RESENHA DE LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORANEA DO LIVRO 'CIDADE LIVRE' DE AUTORIA DO AUTOR-DIPLOMATA-INTELECTUAL JOÃO ALMINO
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resenha que eu escrevi pra outro lugar (por isso meio engessadinha) e que agora jogo aqui pra não desperdiçá-la:
*música-tema de resenha de literatura brasileira*
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O romance de João Almino reconstitui a época da construção de Brasília, no final da década de 1950. O protagonista relembra sua infância nesse período e mistura a narrativa histórica e macroscópica aos focos mais íntimos da sua família e de seu amadurecimento.
A voz em primeira pessoa que organiza a história tenta se tornar mais interessante e complicada através de filtros subjetivos e oscilações ambíguas. Além das previsíveis menções à imprecisão da memória e de uma loucura temporária (que todo mundo sempre faz questão de incluir), o narrador ainda menciona duas complicações: um suposto autor que teria transformado o seu relato objetivo e direto numa obra mais literária e a publicação fictícia da história num blog
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A tentativa de se elaborar um composto retórico complexo com formas e vozes variadas é bem válida, mas os esforços de Almino não trazem praticamente nenhum efeito visível, não conseguem de fato tornar a voz mais interessante e ambígua, são quase só acenos abstratos na direção de uma complexidade narrativa que não chega a existir propriamente. Não sentimos essa suposta tensão entre as vozes do autor primeiro e segundo e os supostos comentários do blog trazendo informações factuais da época são mencionados de maneira bem apressada. No final das contas o registro se mantém sempre o mesmo, curiosamente estável e unívoco.
O livro recebeu diversos elogios entusiasmados da crítica, além de ganhar o prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de melhor romance. A respeitada Walnice Nogueira Galvão, por exemplo, disse que no romance de João Almino a cidade de Brasília se torna “microcosmo e metáfora do país, do universo, ou desse torvelinho vertiginoso que é a subjetividade.”
Tudo bem, de fato dá pra dizer que Almino faz um movimento bem evidente no sentido de transformar Brasília em metáfora pra tudo, mas é difícil encontrar algum trecho do livro que realmente encerre uma expressividade do tamanho e do alcance sugeridos por Galvão. O torvelinho mixuruca de subjetividade até existe, mas não causa nada nem remotamente próximo de uma vertigem. Não temos nenhuma metáfora ou descrição original envolvendo a construção absurda, quase fantástica, de uma cidade no meio do nada, não temos nenhuma descrição realmente precisa e interessante dos vários cenários estranhos e situações curiosas que compunham a capital, na época. O material é fértil, e Almino sabe compor alguns momentos de prosa descritiva competente, mas nunca sai do que já sabemos. É um registro pesquisado e mais ou menos meticuloso, é verdade, mas muito mais factual e didático do que imaginativo. Os personagens (o narrador incluso) são remontados com pouco mais do que um nome e uma ou duas qualidades genéricas. Figuras históricas (JK, Elizabeth Bishop, Aldous Huxley) aparecem sem desenhar nada mais interessante do que sua mera presença anedótica, como um ator famoso cuja ponta num filme só tem graça pela sua presença pitoresca ali. Mesmo Bernardo Sayão (o único desses ilustres que Almino efetivamente tenta tornar personagem) parece pálido e esquemático, apesar da facilidade com que sua figura tomaria ares titânicos e curiosos.
O livro é principalmente insosso, e esse problema é generalizado em todos seus níveis. Em parte isso acontece pela aparente incapacidade de Almino de dar voz aos seus personagens, que quase sempre falam pela voz de papagaio do autor, todas niveladas e essencialmente iguais. Da mesma forma, alguns elementos mais interessantes que Almino consegue trazer à história, das profecias místicas absurdas que algumas pessoas tiveram em torno de Brasília e dos vários absurdos de especulação imobiliária e má gestão que acompanharam a construção da cidade, são igualmente nivelados de um jeito raso e finalmente desinteressante, registros mais jornalísticos do que efetivamente imaginativos, sem a organicidade que esperamos de um livro sério de ficção.
No meio de todo o burburinho histórico ainda há uma trama misteriosa envolvendo o pai do narrador e a morte de um homem humilde e simples chamado Valdivino. Mas aqui a indeterminação temporal e espacial do narrador não torna as situações mais instigantes ou férteis, ela só esvazia e dispersa a dramaticidade e o peso dos eventos, que mal acontecem, vão se sucedendo em pipocos distantes de sexo e morte.
A sugestão final, aparentemente, remete a um dos maiores clichês da literatura das últimas décadas: o de um narrador instável tentando dar conta do peso subjetivo da memória dos mortos (um clichê diluído da obra de gente grande como Sebald e o nosso Bernardo Carvalho)
Como nas armações vazias e semiconstruídas de concreto que vemos nas fotos da construção de Brasília, nós temos aqui o desenho e a ossatura, as sugestões formais (até competentes) de um romance histórico subjetivamente informado. Mas não temos nenhum lineamento preciso de verdade, quase nenhum estofo dramático, e nenhuma figura expressiva vivendo lá dentro.
Tuesday, September 27, 2011
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3 comments:
Muito bom. Publica em algum lugar aí, site essas coisas não? Publicar é jogar fora mesmo.
/Pedro C
Seu livro é muito melhor!
haha, valeu (:
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