Sunday, May 09, 2010

Com todo o aço que tinha
-
Dos meus quatorze aos dezessete, eu quase que só lia ficção. O mundo praticamente não acontecia , se manifestava principalmente como uma escola modorrenta onde eu dormia e desenhava, e em amigos de internet com nicks engraçados que estavam sempre acordados às três da manhã. Eu assistia Newsradio depois do almoço e dormia a tarde toda. Eu não lia muito (em horas por dia/livros por mês), mas era, em certo sentido, a atividade mais importante que eu desempenhava, e eu já sabia disso. Gosto de pensar que vem daí a tendência entranhada e recorrente de tomar tudo por ficção, julgar tudo pelos seus parâmetros. Eu não digo daquele sentimento de mediação do Scrubs, e dos romances da garotada, de entender sua vida através de filmes e livros, narrar em terceira pessoa. Isso também existe, mas tou falando de outra coisa. De sempre julgar as ferramentas retóricas e os pontos de focalização de cada discurso que me é apresentado como se estivesse lidando com um narrador do Nabokov, com um conto do Borges. Num texto acadêmico, achar que as bibliografias são sempre falsas, os contextos inventados. Essas barreiras aqui são sempre porosas, precisam sempre ser levantadas com esforço.

2 comments:

Antonio Vargas said...

Sou lembrado de episódios de Mathnet precedidos por "The story you are about to see is a fib, but it's short".

and thank god I got out of school early.

eulália said...

identificação sobrenatural.