrasado ali dentro daquele ali, ele pensou. Claro. Isso fez todo o sentido do mundo. Ele percebeu que poucas vezes esteve tão feliz, e tranquilo, antes de adormecer.

No dia seguinte, de manhã, enquanto toma café aguado e come biscoito  de maizena, ele lembra da experiência, fica até emocionado. Começa a narrar todo o processo pra si mesmo várias vezes, modulando o tom e as ênfases, acinzelando uma sucessão dramática. Quando volta pro quarto pra dormir mais dez minutos antes de se vestir (ou até tomar banho, dependendo da hora), ele ao deitar na rede olha de novo pra mesma faixa da janela, e vê que o fósforo e as lascas de lápis (e também umas colunas baixas de cinza de cigarro) ainda estão lá, flutuando, só que numa teia de aranha; ela que agora você consegue ver também, na dela, do tamanho dum chip de celular, cinza-marrom, calma.

Monday, February 02, 2015

A Tábua


1.



Ano passado o álbum “Tábua de Esmeralda”, do Jorge Ben, fez quarenta anos. Um disco importante da nossa música popular, e que só parece crescer em estatura, o Tábua foi lançado em 1974, época duma procura (tão intensa quanto porosa) por alternativas místicas de todo tipo, das vagamente orientais às vagamente antiquíssimas, astrologia e ufologia combinadas livremente com vocabulário de auto-ajuda e parapsicologia, e ainda jogando o termo “quântico” pra todo lado que colasse.

Na mesma época saiu o (também) eminentemente cabuloso “Racional”, de Tim Maia, fruto de seu envolvimento com um culto bastante idiossincrático que ele viria a abandonar e, em seguida, ridicularizar com veemência (dá pra encontrar na internet uma entrevista dele no Jô Soares onde fala que aquela era “a maior fria das frias”, e pra quem estiver dentro sair o quanto antes). O tremendo álbum, considerado por muitos o seu melhor, saiu de circulação, mas é há algum tempo cultuado por toda uma nova geração de fãs (essa aí que já tá ficando velha e nostálgica e que jamais dependeu da disponibilidade comercial da música que escutam). No mesmo ano saiu Gita, do Raul Seixas, onde na faixa-título ele diz que é “feito da terra, do fogo, da água e do ar”), e um ano depois, sairia o Paêbiru, de Lula Côrtes e Zé Ramalho, disco-de-doidão por excelência (que é, entre outras coisas, sobre a Pedra do Ingá, e dividido em quatro partes, cada uma sobre os mesmos elementos divididos que compõem o Raul Seixas, dividos primeiro pelo Empédocles)

O álbum de Jorge Ben claramente é um produto desse momento, com a ilustração de sua capa remetendo a mistérios antiquíssimos, abrindo no anúncio triunfal e sereno - com a sussaness de espírito que só podemos esperar do próprio - de que os alquimistas estão chegando, passando por menções a possíveis deuses astronautas (em “Errare Humanum Est”), Paracelso (“O Homem da Gravata Florida”) e, claro, a Tábua de Esmeralda do título. Quem que seria o tal do Hermes Trismegisto? No encarte do álbum ele é descrito como um faraó egípcio, o que não é exatamente verdade. Mas as lendas em torno da figura de Hermes Trismegisto tem uma história antiga, profusamente anotada, e muito mais séria do que se imagina.

2.
O poeta e crítico mexicano Octavio Paz descreve Hermes Trismegisto como um amálgama helenístico do deus grego Hermes com o deus egípcio Thoth. Hermes é o deus mensageiro dos gregos, o de asinhas nas sandálias (ou no boné), que intermedia tanto a viagem de almas para o Hades quanto a comunicação com outros deuses (o que acabou dando no nome “hermenêutica”) além de presidir encruzilhadas, inventar a lira e, roubando o gado de Apolo, cumprir às vezes o papel de trickster (como o nosso Exu, outro deus mensageiro, intermediador entre os deuses e entre nós e os deuses). 

