Sunday, July 11, 2010

Umas notas sobre Cachalote e quadrinhos em geral
-

Além de falar bem de Cachalote, deixa eu gesticular vagamente umas impressões sobre quadrinhos que nunca tenho a chance de tentar.

O Rafael Coutinho tem seu principal talento em criar ambientes, esparramá-los, abrir e fechá-los como bem entende. Ele sabe como enquadrar uma visão e o que mostrar de um lugar, como estabelecer uma impressão espacial e mantê-la. Sabe como usar as ondulações controladamente distorcidas do seu traço de maneiras sugestivas (em superfícies reflexivas, em vegetação), como integrar as pessoas nos seus ambientes e relacioná-los. É estranho o tanto que suas falhas e deficiências recorrem sobre um mesmo ponto: as figuras humanas. Longe do realismo eloquentemente simplificado e levemente torto da sua natureza e área urbana, as figuras humanas são estorcidas de uma maneira bem menos confiante, de uma incerteza que não é consistentemente expressiva, que em alguns momentos chega a ser quase apressada e tosca (quase nunca de uma maneira afetada, potencialmente interessante).

Isso parece uma crítica enorme, mas não é tanto. É mesmo muito complicado encontrar uma maneira expressiva e original de se desenhar gente, pra esses fins ainda mal afirmados de história em quadrinhos de autor. Não é só acertar uma voltinha do nariz, envolve todo o estilo que o artista vai arranjar pra montar as suas representações gestuais, e envolve os valores e impressões que o mundo representado deve passar.

Quando você não tá dentro de um gênero de convenções bem delineadas (como de super-heróis), você tem que tirar tudo da própria bunda. Americanos procedem com frequência em retomar convenções do imaginário gráfico do quadrinho mainstream. Clowes e Ware apresentam como que versões irônicas das figuras de gente como Schulz e Walt Kelly. Acrescidas de olheiras, em tons mais pálidos, ressacados de realidade*.

Mazzuchelli e Burns fazem coisas mais ou menos parecidas, ambos de maneira também original. Só o Tomine que parece insistir num realismo mais ‘direto’. Que só funciona porque ele é o escritor mais sutil de todos esses, o menos dependente de outro nível representativo que não o presente na história que ele tá contando.

Enfim, é difícil pra caramba encontrar o seu próprio jeito de desenhar pessoinha.
Não é à toa que todo estilista acima da média costuma manter a base da sua figura humana, depois que a encontra, às vezes por décadas.

Talvez Coutinho queira fugir de um desenho mais realista, ou que proceda a partir de estilizações tradicionais do cartun (talvez queira fugir do tipo de expressividade simples e lindamente infalível do pai, o que seria bem compreensível). Ele consegue, sim, encontrar nesses traços tortos pequenas negociações que funcionam, principalmente (pra mim) no personagem do escultor e no do ator chinês. Mas a inexpressividade frequente é uma pena. É claro que existem dimensões outras do seu traço e do seu repertório que carregam a expressividade narrativa da história, mas em momentos onde o peso recai mais diretamente no que é dito e no que devemos entender da cara dos personagens, nós muitas vezes não temos pessoinhas expressivas, vezes demais temos rasgos repetitivos e descolados de contexto (todo homem contido se contém num mesmo tracinho de boca, toda raiva se expressa numa mesma boca desmedida e disforme – e essa repetição não me parece funcionar dentro do mundo gráfico do Coutinho, que não é de simplicidade reconhecível e repetida).

Eu tou sendo chato, mas é justamente porque gostei muito de Cachalote, e porque queria que fosse ainda melhor do que já é.

Mas a grande vantagem do livro (ou 'romance gráfico', como queira) é que ele não se deixa diminuir tanto por essa que eu considero uma relativa fraqueza sua. Isso porque ele não tem só uma direção narrativa e representativa, não acontece só num tipo de expressividade. E nem tampouco seus níveis podem ser descascados ou engavetados, apontados como acontecendo aqui e ali, agora de tal jeito, agora de outro jeito. Não dá pra dizer onde o talento do Daniel Galera tá se sobrepondo ao do Coutinho, onde um orientou o outro. As qualidades se confundem e se informam de um jeito surpreendente,uma vai compensando as eventuais deficiências da outra.

É estranho como quase toda as histórias que compõe Cachalote tem premissas mais ou menos clichê, e como quase todas se desenrolam, no entanto, de maneiras inesperadas. Você acha que já as apreendeu, já conteve nos dedos as suas possibilidades, e de repente há uma espontaneidade surpreendente, uma falta de conclusão e de fechamento que não é simplesmente uma ausência arbitrária, um buraco largado, mas algo cuidadoso e contido, e seguro de si, uma força positiva. O Galera já demonstrou isso antes, e ele parece confortável em escrever histórias realizadas graficamente, sem poder se apoiar em outras ferramentas discursivas. Histórias que pareciam ser só sobre um assunto de repente se abrem, acomodam novos pontos, fluidamente. Eventos vão se quedando sem nenhuma pressa ou desespero por encaixe.

Na real, é muito bom ver o tanto que eu não tenho vocabulário ou paralelos fáceis para tentar explicar o que há de interessante e genuinamente novo nas cadências e explorações narrativas do livro, nas relações compreendidas entre elas, no tanto que elementos temáticos que não consigo relacionar direito parecem se alinhar, se adequar, e a opacidade discursiva bastante particular do meio ganha umas forças inesperadas, que você não sabe de onde vem.


