Tuesday, May 15, 2012

 Algo muitíssimo parecido com um apelo
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Praticamente não existe hoje crítica literária nos jornais e revistas brasileiros. Devem ser no máximo uns cinco ou seis textos críticos bons ou razoáveis por mês, juntando todos os veículos de alcance nacional (Folha, o Globo e o Estado, todas as revistas semanais, Piauí, Serrote, Bravo!, Cult, etc). E mesmo os bons textos costumam ter um espaço bastante reduzido e indigno para tentar articular alguma coisa. No mais, esses veículos todos não fazem mais do que estampar umas fotos, divulgar polêmicas irrelevantes e vomitar palavras-chave inarticuladas sobre autores e movimentos.

 E qual exatamente é o propósito de fazer esse tipo distraído e superficial de jornalismo literário se existe a internet? Se qualquer um com uma conexão a internet e um domínio mais ou menos de inglês pode ir atrás dessas informações sem nenhuma dificuldade? A função desses jornais e revistas pode ser perfeitamente cumprida por agregadores de conteúdo, e é isso que já acontece, qualquer pessoa que se interessa genuinamente por alguma coisa vai atrás de se informar na internet (geralmente através de veículos gringos) enquanto os nossos periódicos acham que estão produzindo debates e fazendo alguma coisa.

Li uns seis textos sobre o lançamento da tradução que saiu agora de Against the Day do Pynchon, e te juro que somente dois deles pareciam escritos por pessoas que efetivamente leram o livro. Todos os outros pareciam inteiramente baseados na contracapa do livro e no fato de Pynchon ter aparecido nos Simpsons.

 A Bravo!, por exemplo, costuma ter no máximo um ou dois textos mais ou menos respeitáveis por edição, e o resto é um release colorido e mais ou menos bem diagramado do que tá sendo publicado no Brasil. A Ilustrada dá uns duzentos caracteres pras suas resenhas, que raramente passam da sinopse e de uma opinião inexplicada. Como é possível continuar fingindo que esses troços importam, que eles estão contribuindo de qualquer forma apreciável?




*abre para perguntas, silêncio constrangedor, uma mão tímida se levanta* 


Quem se importa?
Pouca gente, claro, quase ninguém. A 'cobertura' que a Ilustrada faz de literatura é tão profundamente imbecil justamente porque cultura literária é uma cultura de nicho. Aquele que se considera o maior jornal do Brasil não consegue oferecer nada que se pareça eventualmente com crítica literária por anos e anos e ninguém nota. Isso tem que significar alguma coisa.

A Serrote e a Piauí pelo menos dão espaço para textos maiores do que um tweet, e poderiam oferecer alternativas, mas infelizmente não oferecem. Eles publicam bons textos estrangeiros sobre literatura, mas o que há de 'produção própria' é quase sempre pobre e desinteressante (ou com um ranço acadêmico muito inadequado). Repetições derivativas sobre autores já repisados, deslumbre com coisas desimportantes, etc.


E pra quê ficar reclamando disso na internet?

Obviamente não porque eles vão ouvir, ou se importar. O meu ponto é justamente que nós deveríamos parar de prestar atenção nesses veículos como se eles fossem onde o 'diálogo cultural' (o que quer que isso seja) acontece. Os tiozões da Folha não tem ideia do que tá acontecendo. Eles parecem ter lido, conjuntamente, uns trinta livros, no máximo (vinte e cinco deles escritos no século XX). Acham que o Paul Auster, Schlink, Bukowski, etc são relevantes. Eles descobriram ano passado que DFW existe (mas ainda não o leram). Ficam impressionados se alguém conhece Blanchot e Derrida, não tem ideia de quem seja Kittler, acham que metaficção é um troço de vanguarda.

Se há qualquer coisa próxima de um diálogo cultural interessante acontecendo no Brasil, ele acontece na internet. Isto é absolutamente evidente para qualquer pessoa de sensibilidade que esteja prestando atenção. Não interessa o que eles estão achando ou dizendo. Escrevam, se comuniquem, insistam com os blogs e comunidades, mesmo que você só seja lido por quinze pessoas. Usem todos os canais disponíveis, porque é a melhor esperança que temos de arranjar interlocutores. Eles não vão nos ajudar e nem nos alcançar tão cedo.

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PUNHO DOS BROTHERS



11 comments:

Tomás said...

E o que acha da crítica publicada em revistas mais de nicho? Tipo Dicta&Contradicta, Rascunho etc?

Anonymous said...

Você, que é podre de rico, por que não edita um periódico?

Tiago Lopes said...

É issaê djow! Pô, queria fazer um comentário grandaço sobre, mas seria bem redundante. Então, fica aqui o YOU GO, DUDE!

Greg McNamara Thompson said...

Edita aí uma revista com os teus manos todos, o Lord ASS, o Militrissa e o Alexandre Frota!

Rafael said...
This comment has been removed by the author.
mariana said...

e acho que faltam coisas como a http://publicdomainreview.org/ aqui,espaços pras pessoas escreverem sobre interesses mais específicos que ficariam deslocados tantos nas bancas de jornal quanto nas universidades, movidos mais por curiosidade do que pelo fator relevância~

NMdM said...

Só que...

Nada especial está acontecendo na rede (em português). Ou está? (Cole, por favor, uns links aí, se for o caso).

vinícius castro said...

Tomás: eu ja publiquei uma coisinha na Dicta, entao sou suspeito pra julgar. Mas nela e no Rascunho saem boas coisas, sim, claro, a começar pelo fato de que dão um espaço decente pros textos.

NMdM:
Não muito, é verdade. Mas existe (eu te prometo) muita gente inteligente dispersa. Daí o meu palo.

Richard said...

"O meu ponto é justamente que nós deveríamos parar de prestar atenção nesses veículos como se eles fossem onde o 'diálogo cultural' (o que quer que isso seja) acontece."

Pra parar de prestar atenção teríamos que ter prestado atenção um dia.

Rafael said...

saudosos web rings (q nunca deram certo, mas)

vinícius castro said...

saudosos web rings ^^

e Richard, parabéns, pode pegar a lembrancinha na secretaria!