Ainda é possível um blog nos dias de hoje?
Não. Durante algumas horas em 2005 parecia que o blog seria um negócio assim extraordinário, com contribuições decisivas para as necessárias imaginações de nossos tempos, de uma elegância expressiva própria e confiante estabelecida através de (1) escolhas de design particularmente efetivas, (2) posicionamentos retóricos irretocáveis, (3) ironias adequadamente alocadas, etc.
Mas aí não foi.
E como que isto aqui ainda existe?
A existência disso aqui é extremamente discutível. Eu posso estar apenas repostando textos antigos de um blog secreto que todo mundo menos você conhecia, ou postando comentários irônicos sobre a possibilidade do post que acabei de postar. Ou usando como plataforma de divulgação da minha carreira de escritor de livros sérios de ficção *risos da platéia*. Ou posso ter perdido a minha senha e ter sido substituído por 'Bebeto, o mais extraordinário spambot de todos os tempos'*.
Como que você escreve essas besteiras?
Você acorda de tarde e percebe que já são cinco e tanto e o dia já está amarelo e fenecido e pendendo com o peso de sua extremidades murchantes. O que se pode fazer ainda daquele dia ali? Dois computadores estão ligados em cômodos diferentes para que você interaja ali com as telas coloridas e extraia elementos formidáveis, de alguma forma. Isto não acontece, ou acontece de maneira escasssa, um líquido quente trazido num canudinho fino demais, sugado com muita desconfiança. Até esta metáfora ela não sabe o que está fazendo, coitada. O time que você escolheu ainda agora preferir ganha o campeonato mundial de alguma coisa. Celebridades de atribuição confusa são abatidas aos montes. O mundo é todo denominado e pequeno, um desenho animado de si mesmo. Você troca de cômodos, bebe água fria, pensa em colocar meias. Lembra de memes parcialmente bem-sucedidos. Se você estivesse agora habitando um estado de espírito mais interessante, poderia perfeitamente escrever. Pegar esse estado de espírito interessante e extrai-lo de sua abstração aérea ali distante e suburbana usando de metáforas formidavelmente concretas, dando habitação e pernas praquela abstração, sistemas límbicos. Erguendo todo um prédio para o seu estado de espírito, toda uma catedral com arcobotantes e contrafortes cada vez mais denecessários, auto-concorrentes e impossíveis. Sua atenção já se detém nessas ramificações, nos apêndices, nas estruturas burocráticas da imaginação, nas suas consequências possíveis no mundo, suas caixas de comentários, suas reportagens da Ilustrada, suas entrevistas equivocadas, vozes indiretas como esta, enviesadas e supérfluas, e que às vezes parecem as únicas possíveis.
O que você pretende atingir?
Contribuições decisivas para as necessárias imaginações democrático-espirituais de nossos tempos.
*novela a ser publicada em 2013.
Sunday, June 19, 2011
Subscribe to:
Post Comments (Atom)

3 comments:
Esse é o melhor blog que eu já li. Só digo isso porque ninguém diz. E a sua sensibilidade é extraordinária, apesar de alguns recursos literários serem um pouco repetitivos.
poxa, brigado :~
gostei muito do blog, pois vale a pena ser lido. não são tolices ao vento, já quero ser leitor assíduo.
parabéns, pois além de tudo os textos são inspiradores.
Post a Comment