Thoth é o deus egípcio que às vezes tem cabeça de pássaro, às vezes de babuíno, normalmente tido como responsável pelo desenvolvimento tanto da escrita e das leis quanto da magia, além de exercer papel importante no tráfego das almas até o além e no juízo sobre as almas defuntas (nos hieróglifos encontrados em sarcófagos aos quais se costuma dar o nome, no Ocidente, do Livro Egípcio dos Mortos, alguns deles se assemelhando tremendamente a receitas mágicas, com fórmulas de nomes de entidades que se precisa conhecer, assim como a forma direita de endereçá-los, boa parte das narrativas imagéticas ilustradas parecendo configurar uma narrativa didática progressiva, e aventuresca, do que uma alma precisa fazer ao chegar no além-mundo).

A essa figura, obviamente um tanto fantástica, são atribuídos os textos do chamado Corpus Hermeticum, um apanhado relativamente misterioso de diversos tratados filosóficos, místicos e teúrgicos datando dos últimos séculos a.C. até os primeiros séculos d.C. De variado estilo literário (e, pra muitos, reunindo ideias bem conflitantes), com uma série de diálogos de Hermes Trismegisto com aprendizes e outras entidades, chegando a incluir o que parecem ser instruções de como se criar um Deus (que muito irritaram Agostinho, que cuidou de lidar com Hermes Trismegisto dentre as várias ilusões hereges detidamente desmontadas no seu Cidade de Deus ). Esses tratados são a base da tradição que se chama de hermetismo (sendo daí, aliás, que vem a palavra hermético, designando algo difícil, que requer algum tipo de iniciação específica, frequentemente secreta).

Trismegisto significa “três vezes grande”, e achou-se por muito tempo que o autor desse grupo de textos seria um grande sábio egípcio, por vezes descrito como um mago, ou um grande herói cultural prometeico, anterior à Platão e Pitágoras (em algumas versões, contemporâneo de Moisés). Encontravam tremendas relações entre textos do Corpus Hermeticum com Gênesis, e por toda parte prefigurações de Cristo e da trindade.

A sua fama era tamanha que quando os textos do Corpus Hermeticum chegaram às mãos de Cosimo Médici ele mandou interromper as traduções pioneiras dos diálogos de Platão que estava bancando para que os textos de Hermes pudessem ser traduzidos (já que Hermes seria não só anterior a Platão, mas de maior estatura histórica, com gente chegando a supor que ele teria sido o inventor da língua egípcia, ou mesmo da linguagem como um todo).

Não é tão claro quando ou em que termos que essa conjunção se formou. No chamado Livro de Thoth, compilação de escrita egípcia demótica, o deus é chamado de três-vezes-grande. No seu Da Natureza dos Deuses (De Natura Deorum), Cícero enumera cinco versões diferentes de Mercúrio (o Hermes romano), e a quinta delas é descrita como tendo ido para o Egito, criado as letras e as leis egípcias e se tornado Thoth.

A ideia de um deus se misturar com outro (ou virar outro) pode parecer engraçada, mas, além do sincretismo que caracterizava o período histórico em que a maioria dos textos herméticos foram escritos, é importante notar que tanto o politeísmo grego quanto o egípcio eram muito mais fluidos do que os monoteísmos que conhecemos, ainda mais em suas roupagens modernas, com suas denominações e liturgias rígidas, engessadas.

Tampouco era incomum na antiguidade que pensadores tivessem essa imagem mais mística, ou iniciática. Pitágoras é muitas vezes descrito como mágico. Diz-se que ele teria uma coxa dourada, conseguia estar em dois lugares ao mesmo tempo e faria milagres. Embora hoje o conheçamos principalmente como matemático (e pelo teorema que leva o seu nome), ele era na Grécia mais conhecido como uma figura religiosa, pregando a transmigração das almas e um modo de vida vegetariano (que não comesse nada que tivesse alma, o que de algum jeito incluía feijão) num universo cuja realidade derradeira seriam os números. Empédocles, outro filósofo grego a quem já foi atribuído poderes mágicos, vestia-se de forma extravagante e, como Heráclito e Parmênides, escrevia em versos.

