Wednesday, June 16, 2010

Now wave your flag
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É muito bonitinho ver como a Copa do Mundo se dispõe como palco absoluto de aplicação de todos disponíveis instrumentos de entretenimento. Além da insistência repetitiva nas trinta e duas câmeras de alta tecnologia acionadas a todo momento, na sua qualidade de imagem e imediata disponibilidade ao montar fluentemente a historinha de cada partida pros milhões de pessoas assistindo, nós temos ainda os incontáveis aplicativos pipocando modos de visualização de informação ao vivo dos jogos. É previsível que artchistas enxerguem essa profusão como um terreno fértil de contemporaneidad’s, e eles não estão exatamente errados. A linha é mais ou menos a de mostrar a quantidade absurda de ferramentas e filtros através dos quais nós podemos compreender um evento. Nada é simples e unívoco, mesmo esse joguinho aqui se desenrola em dezenas de versões diferentes, dezenas de sistemas de representação, cada um oferecendo um sentido distinto. Um jogo acontece ali diferentemente na narração do Galvão, da ESPN, da Sportv, cada um desvelando suas linhas editoriais marcadas como bandeiras. Acontece diferente nos tópicos do twitter, como sintoma daquilo que mais chama a atenção topicamente articulável dessa comunidadezinha (o Tshabalala se destaca tanto porque todo mundo gosta de dizer e digitar seu nome, por ex.). Acontece na recursão entediante da própria mídia ao descrever a si mesma (a cabeçada de Zidane quase nunca é descrita sozinha, muito mais por suas ramificações infinitas, sua qualidade de meme imediato).

O comercial da Nike linkado por toda parte, cabulosamente produzido, carregou esse ponto de uma maneira meio indecisa entre séria e pastiche (além de constituir uma auto-paródia involuntária e meio deprimente do diretor, o tudo-é-global-tá-tudo-conectado Inarritu ). Os atos desempenhados ali naquele momento preparado do jogo se tornam, imperativamente, históricos. Mesmo se não forem tão espetaculares assim, a estrutura de sua importância já está armada inevitavelmente. História (nesses termos, né) vai ser feita, já se sabe. É só esperar. Cada pequeno marco é destacado e entronizado. O primeiro gol da copa, o terceiro cartão vermelho, o primeiro técnico sérvio a derrotar a Sérvia dirigindo uma seleção estrangeira. Dá pra imaginar cada uma daquelas cenas compondo um pequeno documentário da Copa passando na TV a cabo na Alemanha em 2054. Um momento marcante que nós assistimos ao vivo é sempre surpreendente, estranho, até ser acalmado e recebido pelo replay – a versão itemizada com a qual os instrumentos do mundo devem lidar com aquilo de agora em diante. E o slogan que a Nike arrancou disso (“Write the future”) sugere que nós humildes aqui assistindo em casa partilhamos de alguma maneira dessa possibilidade espetacular de agência.

Publicidade esportiva tem sempre isso, claro, de apelar pro moleque dentro da gente que quer fazer o gol na final. O descarado é o salto que sugere que nós de fato já tenhamos como desempenhar esses atos explodidos mundialmente, sentidos por milhões de pessoas. Uma variação engraçada disso eu vi outro dia, na casa de um amigo, assistindo a final da Liga dos Campeões. O ps3 estava ligado na mesma televisão (para se jogar FIFA World Cup no intervalo), e no meio do jogo dois amigos empunharam os controles e fingiram por uns instantes que controlavam o que se passava em Madrid, ao vivo, como se controlassem com manipulações simbólicas o corpo daqueles jogadores milionários, suas articulações estéticas visíveis ali na tela. O tanto que isso fez a gente rir e a insistência demorada na brincadeira traíram um fato estranho. Que parte de nós esperava minimamente que eles respondessem aos comandos, parte de nós encarava aqueles vinte e dois indivíduos metidos numa atividade física de um nível técnico impossível de se alcançar como elementos inscientes de um jogo inumano programado para o nosso divertimento. Isso porque o nível de realidade mais imediato daquela partida – a experiência material daquelas pessoas correndo na grama no frio - nos é infinitamente distante. A realidade de um indivíduo igual a nós participar daquele que parece um evento de relevância inimaginável não é devidamente computada.

Ou ainda, em outra direção: o irmão de um amigo durante o segundo jogo da copa comentou que tava prestando mais atenção em que marcas eram divulgadas em volta do campo do que no jogo. Isso não é novo, de um evento midiático estourar tanto que se presta mais atenção na sua aura, nos seus apêndices*.

Da mesma forma, não é possível dar conta da complexidade potencial de cada jogo da copa. Você vê a imprensa e a publicidade insistirem naquelas imagens tradicionais de gente em volta de televisores no mundo todo, de culturas e situações sociais distintas, todos reagindo da mesma maneira, niveladas lindamente por esse ‘jogo universal’, etc. Além da torcida no estádio há muito tempo funcionar principalmente como cenário para o espetáculo, reforçando o seu sentido, a gente hoje ainda assiste a outras pessoas assistindo o jogo na televisão – a comunidade de coreanos em São Paulo nos certificando que sim, que aquele jogo chatinho importa, e que você deveria continuar assistindo. Mas não é possível de fato simular mentalmente que aquele gol ali feio da Eslovênia tenha algum significado, que exista no mundo um território administrativo correspondente àqueles vinte e três uniformizados, que milhões de pessoas tenham individualmente sentido aquele evento. A maneira mais fácil para a minha imaginação de lidar com aquilo é como se esses países fossem não apenas invenções meio arbitrárias - o que eles são - , mas apenas times de futebol, montados para jogar a Copa do Mundo.

5 comments:

andreis passarinho said...

nem linkei direito.

http://www.scoregrid.com/

http://www.adidas.com/campaigns/football/content/matchtracker.aspx

http://www.visualsport.com/

Ricardo Sanchéz said...

Essa brincadeira do controle eu e um amigo fazíamos mais retardado, tentando controlar o programa do Ratinho

gaiat. o said...

re comentário supra: risos

omar salgado said...

rolou um asterisco sem correspondência. ia falar do superbowl?

andreis passarinho said...

exatamente!