Só uma coisinha sobre Freedom
-
Com todo o estoiro jornalístico meio bobo espumando em torno de Freedom, achei interessante esse texto aqui do Xerxenesky sobre a almofadice do Franzen. A reclamação que ele faz é basicamente da transparência da linguagem e das desinteressantes premissas e consequências estéticas que resultam. Acho que o AX acabou resumindo boa parte da birra que muitos críticos tem com o livro. É isso que eu pretendo comentar rapidinho:
*música grave de rosal público de discussão literária, de blogueiro comentando publicação da grande mídia*
A objeção à transparência que corre por cima do texto de AX e por baixo de vários outros pode ser compreendida de duas maneiras:
Uma seria a de acreditar que a literatura passa por tresholds (ou umbrais) estéticos definitivos na sua história, e que o século XX com todas suas atrapalhadas confusões teria tornado impossivelmente ingênuo uma linguagem ficcional transparente, que não tente dar conta da materialidade da linguagemm da artificialidade das convenções literárias e da heteronormatividade do cânone, sei lá mais o quê. Isto não está tão presente na objeção do AX, mas espreita por aí bastante observável.
A outra maneira é mais comedida, apontando apenas que as convenções estéticas do nosso tempo não aceitam bem a transparência, já que as circunstâncias da sensibilidade contemporânea empurram antes pro lado da complicação, do enviesamento, dos filtros e das peripécias retóricas*.
Eu vejo a transparência como um elemento mais neutro do que isso, menos minado e ainda bem útil. É verdade que tendemos hoje a preferir a entrega indireta, a complicação ostensiva, mas esta é uma convenção bastante limitante e limitada, que não pode querer funcionar em qualquer situação.
É também claro que a transparência literária que eu quero dizer não reporta a um grau maior de pureza, digamos, ou a uma objetividade séria. Isto seria, de fato, bem bobo e bem ingênuo. Qualquer transparência literária é necessariamente enviesada, indireta. No fundo estamos usando uma figura de linguagem, assim como quando chamamos um texto literário de sincero ou autêntico. Quando essas qualidades são apresentadas através do filtro da intencionalidade estética elas recebem uma camada de artificialidade retórica adicional, digamos. Ficam entre aspas.**
E vista como um tropo, e não como um grau de pureza, a transparência pode, sim, ser o resultado de uma depuração expressiva complexa e interessante. Acho que é isso que acontece em Freedom.
Sei que o livro não passa tanto essa impressão, de fato Franzen tem um estilo quase desleixado nele. Além do deslize técnico absurdo mencionado por AX, que é verdadeiro e injustificável, também chama atenção o ritmo apressado anedótico com que os eventos são apresentados, com pouquíssimas cenas sendo realizadas em atualidade e particularidade, como se aquela voz guardasse uma confiança tão absoluta na urgência narrativa que aqueles elementos configuram que nenhuma mediação posterior ou cinzelada mais aguda fosse necessária.
É como se o autor quisesse apenas chamar atenção para aquela sucessão de peripécias humanas, digamos, e precisasse nos puxar pela camisa e apontar para elas de maneira quase atabalhoada. Parece desinteressante pra muita gente, e eu entendo que pareça. Mas esta é uma afetação de urgência dentro de uma afetação de transparência, as duas construídas para valorizar um nível específico de construção ficconal, que poderíamos simplificar como: o de criação de personagens convincentes e de sua interação moral dentro de uma reconstrução expressiva dos minute particulars de uma cultura (que o AX chama com um certo desprezo de 'comentário social', o que acho um pouquinho injusto).
Pra mim existe uma inteligência absurda e um grau considerável de deliberação na voz que consegue constituir esse teatrinho moral como se inequívoco e transparente fosse. De qualquer forma, é nesse nível que o livro tem que ser julgado.
-
*Alguém que soubesse de narratologia talvez pudesse argumentar que a reversão obtida quando deixamos de confiar num narrador tem funções estruturais semelhantes às peripécias antigas do tipo 'na-verdade-não-sou-um-mendigo-olhem-minha-marca-de-nascença-sou-o-conde-de-Norwich'.
**Em outro nível ainda mais babaca, poderíamos dizer que essas qualidades são sempre literalmente impossíveis e vem sempre entre aspas. Fica aí ao gosto do freguês.
Saturday, June 04, 2011
Subscribe to:
Post Comments (Atom)

4 comments:
meu deus do céu sou incapaz de escrever um texto curto. O_O
É interessante você ver a transparência como uma boa orientação para a ficção, e um pouco inesperado, vai ver seu estilo está diluindo, achava ele, como dizer, mais ´convoluto´?
Eu incluiria na transparência os vários níveis de clareza que você pode alcançar num texto (ela também seria o reflexo da sua compreensão).
Isso fica tão patente na filosofia analítica que dá medo, é uma clareza insuportável, ofuscante, dura.
E às vezes a clareza fica simples e até sem valor estético se formos analisar, sei lá, uma única frase? Mas aí entra a importância de valorizar o quadro geral de uma obra. E nessa resenha você toca nesse ponto sobre o Franzen.
isso de achar que a merda do Liberdade é uma das obras mais importantes do do sec. 21 é de uma mãe dinazice do caralho. vão se foder.
:*
Post a Comment