*O Clowes no início de carreira tinha muito exagerada essa retomada irônica da ingenuidade do imaginário gráfico dos anos cinqüenta/sessenta, era cansativo. Com o tempo ele se tornou mais confiante e foi desamarrando um pouco seu estilo dessas implicações, embora a base se mantenha. O Ware, quase virtuoso, retoma no seu tipo particular de nostalgia um repertório absurdo de linguagem gráfica americana, não limitada a uma sensibilidade específica. Ele tem bem forte, por exemplo, a mania de nos entregar representações de uma simplicidade infográfica, de Clip Art. As representações reduzidas ao seu essencial comunicativo mais básico, só que minimamente manipuladas de acidentes, como que entristecidas.

8 comments:

andreis passarinho said...

gente meus posts são enormes peço desculpas a todos nossa assessoria ja ta encaminhando cartas de desculpas individualizadas pra residencia de todos assinantes grato

cyrano de bergerac said...

velho, as desculpas já estão no site. tá achando grande vai pro twitter.

mas hein, massa, concordo bastante com altas paradas. o traço do coutinho é bem acertado, só falha na figura humana e ainda assim só aqui e ali. os movis corporais são bons, acho que ele erra bem menos no corpo, é realmente na expressividade do rosto que fica foda (porque é mais foda).
mas ainda prefiro o traço dele ao do tomine, por exemplo. o tomine certamente já achou "o seu próprio jeito de desenhar pessoinha", mas eu nem acho massa. acho ele bom em outras paradas, não nisso. e o corporal do tomine é pior, também. durão.
acho que o coutinho deve ficar melhor que o burns, cujo traço tampouco dou muita pala.
o chinês é maravilhoso e o escultor é bem bom, mas talvez porque são personagens mais óbvios fisicamente. e homens.
"como estabelecer uma impressão espacial e mantê-la" é certo, é uma das melhores qualidades.

nicolini said...

moleque, tou lendo o comentário acima e achando que eu escrevi esse troço sonâmbulo, i.e. na real não foi eu mas tou me assustando (fora o lance sobre o tomine (nunca li nada sobre o tomine (poderia fingir o contrário))), mas tou me assustando pq parece muito com um comentário, em nível de estilo inclusive, que eu faria (se, por exemplo, conhecesse tomine(o que eu poderia fingir)). abraço.

Anonymous said...

Tu é foda, tem umas reflexões muito boas, mas às vezes me incomoda uma falsa modéstia ou um pseudo-informalismo aqui e ali. Sempre pedes desculpas por textos longos ou larga umas palavras prozaicas/nerds depois de um parágrado complexo e cheio de nuances.

Não cola. Sai do armário e mostra a arrogância (a não ser, claro, que esse procedimento sirva justamente para reforçar uma arrogância ainda maior, pois dá a entender que você não se esforça em nada para pensar e escrever, ou seja, é um natural[itálico aqui]).

Quanto à Cachalote, acabei de lê-la nesse instante. Gostei muito. Tenho vontade de socar Daniel Galera por esfregar seu talento na minha cara e por me mostrar que sou um merdinha charfundando na auto-comiseração. É ao mesmo tempo um privilégio e uma agonia ler um escritor que faz parte da sua geração e utiliza com destreza os clichês, as experiências e as referências que povoam o que, basicamente, entendo por mundo.

Queria saber o que você achou das histórias, o que elas te trouxeram. Você só se ateve a forma. Não sei se "entendi" o começo e o fim (as partes da velha), mas justamente o enigma que aparece ali foi o que mais me tocou, como você bem coloca quando menciona a forma aberta-mas-não-vazia dos finais. Ela estava grávida mesmo? A criança some no mar, é uma memória? O filho é a relação com algo do passado? Óbvio que não precisa responder. Gosto do fato do final ter me deixado essas perguntas meio que respondidas.

andreis passarinho said...

o corporal do tomine é mesmo durão. mas ele esconde bem.

nicolletta, adorei demais teu comentário.

e anônimo, valeu pelo seu. é verdade que as pseudodesculpas são bobagem, mas a informalidade é natural, não afetação (até é um poquitinho, mas só poquitinho).

não sei tanto o que dizer do começo/final de cachalote, mas gosto daquilo tudo. principalmente porque acho que explora umas possibilidades bem particulares a HQ. aquilo num romance/filme acho que ficaria meio idiota, pretensioso. com a linguagem do coutinho ficou bem bonito.

e olha que eu não sou desses que sempre acha abertura interpretativa uma qualidade. é que há uma força qualquer mesmo ali naquelas imagens como parênteses do conjunto de histórias.

bergerac said...

cara, li ali o "nicolini", lá em cima, e, bom, simplesmente não lembro de tê-lo escrito mas sinto que fui eu (sei que não foi, na real) mas parece muito, por uns segundos, se eu tentar, que eu escrevi sim, mas né.

eu sei que não. mas poderia. o que dá igual.

Izadora said...

daew, sobre o começo e o final: na cachalote do moleque que li, há uma dedicatória do Daniel Galera, totalmente demais, como diria aquela banda, lembra.
Então, a dedicatória diz assim: "a baleia não faz sentido algum". Perguntei para o meu amigo se ele havia perguntado alguma coisa pro bicho quando pediu pra ele assinar o livro, e meu amigo disse que não

:)

Sobre a pala das expressões faciais seus comentário faziam-me pensar, é claro, nA mina. Que, como outra mina que a gt conhece bem, a gt sabe que é mó mina gata, mas não sabe exatamente como, porque não vê a cara. Se bem que essa só a gente não vê, a outra ninguém vê, mas bem. Não quero chegar a lugar nenhum com esse comentário, foi só que eu lembrei e achei engraçado que todas as ondas se ligam de repente, de alguma forma.

Izadora said...

aposto que essa coisa das minas tem algo a ver com ARTE e é potencialmente machista.