Tuesday, October 12, 2010

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Esse post é muito vago e eu adorei escrevê-lo.

Na minha cidade não chove, e nem mais nada acontece. Bandas internacionais decidem que podem nos incluir nas suas turnês. Elas descem aqui de avião e tocam, boa parte das vezes em estruturas emprestadas e mal improvisadas, já que não temos muitos lugares apropriados pra esse tipo de coisa. O caderno de cultura faz um barulho todo. Existe um provincianismo extremo e muito bonitinho (que eu entendo) de olhar pra aquele povo da TV da sua adolescência e ver que eles estão existindo ali na sua cidade, olha só, as duas esferas se tocam. De extrair disso uma importância enorme, daquele lugar se reposicionar dentro de coordenadas pessoais de importância.

E é tudo tão pequeno. Uma banda de gente de talento muito ligeiro (mesmo pra esse tipo de coisa). Foi quase um acidente momentâneo de fatores que tornou as músicas deles um pouco mais significativas ou divertidas do que a massa de músicas bem parecidas da mesma época. E esse breve momento de fazer algum sentido pra adolescentes em conjunturas culturais tão particulares se filtra em diversas instâncias corporativas e jornalísticas, se dilui adiante, indefinidamente, qualquer espontaneidade redentora se perdendo. Esse breve acidente se traduz pro resto da vida tocando pelo mundo, na Turquia - imagino, não sei - no leste europeu, no interior do México. Como um filme dublado do Steven Seagal ainda reverberando no espaço, décadas adiante. E isso significando alguma coisa pra adolescentes renovados, para jovens adultos já nostálgicos de algo que nem, exatamente, chegou a acabar.

Um santinho eleitoral me fala de ‘equipamentos culturais para a comunidade’. É uma expressão meio triste, ressonando palavreado aparatoso político, instrumentalizações esquisitas. E por isso mesmo eu gosto dela, da tristeza pequena dela. Equipamentos culturais, faz pensar em algo trambolhoso. Faltam mesmo, esses quipamentos culturais. Na falta, na pobreza variada de imaginação, importamos tudo como podemos, de maneiras curiosamente pessoais. Eu penso sempre num amigo que teve a adolescência povoada por bandas pequenas e alternativas, bandas que só ele conhecia, num raio de possíveis milhares de quilômetros. E, além disso, uma rede de amigos gringos verdadeiros, de familiaridade extrema com os arredores de uma cultura alheia.

Temos uma penca de mundos imaginados à nossa quase-disposição, pendurados no nosso pescoço. E a distância desses mundos todos sempre contrasta decomforça, é sempre sentida.

É bem possível escolher pra si as circunstâncias e ambiências distantes de um pequeno setor cristalizado que lhe agrada. De sei lá o quê, de cinema francês dos anos tal, indie rock californiano dos anos noventa, república weimar, punk inglês, jazz age, maio de 68. Tudo parece igualmente habitável de mentirinha. E, em certa limitada medida, claro, não é nem de mentirinha. Não é impossível que funcione, que se fique bom nisso, praticado. Costuma ser meio ridículo pra quem vê de longe, como qualquer sustentação irônica, qualquer bovarismo,quixotismo, mas isso não torna inválido. Uma palheta reduzida de cores simples e poucas, repetidas, insistidas, trabalhadas durante toda uma vida.

2 comments:

O cara do H James said...

Você intencionalmente vago é mais preciso do que quando tenta delimitar alguma coisa. Vai ver é sua maneira. Seus textos são mais abertos mesmo.

pataco said...

:~