Depois do filólogo Isaac Casaubon demonstrar em 1614 que o Corpus Hermeticum não era tão antigo quanto se supunha, a figura mítica de Hermes Trismegisto foi aos poucos perdendo muito de seu brilho fantástico, assim como o próprio hermetismo enquanto tradição filosófica ocultista. Mas até isso acontecer Hermes Trismegisto teve séculos de tremenda e variada influência na cultura ocidental (permanecendo, ainda, nos séculos seguintes, como uma figura mais obscura, mas ainda com suas poças de influência). Até hoje é possível encontrar menções confusas a Hermes Trismegisto nos lugares mais variados (geralmente transitando num imaginário esotérico qualquer).

O texto musicado por Jorge Ben na canção “Hermes Trismegisto e sua Celeste Tábua de Esmeralda” é tirado pelo cantor e compositor diretamente, sem tirar nem por, da Tabula Smaradigna, tradução latina de uma obra alquímica árabe que data do século XII, também atribuída a Hermes Trismegisto e muitíssimo influente na idade média tanto para o mundo árabe quanto para o mundo cristão. A ocorrência mais antiga desse texto, datada entre o século sexto e oitavo, é do árabe Kitāb sirr al-ḫalīqa (O livro do segredo da criação e da Arte da Natureza), de Balinas (ou Pseudo-Apolônio de Tiana).

A história (bem fantástica) que acompanha essa primeira ocorrência do texto, e encerra o livro, é de que o autor teria encontrado uma tábua de esmeralda empunhada por um cadáver numa cripta misteriosa, debaixo de uma estátua de Hermes, em Tiana (na Capadócia, aliás). Apesar da fonte original ser árabe, quase toda tradução que se encontra do texto vem de alguma das traduções pro latim, infelizmente.

A alquimia hoje é principalmente lembrada como uma versão tosca e mística da química (obcecada, no seu retrato mais caricatural, com uma fórmula que transmutasse chumbo em ouro). Mas é importante lembrar que ela não só gozava de uma reputação séria até o advento da ciência moderna, como ainda cumpriu (junto do Hermetismo) um papel muito importante no desenvolvimento do pensamento especulativo científico ocidental da forma que o conhecemos.

Newton não só foi um dos tradutores da Tabula Smaradigna, como devotou uma porção substanciosa do seu tempo a estudar a alquimia, assim como Paracelso, um dos precursores da botânica e da toxicologia modernas (sobre quem Jorge Ben canta em “Homem da Gravata Florida”, do mesmo álbum; sendo o suíco-germânico ainda alvo de um grande poema de Browning, e influência como pensador para John Donne, o grande poeta metafísico inglês, outro poeta que vivia usando imagens alquímicas).

Frances Yates mostra que Copérnico cita Hermes Trismegisto, a sua compreensão do sol como pai de todas as coisas (ou como “deus visível”) tendo servido no mínimo de forte influência imaginativa (e talvez mesmo como comprovação de autoridade filosófica) para o ato de colocá-lo como o centro do nosso sistema planetário.

No texto em si da música de Jorge Ben, podemos encontrar aquele que é considerado o princípio hermético: “o que está embaixo é como o que está no alto, e o que está no alto é como o que está embaixo”. Este princípio, que ilustra a relação entre microcosmo e macrocosmo (muito presente tanto na teologia quanto na mística cristã) está no cerne da relação entre hermetismo e alquimia.

Para Jung, que compreende a linguagem da alquimia como descrevendo o processo psíquico de individuação (e não uma forma de literalmente obter ouro a partir de outros materiais, tampouco uma literal vida eterna), o que se descreve no texto é a possibilidade de transmutação criativa e deliberada de toda nossa experiência. Todas as coisas vindo do um, os opostos (a mãe e o pai, a lua e o sol, a massa de fertilidade caótica e a luz racional ordenadora) se completam e se cumprem uns nos outros,
coincidentia oppositorum, através de um meio em comum, que no texto seria o ar, mas que Jung em momentos parece sugerir ser a linguagem, ou, sendo mais específico, a nossa capacidade expressiva individual (através da qual todas as coisas nos são nascidas, ou apresentadas, “por adaptação”, na nossa constituição imaginativa da realidade).
Da fato, o que Jorge Ben descreve cantando é um processo, que vai da separação da terra e do fogo (símbolos de transformação elementar alquímica, assim como a água e o ar), do sutil e do espesso, ascende da terra, descende dos céus (recebendo assim a força tanto das coisas superiores quanto das inferiores), e culmina naquele que é endereçado pela música recebendo a glória do mundo (ou melhor, sendo prometido “por este meio a glória do mundo”), toda a obscuridade lhe fugindo.

