Sunday, April 13, 2014

Almas externas
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           Que podemos entender nossas ferramentas como extensões (ou analogias) de partes do nosso corpo é bem sabido. Nesse sentido, Borges dizia que o livro devia ser pensado como extensão de nossa memória e imaginação, e Mcluhan propunha que pensássemos nas redes globais de comunicação como uma macroextensão do nosso sistema nervoso* 

              As neurogaleras contam, ainda, que a nossa propriocepção (ou o nosso esquema corporal) se estende até as ferramenta que utilizamos. Como se as incorporássemos. Alguém que toca um violino se estende até o violino. Pode-se até dizer que ele se torna o violino (ou, até, se quiserem, sem nem forçar tanto a barra assim, a própria peça de música)

                 Como diz Merleau-Ponty, acostumar-se a um chapéu, um automóvel ou um bastão (no caso de um cego) é se instalar neles, ou, inversamente, fazê-los participar da voluminosidade do próprio corpo (ou ainda o Bateson, usando o mesmo exemplo do cego que se orienta com um bastão, curiosamente, e perguntando onde ele começa, se aquele sistema mental tem seu limite na ponta do bastão, na sua metade, na pele do homem, etc)

Levando a idéia um pouco adiante, as coisas que nós já fomos momentaneamente (os livros, músicas, quadros, amigos, lugares, etc) continuam sendo parte de nosso senso de si estendido, os vocabulários expressivos que temos para nós mesmos (i.e, os gestos que temos à disposição para os nossos corpos).

                  O que lembra o Machadão: 

A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc.


*Aliás, agora que a metáfora mais recorrente pras vastas fazendas de servidores espalhadas pelo mundo é "nuvem", é legal lembrar que na mitologia nórdica as nuvens eram feitas a partir do cérebro do gigante primordial Ymir (a partir de cujo corpo repartido o universo havia sido feito).