Thursday, May 27, 2010

Porque que eu não acho o Bernardo Carvalho um grande escritor (y)
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Não existe – eu não conheço – escritor brasileiro mais consciente do que ele, com maior domínio dos seus instrumentos retóricos todos, mais deliberado. Ele sabe onde ele está, no que tá sentado, o pertencimento de suas escolhas todas. Ele mantém um raio, um vocabulário e um território bem delimitadinhos, ele é todo contemporâneo, infalivelmente contemporâneo. Ele tem, de fato, uma obra*. Parece que leu muito Barthes, Benhard e Cortázar e teve muitas idéias sobre o que pode e o que não pode antes de publicar qualquer coisa. Ele tem idéias bem específicas sobre que adjetivos ele pode usar, sobre que fim pode ter uma história, sobre como pode se posicionar um personagem ficcional, um narrador, um enredo, nos dias etc. Eu juro que dá pra extrair só de Aberração, As Iniciais e Nove Noites um pequeno manualzinho de motivos e temas da ficção contemporânea, parece brincadeira. Deslocamentos de várias ordens, mediações, mentiras, loucuras, etc. Dá pra dar aulas-panorama em cima facinho. As teses de mestrado escrevem a si mesmas, pingam dos livros, se derramam. Dá pra escrever umas três só com a sinopse de Mongólia.

E não é que eu ache artificial, imposto. Não acho que ele filtrou periódicos de literatura através de tags populares e saiu escrevendo em cima disso. A voz dele** convence e sustenta em grande parte essas suas fixas referências e tentativas, mas a localização de tudo dentro de um léxico já previsto impede que eu veja grande graça se arranjando em qualquer lugar. O jogo já está armado, digamos.

E por jogo eu não quero dizer o enredo. Na verdade, o BC é bem pouco previsível nesse sentido, na maior parte do tempo, e bem habilidoso (embora seja verdade que depois do terceiro livro lido você comece a sacar o repertório razoavelmente repetido de mecanismos narrativos, os relatos/cartas que entregam só uma parte enviesada da história, as viagens ao exterior procurando parentes distantes de gente que talvez não exista, as notas de jornal pescadas acidentalmente que talvez ofereçam pistas que, etc). Eu quero dizer todo o romance, todas as suas escolhas possíveis. Pode até ser que o protagonista seja atropelado por um travesti, ou que ele descubra que ele é irmão do cara que assassinou décadas atrás, mas tudo isso acontece através de um filtro narrativo familiar, tudo é valorizado de uma mesma maneira. Uns mesmos distanciamentos do protagonista e dos outros personagens, conseguidos através de uns mesmos truques formais.

Você vê uma inteligência bem acima da média por trás, evitando banalidade, evitando sentimentalismo, e a sensação é agradável. Ele sabe o que tá fazendo, olha só. Você ajeita a postura, varre algumas migalhas de biscoito da camisa, se dispõe a levar o negócio a sério. Mas o livro parece todo contrito por uma sensibilidade reduzida, como um animal preso andando só até o alcance da sua coleira.

Ele sabe escolher paisagens e territórios interessantes, mas os temas são os mesmos, é tudo bastante familiar. Uma mesma tendência a culminar as potencialidades narrativas em paranóias do protagonista, praticamente toda tentativa de compreensão dos personagens igualmente sugeridas retoricamente como imposições arbitrárias de sentido. O passado como um peso insustentável e incompreensível que os mortos exercem sobre os vivos, e sobre o qual tentamos construir narrativas arbitrárias, homossexualismo e exostismos vários como símbolos bifrontes de alteridade (uma tensão que ele às vezes chega a negociar de um jeito interessante, mas que se repete demais da conta).

E essa falta de surpresa (que não seria, deixa eu repetir, uma surpresa narrativa, essas são corretamente alocadas) é o que me entedia. Do mesmo jeito que todas as fotos de uma Powershot parecem sempre limitadas de um mesmo jeito, as mesmas cores de plástico, tudo o que o BC nos mostra e nos entrega me parece saído de um mínimo buraquinho.

A minha objeção não é a do Martim Vasques, de que o BC tem inteligência e noção mas escolhe ser uma artesão do nilismo e da falta de sentido. O problema não está tanto em quais premissas que ele elege como base pra ficção dele, mas no fato de que ele tenta com tanta força se apoiar na força isolada de umas poucas e simples conclusões repetidas. Acho que o método seria igualmente cansativo independente das premissas eleitas.

É muito raro (em qualquer lugar, não só por aqui) um autor que tenha tanta noção do que tá fazendo, que nos entregue um bichinho todo orgânico, consciente de todos seus pertencimentos, todo deliberadamente posicionado. Existe, sim, uma beleza em ver alguém tão confiante, em concordar com o alinhamento de decisões tão acertadas e coerentes, em poder seguir o desempenho acertado de instrumentos retóricos. E ela às vezes é considerável.

