Sunday, November 28, 2010

Frozen images, respected few
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Um show de rock é um evento quase sempre desajeitado. É possível imaginar ocasiões de um alinhamento cultural extraordinário onde o humor se assesta, as pessoas realmente se entendem, mas parecem ser bem poucos. Geralmente você lida com muita gente besta, som ruim, moço da cerveja gritando. Os materiais disponíveis tão dificultosamente tentando se congregar numa fruição genuína, com tantos cotovelos e nucas literais e metafóricos te acertando e te impedindo, as empresas que patrocinam o evento com suas vinhetas e cartazes ridículos. As presenças apresentadas em variados níveis de pureza e suposta autenticidade (proximidade dos artistas do seu auge criativo, presença exigida de todos os membros da formação original, inclusive dos que nunca acrescentaram nada musicalmente, etc).

Eu falo disso porque sábado agora eu vi a minha banda preferida de todos os tempos, que eu escuto desde os quinze/dezesseis, e foi uma experiência emocionalmente muito forte e estranha. As dificuldades descritas estavam lá, ajuntadas ao tempo horrivelmente curto e aos fãs impassíveis de Billy Corgan. Mas a maioria delas não diminuía (pra mim) a força daquilo que eventualmente se configurava, e a princípio eu não conseguia entender como, exatamente. Até que me ocorreu que a maior parte da boniteza do Pavement já vem de uma awkwardness*, de um desajeito, um constrangimento. Daí que In the mouth a desert cantada por um homem maduro e aparentemente constrangido (de voz já dessemelhante de si mesma, diante de uma multidão apenas parcialmente compreensiva) não resulta menor, mais dispersa. Fica até, quem sabe, mais bonita.

*palavra intraduzível, né, das mais lindamente autológicas que existem.

Sunday, November 07, 2010


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Quem quiser ler algum trechino: isso aqui tá no livro, ainda que bem modificado. Comprem pra toda família (y).

Friday, November 05, 2010

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Eu formo os meus preconceitos estéticos como se estivesse realizando algo exato. Percebo alguns clichês recorrentes atrelados a um escritor, noto como é seu admirador típico, reconheço algumas tags genéricas tacadas pelo jornalismo distraído e vou endurecendo numas impressões vagas como se elas tivessem qualquer profundidade. Montando bustos de barro de gente que eu nunca vi.

É até útil, impede que eu fique doido de ansiedade por não ser capaz de perseguir todos os vários escritores que eu deveria perseguir. Mas é também traiçoeiro pra caramba.

EXEMPLO DE COMO PODE SER TRAIÇOEIRO PRA CARAMBA:

Coetzee acabou caindo nas minhas graças negativas por uma mistura confusa de suspeita do prêmio Nobel com suspeita de crítico fingindo que gosta de qualquer coisa que venha da África e faça alguma menção de tratar de opressão política. Acho que também não fui com a cara da fotinha dele. Dando tempo, essas vagas intimações vicejam na minha cabeça, criam troncos de anéis sobrepostos, musgo e parasitas, como se eu tivesse lido bibliografias, escrito alentados tomos sobre as deficiências do cara.

E ainda acontece deu dar de primeira com Slow Man, um dos seus piores livros (segundo muita gente que sabe melhor do que eu). Eu provavelmente passaria anos e anos de cara enfezada sem dar uma segunda chance, se não tivesse tido a tremenda sorte de alguém ter esquecido Desonra na minha casa.

Comecei a ler o livro com a cara feia já disposta, esperando encontrar clichês, facilidades políticas didaticamente enoveladas, truques literários sem conseqüência. Mas não. Toda essa pré-disposição foi sendo cirurgicamente desmontada por um dos livros mais fortes e irredutíveis das últimas décadas. Foi uma experiência engraçada continuar ainda por várias páginas achando que a minha cabecinha anteciparia o próximo passo, a próxima frase, o próximo efeito desejado, apenas para se ver o tempo inteiro surpreso com aquela sensibilidade tão aguda para desgraça, aquelas frases tão cuidadosas desvelando uns cortes agudos. Gradações do Mal trabalhadas numa voz que as leva a sério, que não troca violência por um signo político armado e que confere toda a gravidade ficcional necessária para que tamanha força auto-importante não se desmonte em algo arbitrário e simplesmente cruel.

Enfim. Hoje é um dos meus livros favoritos. E eu poderia passar a vida sem lê-lo apenas porque algum bobo copiou&colou bobagens vazias sobre o cara e me irritou.

MORAL DA HISTÓRIA: Os instrumentos do mundo não são confiáveis e somos todos moralmente obrigados a ler todos o livros já publicados.

Thursday, October 21, 2010

Le diverse et artificiose machine del capitano Agostino Ramelli
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Blog já ficou tão antiquado, né. Todo mundo aí disperso em outras presenças fantasmáticas mais breves e esguias, e eu aqui todo Roberto Pompeu de Toledo, o futuro do livro e a privatização do aborto, todo Irão e iPad.

Ainda mais blogger, meu deus, esse troço pedacento. Mas vocês é que não entenderam ainda que já deu a volta, transtrocou e revirou chique. Quinem que GIF.

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Andam numas de que o seriado sério americano – de TV a cabo, com um ritmo ‘deliberado’, sem as formulações apressadas de várias tramas resolutas por episódio – tá substituindo o romance. Como espelho da sociedade, como espaço comum de reflexão sofisticada, assunto de pessoas inteligentes, coisas assim. Isso num palco muito bonito de atribuições sociais às artes, né, com painéis em rosais públicos.

