Friday, June 25, 2010

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(parte de um conto enorme bagunçado que provavelmente nunca vou terminar)
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Arrigo recebeu a sugestão num email do Bernardo, entusiasmada, de imediatamente colocar a tal frase ali (uma linha de código? o que significava?) pra pesquisa e controlar câmeras soltas pelo mundo. Não entendeu muito bem o que era pra acontecer, se de fato seria tão fácil assim, tão simples. Mas tava lá, apareceu mesmo uma lista imensa de câmeras de segurança distribuídas pelo mundo, todas desguardadas e acessíveis, algumas até controláveis com setas direcionais, você podendo muito lentamente alterar o que ela enquadrava. Arrigo não entendia como isso era possível, qual tecnicalidade fazia com que isso acontecesse. Isso devia estar errado, que ele conseguisse acessá-las tão facilmente. Mas a lista se desenrolava, interminável, as tantas câmeras oferecidas em endereços de nome atropelado e confuso. A alimentação era lenta, às vezes você quase só distinguia a imagem ali antojada de uma foto fixa por ligeiras perturbações de pixels acontecidas em folhagem agitada por vento, movimentações mínimas de cor, de azul do céu escurecido ou esclarecido, luz refletida tremendo. O mais estranho, talvez, era a falta de origem ou explicação pra aquilo que você via. Às vezes o endereço até explicava aquela imagem como proveniente de um bar na Flórida, de uma praça em Edimburgo, uma universidade Coreana. Às vezes a própria imagem era bem auto-explicativa. Aviões se acomodando numa pista de pouso, crianças orientais numa creche. Mas a maioria não se anunciava, não se delimitava como pertencente a lugar algum. Era a mais desconectada e impertencente manifestação de atualidade que Arrigo conseguia imaginar. Seria como uma mente onisciente que não conseguisse processar ou compreender a quantidade absurda de informações disponível, que conseguisse acessar apenas dados soltos, desconexos, visões e pedaços do mundo que não reportassem a nada, que não sustentassem relações, um Deus dificultado que apenas conseguisse compreender e observar um pequeno recorte do universo de cada vez.

Aquilo acontecia, de fato, aquela visão noturna e alaranjada de uma rua apertada e vazia, sem carros estacionados, aquilo acontecia naquele momento, era um ramo real e presente dos fatos. As paisagens em sua maioria cinzentas, complexos funcionais acalmados, estacionamentos vazios, áreas de descarga e depósito, pequenas torres de transmissão nos longes, cercas de arame. E no entanto aquilo precisava ser de algum interesse possível, de alguma relevância institucional, sei lá, um dos privilegiados pontos materiais do cosmos eleitos como importantes o bastante para merecer a vigilância permanente de uma câmera, uma oferta de luz cuidada. A maior vontade de Arrigo, algo que o deixava formigando de antecipação com cada janela diferente que abria, era de um dia abrir naquela oferta aleatória de mundos uma câmera que o capturasse. Por mais que soubesse a possibilidade infinitamente remota. O bloco vizinho ao seu era vigiado por câmeras, por exemplo. Se um dia calhasse de abrir a página com uma delas (o que não era impossível, não era), ele desceria imediatamente, correndo, atravessaria a rua, se colocaria com toda gratidão sob a visão daquelas modestas lentes, metendo seus movimentos para captura, que fossem seccionados e guardados, transmitidos, e correria de volta para o computador, no quarto, com a esperança que os atrasos esperados entre captura e transmissão e processamento e transmissão permitissem que ele encarasse a si mesmo, o eco ainda soado de seus movimentos, como alguém que consegue virar rápido o bastante para enxergar a própria nuca refletida, que consegue encurralar dentro de seus próprios pensamentos uma inesperada recorrência e prova de presença divina, encontra a si mesmo numa história narrada alheia, numa foto histórica, como uma confirmação quase sobrenatural da sua própria existência, dela atingindo esferas outras distantes de importância.

Mas não, nunca aparecia nenhuma visagem minimamente reconhecível. Jardins com luz crepuscular deitando em espelhos d'água, renovados estacionamentos, nuvens adumbradas se misturando em baixa e incerta resolução.

Ele continuava abrindo novas janelas, não conseguia evitar a impressão de que a próxima câmera traria alguma visão espetacular. Se não essa, a próxima, ou ainda a próxima depois dessa. Não raro aparecia alguma câmera que apenas entregava um quadro escuro, todo preto. Mesmo essa falta de qualquer detalhe configurado, de qualquer mundo desenhado não impedia a impressão de que aquele também era um pedaço genuíno e distinto do universo, aquele escuro um escuro específico e real, individualmente realizado. Era tudo preto, mas não perfeitamente preto, a imagem se preenchia de granulações e compreensões variadas desse nada, dessa ausência, e também ainda assim se alterava, se atualizava, se renovava de diferentes tentativas, diferentes recuperações de noite.

2 comments:

andreis passarinho said...

voces sao tudo bobo esse post foi super legal.

ai gato. said...

hahaha attention whore ;)