Esse ato de transformação que culmina na força criativa constitutiva do próprio poema (ou, no caso da música, da música), aqui é comparado ao ato que se supõe da criação divina do mundo: “Assim o mundo foi criado / disso sairão admiráveis adaptações
das quais aqui o meio é dado”

Essa comparação, de novo remetendo a relação entre microcosmo e macrocosmo, criador e criatura, a pequena e a grande estrutura, é também frequente na poesia, que Coleridge chamava de um análogo tênue (ou pálido) da criação divina. O crítico Kenneth Burke, no seu esquisitíssimo livro Grammar of Motives, fala que a criação (no sentido da totalidade da força criativa geradora da natureza, algo como a natura naturans do Spinoza) seria o protótipo lógico da ação.

Para Jung, podemos dizer que aquele que fosse bem-sucedido em seguir o processo descrito pela Tabula Smaradigna teria conseguido transformar toda sua substância arcana (toda sua individualidade psíquica, digamos, aquilo que chamamos de imaginação, ou ainda, pra usar uma outra expressão do Coleridge, poder esemplástico), realizando a si mesmo numa forma de completude expressiva que se manifestaria como a glória do mundo em si. Quando se pensa na força e originalidade extraordinárias que Jorge Ben consegue depositar em músicas como “Zumbi” e “Cinco Minutos”, a semelhança desse processo metafórico com o que a figura literal de Jorge Ben estava fazendo pela matéria rítmica e retórica da nossa música não parece nada acidental. O próprio Jorge Ben falou na época que o álbum era uma tentativa de alquimia musical. Dá vontade de dizer, mesmo sendo meio infame, que a tábua de esmeralda é o seu magnum opus (tanto no sentido tradicional da maior obra de um artista quanto no sentido alquímico do produto de uma transmutação ou individuação expressiva; até porque o primeiro sentido deriva do segundo)

3.

A nossa crítica de música popular se preocupa vezes demais em tratar as canções por poemas, e os músicos como poetas líricos, esquecendo muitas vezes tanto o componente performático quanto o fato de se tratar, há algumas boas décadas, de um meio de massa (que recentemente, com as várias internetes, vem se pulverizando em incontáveis pequenas culturas de nicho, de reverberação muitas vezes mais popular do que de massa). Qual outra explicação (além de racismo raso, claro) pra João Gilbero ter a estatura (plenamente justificada) que tem, enquanto Jorge Ben é considerado um artista tão menos sofisticado, sua importância sempre figurada (pelo menos no senso comum, no jornalismo mais distraído) em todo outro patamar?

João Gilberto é um artista anterior, é claro, o “Chega de Saudade” tendo sido, ao que se diz, a maior influência de Jorge Ben ao desenvolver sua própria maneira original de tocar o violão (que, segundo ele mesmo, veio de tentar imitar o ritmo da bossa nova sem saber direito o que estava fazendo).

Tanto a interpretação pouco dramática (pros padrões da época) quanto o caimento rítmico ao mesmo tempo livre e preciso de João Gilberto se concentram num mesmo sentido de depuração expressiva. Tentar pegar a matéria expressiva coletiva do samba e individuá-la num estilo que concentrasse algumas de suas potencialidades rítmicas numa cadência que é sempre tende a ser gentil e cuidadosa (numa direção que o aproxima um pouco mais do jazz, e de suas versões mais suaves), ainda que a liberdade rítmica tenha lá, em momentos, sua impetuosidade.

Tudo nele, desde a escolha de repertório até a relativa secura deliberada de sua contextualização (no que eu incluo a personalidade pouco aberta e sociável do artista) reforçam o destaque da possibilidade do samba ser apreciado como uma linguagem autosuficiente, fechada em si mesma. Ele se figura (e é figurado) como um alto sacerdote daquela linguagem.

