-
Que o romance continue, meu deus, esse tanto de tempo depois, essas tantas voltas de sensibilidade tornadas, esse tanto de coisa empilhada nas suas costas. Tudo bem que ele não seja mais a forma central de narrativa da nossa cultura (até porque não existem mais formas lá tão centrais, né mesmo), mas que ainda seja relativamente vigorosa dentro de determinadas comunidades, ainda espose algo que só podemos chamar de uma tradição. É verdade que se há uma coisa que podemos dizer sobre o mundo-de-hoje é que tudo sobrevive, nada morre de todo, tudo ecoa indefinidamente tal qual transmissões UHF de filmes do Steven Seagal pelos infinitos do espaço, ou músicas do Lionel Ritchie em rádios libanesas*. Mas a sobrevivência do romance não é apenas a sobrevivência de uma forma pitoresca dentro de uma comunidade insistente e irredutível. Ela é isso também, mas nas suas manifestações mais extraordinárias essa sobrevivência se dá por vontades artísticas tão genuínas e próprias, esforços tão deliberados e precisos de reformulação de certas estruturas dentro de novas circunstâncias, que somos tentados a crer que o romace não sobrevive apenas como uma convenção-de-representação-da-
*não só os artefatos culturais permanecem todos quase ridiculamente recuperáveis e disponíveis, não só qualquer forma artística passível de revitalização e pastiche, mas até as próprias mídias sobrevivem relativamente à sua desuetude e relativa superação técnica, as polaroids e os discos de vinil valorizados por uma autenticidade, o calorzinho de que o analógico se investe pra galera que já cresceu com a infinita abstração de tudo digitalizado.
**dá até pra defender isso seriamente, mas claro que (1 ) tenho vergonha (2) não sei do que tou falando.
