Sunday, March 13, 2011

The presumed landscape
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Como nossas imaginações e sensos de realidade são constituídos por pecinhas de lego e silhuetas recortadas de papelão, nunca dá pra saber exatamente o que vai lograr um nervo, o que vai nos parecer urgente e importante. Um terramoto é certamente algo tremendo e formidável, a terra racha e treme, devora coisas, mata muita gente, é tudo horrível. Mas estamos aqui quase todos nós em lugares prodigiosamente desprovidos de tremores, enquanto ouvimos e lemos o que acontece. A terra deita descansada e calma, sem rachaduras, com cheiro gostosinho de chuva. E acaba que nos percebemos (alguns) tão tocados quanto quando passando brevemente de canal nós vemos a Calista Flockhart – já quase engolida pelas fauces da desmemória – dizer ou ouvir de alguém (apenas lemos a legenda) que está com câncer.

Os jornais quase todos concordaram que a imagem exemplar mais expressiva dos eventos lá no Japão ontem era uma criancinha japonesa levantando os braços para que medissem sua radioatividade. De anteontem, era uma linha de senhoras japonesas abrigadas por iguais cobertores azuis. Antes disso, eram carros novos sendo engolidos e levados pela água (carros novinhos!, diz a voz de alguém na minha cabeça). Estas coisas aconteceram mais do que outras, aparentemente.

E como responder? O mundo já sabe de suas deixas e reações, né. Sabe dos seus diagramas infográficos e das suas expectativas de investimento. Ele narra a si mesmo em encaixes de telejornais e hashtags, como uma dona-de-casa francesa num romance do século dezenove. Geralmente temos ainda celebridades e canções beneficentes (com menos pathos, no caso de países de primeiro mundo). Designers desempregados fazem sua parte com imagens bonitinhas tumbláveis de bolas vermelhas e lágrimas estilizadas, com isso não precisamos nos preocupar.

Por mais que respeite e admire – de verdade – a disposição afetiva e emocional de quem consegue se afetar genuinamente por desastres naturais distantes, diversamente figurados e infinitamente disponíveis, ainda não sei como devo domar os potros, os burocratas prussianos da minha imaginação. Como diabos eu modulo a minha reação diante da correção jornalística de mortos que já figuram nos quatro dígitos? Com um ajuste de sobrancelhas?

É sério, eu não sei.

3 comments:

Sanchez said...

Malditos burocratas prussianos. Sempre eles.

Mas o Japão é irreal demais, por aqui os burocratas também estão sem saber como reagir...

Alcir Del´Guy said...

Lindo

rafaelo (assim q c me chama ne) said...

pergunta honesta, né