É evidente que em Cartola e Nelson do Cavaquinho, só pra ficar nos mais óbvios, já havia extraordinária auto-consciência do samba enquanto linguagem poética, e que isso já se verificava com força expressiva nas letras. A diferença da bossa-nova, além da novidade propriamente musical genuína que ela constituiu, parece ter sido bem mais da possibilidade de se apresentar e de se vender num determinado contexto cultural a criação de um estilo cool e novo, propriamente brasileiro (um movimento que se conjugava com outros aspectos do que se entendia como a modernização do país), e que era muito bem apresentado ali como álbum - esse formato que ainda começava a tomar corpo) -no Chega de Saudade.
João, aliás, e isso é muito importante, é quase exclusivamente intérprete. Jorge Ben parte, principalmente, do samba, mas o explode para uma expressão cada vez mais extrovertida de um universo pessoal bastante próprio e sempre declarado numa unidade impressionante de espírito (ainda que cada vez menos interessante, infelizmente, a partir dos anos oitenta; no que ele não está sozinho, aliás).

Bem mais influenciado, talvez, pela música negra norte-americana (ele ouvia e tocava Rock com Tim Maia, Erasmo e Roberto Carlos antes de qualquer deles ser famoso), o violão de Jorge Ben é muito mais percussivo do que o de João Gilberto. Enquanto João Gilberto caracteriza seu estilo por uma depuração expressiva extrema da dramaticidade interpretativa do samba, esvaziando o peso lírico do emissor a ponto de todo samba soar essencialmente sobre si mesmo (como todo discurso poético faz, por excelência), Jorge Ben é talvez o exato oposto, inteiramente depositado, ao máximo, em todo gesto expressivo, de modo que tudo que ele canta parece ser sobre ele mesmo (a figura tão bem-sucedida de Jorge Ben e, de forma mais compreensiva, as localidades e disposições que a tornam possível).

4.


Música popular, como qualquer arte, é produzida junto com seu contexto cultural (ou político). Desde que começaram a gravá-la que ela passou a guardar não só matéria lírica e musical para recuperação técnica, mas também, mais diretamente, ambiências expressivas alheias (mundos e contextos), que antes só se viam emprestados a um texto poético remoto por reconstituição imaginativa histórica. Kenneth Burke gostava de dizer que toda peça de escrita é instrução para performance. Toda música com conteúdo lírico é também arte verbal, a música popular só dispensou a parte da instrução porque o meio tornou-a desnecessária (e em parte o que a televisão fez foi incluir o corpo do artista e sua encenação como gesto figural dentro do seu sistema expressivo).

Como distinguir a dança do dançarino?, pergunta Yeats. Cabral nos oferece a sua versão com “Subida ao dorso da dança/ (é carregada ou carrega?) / é impossível se dizer / se é a cavaleira ou a égua” . É difícil de se precisar o quanto do atual efeito sério, sustentado e amplamente compartilhado desse disco para a minha geração é produto de sua época, suas ambiências e reverberações (o que inclui não apenas o contexto que todos reconstruímos daquilo mas também a materialidade da gravação da época, em suas especifidades de timbre resultantes, 6 me desculpem, vaibes) e o quanto vem da personalidade expressiva tão particular do Jorge Ben. É sempre difícil precisar, no fundo, com grande arte.“Tem que dançar dançando”, diz Jorge no começo do álbum, antes dos alquimistas chegarem.



***



(E tomem um trechinho da H.D., poeta ocultista amiga do Pound, de coda)


Hermes Trismegistus
is patron of alchemists;

his province is thought,
inventieve, artful and curious;

his metal is quicksilver,
his clients, orators, thieves and poets;

steal then, O orator,
plunder, O poet,

take what the old-church
found in Mithra's tomb, 

candle and script and bell, 
take what the new church spat upon

and broke and shattered;
collect the fragments of the splintered glass

and of your fire and breath,
melt down and integrate

re-invoke, re-create
opal, onyx, obsidian

now scattered in the shards
men tread upon


***