Mas existe também uma segunda camada. Embora você veja com alguma frequência o BC ser destacado como um autor ousado, a imagem dele pra mim é principalmente de um cara comportado, alinhado. Quando eu penso nos instrumentos de recepção de literatura séria no Brasil, o tom do nosso pequeno jornalismo literário, tudo transido de FolhaMais!ness, ele parece de um encaixe tão confortável, tão bem-oleado, que a organicidade formal e coerência que me agradam nele vao ganhando um gostinho ruim. De um grupo pequeno de pessoas auto-complacentes infinitamente concordando umas com as outras.

Mas aí já não sei, pode muito bem ser principalmente birra da minha parte.

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*O outro escritor de ficção vivo nosso mais MADURO que eu conheço que tem uma obra assim mais ou menos respeitável é o Sérgio Sant’anna. Mas esse é esparramado em todas as direções em que o BC é contido. É o que o torna bem mais surpreendente, e também bem menos confiável. Algo como 60% do que ele escreve, pra mim, é ruim, ruim de quase não dar pra ler, mesmo.

**Alguém poderia reclamar que ele não tem uma voz autoral, ou que a voz dele é uma auto-elusiva cuja pala é basicamente de uma falta de voz, esse tipo de coisa. Mas pra mim isso é fumacinha. A voz é muito reconhecível.

8 comments:

andreis passarinho said...

GENTE MA QUE POST ENORME

Anonymous said...

Nadavê com o seu post, mas ô como o Martim Vasques escreve cansativamente, heim? Consegui nem pescar qual a opinião dele, porque fiquei com sono.

Nem conheço o Bernardo Carvalho, também, então nem tenho opinião sobre ele, mas eu já senti coisa parecida com alguns autores às vezes, essa coisa de uma formulinha interna do autor de expor um monte de pensamentos muito contemporâneos e interessantes, mas bem de formulinha, bem do tipo ESTOU APRENDENDO COM ISSO.

Hesse, mesmo, de quem eu gosto bastante, na verdade, tem muito disso, de VAMOS ABUSAR DOS CONCEITOS DO MEU TEMPO. É por aí que você tá dizendo? Aí nem dá pra ler dois Hesses em seguida, porque a gente percebe - de formar direitinho na cabeça, completinha - a obra do cara, mesmo que as histórias e personagens sejam diferentes (nem são tanto, em Hesse, mas acho que a semelhança dos protagonistas dele são em parte culpa da formulinha mui moderna que ele formou).

Gostei do blog, vou botar nos favoritos. :)

andreis passarinho said...

brigado (:
e eu nunca li hesse, mas deve ser parecido.

Anonymous said...

sim ok mas você sabe de lit. bras. contemporânea que faça namedrop de vampire weekend e essas coisas + perto da minha realidade?

eu tava folheando aquele livro do "cristóvão tezza" na livraria e só lembro que tinha um fusca a certa altura

(auihsua brincadeira né??? mas eu leria um livro seu ou dos seus amigo)

Anonymous said...

a impressão que me passa da obra dele e de gente aqui deslumbrada com o pós-mod dos americanos é que eles estão realmente seguindo uma cartilha, pondo todos aqueles artíficios que funcionam muito bem dentro daquela língua lá deles e daquela ambiente, mas que quando transplantado para cá, todos os remendos ficam aparecendo, a artificialidade se torna mais aparente.

se você pega o melhor da lit. cont. de língua espanhola você vê que tem muitas dessas tags de narrador impreciso, paranóia, etc, mas, que por surgirem dentro de uma tradição que é da própria língua (Borges, Córtazar) essa sensação que se passa ao ler o BC não acontece quando se lê um Piglia ou um Vila-Matas, mesmo me parecendo que o BC é superior a esses dois. Por não haver esse influxo tão forte na nossa língua, tudo soa assim, sem naturalidade, fruto de exercício, de tentar apreender um bê-a-bá que não é nosso.

O Sant'anna, se fosse realmente bom, poderia ter essa naturalidade dos latinos, mas o Sant'anna é Obina demais.

Anonymous said...

tua mãe conceitual apareceu agora na grobo. LUCIA PASSARINHO FALANDO SOBRE OS PROBLEMAS DE SE INSTALAR CAMERAS DE SEGURANÇA NAS ESCOLAS DE BRASILIA. foi nitz e eu to com um tempo livre lôckão de enorme.

andreis passarinho said...

faz algum sentido pensar que brasileiro querendo ser pós-moderno devia tentar inventar suas próprias figuras, próprias imagens. o sant'anna tenta isso pelo menos num nível mais imediato, de léxico, tal, mas concordo que é obina demai.

mas sei lá, acho tranquilo a tentativa de transplantar a sensibilidade pra cá, mesmo compreendida desse jeito, 'artificialmente'. o problema não me parece ser tanto esse.

André said...

Aah, esse BC é meio chato mesmo, bem comportado, seguindo cartilha.. O santanna é mais interessante, mas tb confio pouco nele.
Conhece Ninguém Nada Nunca, de Juan Jose Saer? pra mim é bem melhor.
Dos brasileiros acabo ficando com hilda hilst mesmo, arregaçada, porém intensa (e não fingindo ser intensa). :p