Esses seriados costumam ter criadores fortes por trás (ao invés de uma massa corporativa de produtores e escritores recorrentes), e um nível até surpreendente de integridade, considerando o nível televisivo. Mas nem dá pra entender o que ser quer com a tal substituição. Fora o Franzen, nenhum escritor de alguma força tenta ‘traçar panoramas’ e figurar em debates de relevância social. Talvez o Vargas Llosa, ou aquele Littel, mas parece difícil se manter acordado com esses tijolos todos mostrando que olha, opressão e totalitarismo não são legais, não! olha a banalidade do mal aqui. E não há um grande escritor ‘social’ de fato massivamente lido desde o século dezenove, provavelmente, quando Balzac e Dickens eram serializados e lidos como entretenimento popular.

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Mad Men não alcançou exatamente o respeito crítico de Sopranos e Wire, mas passa perto, e já é cultuada desenfreadamente como um objeto de distinção, algo a ser adicionado e curtido publicamente. Mas a sofisticação alardeada do negócio se contenta, mais do que qualquer coisa, em enquadrar elegância dos anos 60 em imagens tumbláveis e jogar toda hora umas ironias facinhas com alguns clichês vencidos da época (Olha como eles eram bobos, fumando e sendo sexistas, haha! Nossa, hoje a gente sabe melhor).

Mas eu assisto, sim, com algum atraso, e gosto de alguns momentos. Existe ‘complexidade psicológica’*, tem escritores razoáveis ali, às vezes montando diálogos interessantes de fato, com personagens empáticos que inclusive sobrevivem a massa de episódios, até se mantém de pé. Mas me incomoda o truque, ou filtro, ou sei lá o quê, de ‘capturar uma década’ como quem tá arrasando, como quem constitui um tremendo ato artístico. Jameson tem citações lindamente vagas e bem apropriadas que eu tou com preguiça de catar.

O seriado parece fascinado com sua própria capacidade de reproduzir as circunstâncias desse período destacado e reconhecível. Ah, a ingenuidade hipócrita desses anos!, de uma elegância e inocência perdidas com Kennedy, Nixon, Marilyn e o Vietnã! Revolução Sexual e movimento de direitos civis sugeridos em inserções gratuitas e vazias. Esse tipo de coisa. A manipulação publicitária se tornando mais poderosa e sofisticada (o que o seriado ao mesmo tempo elogia, estiliza por fodona e elege como símbolo de desonestidade e superficialidade cultural).

Os efeitos dessa reconstituição já estão prontos e vão se encaixando, os conflitos narrativos mais ou menos satisfatórios carregando tudo como lentas locomotivas desapressadas. E as brechas poucas que aparecem são preenchidas com gestos vagos e demorados, só raramente humanos, de uma melancoliazinha esbatida e tão sofisticada, de uns sobrolhos franzidos em quartos à meia luz.


*Geralmente quando dizem isso de um seriado, querem dizer que os personagens são moralmente dúbios e ocasionalmente contraditórios, em espamos arbitrariamente alocados. Mas aqui até que não.

Tuesday, October 12, 2010

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Esse post é muito vago e eu adorei escrevê-lo.

Na minha cidade não chove, e nem mais nada acontece. Bandas internacionais decidem que podem nos incluir nas suas turnês. Elas descem aqui de avião e tocam, boa parte das vezes em estruturas emprestadas e mal improvisadas, já que não temos muitos lugares apropriados pra esse tipo de coisa. O caderno de cultura faz um barulho todo. Existe um provincianismo extremo e muito bonitinho (que eu entendo) de olhar pra aquele povo da TV da sua adolescência e ver que eles estão existindo ali na sua cidade, olha só, as duas esferas se tocam. De extrair disso uma importância enorme, daquele lugar se reposicionar dentro de coordenadas pessoais de importância.

E é tudo tão pequeno. Uma banda de gente de talento muito ligeiro (mesmo pra esse tipo de coisa). Foi quase um acidente momentâneo de fatores que tornou as músicas deles um pouco mais significativas ou divertidas do que a massa de músicas bem parecidas da mesma época. E esse breve momento de fazer algum sentido pra adolescentes em conjunturas culturais tão particulares se filtra em diversas instâncias corporativas e jornalísticas, se dilui adiante, indefinidamente, qualquer espontaneidade redentora se perdendo. Esse breve acidente se traduz pro resto da vida tocando pelo mundo, na Turquia - imagino, não sei - no leste europeu, no interior do México. Como um filme dublado do Steven Seagal ainda reverberando no espaço, décadas adiante. E isso significando alguma coisa pra adolescentes renovados, para jovens adultos já nostálgicos de algo que nem, exatamente, chegou a acabar.

Um santinho eleitoral me fala de ‘equipamentos culturais para a comunidade’. É uma expressão meio triste, ressonando palavreado aparatoso político, instrumentalizações esquisitas. E por isso mesmo eu gosto dela, da tristeza pequena dela. Equipamentos culturais, faz pensar em algo trambolhoso. Faltam mesmo, esses quipamentos culturais. Na falta, na pobreza variada de imaginação, importamos tudo como podemos, de maneiras curiosamente pessoais. Eu penso sempre num amigo que teve a adolescência povoada por bandas pequenas e alternativas, bandas que só ele conhecia, num raio de possíveis milhares de quilômetros. E, além disso, uma rede de amigos gringos verdadeiros, de familiaridade extrema com os arredores de uma cultura alheia.

Temos uma penca de mundos imaginados à nossa quase-disposição, pendurados no nosso pescoço. E a distância desses mundos todos sempre contrasta decomforça, é sempre sentida.

É bem possível escolher pra si as circunstâncias e ambiências distantes de um pequeno setor cristalizado que lhe agrada. De sei lá o quê, de cinema francês dos anos tal, indie rock californiano dos anos noventa, república weimar, punk inglês, jazz age, maio de 68. Tudo parece igualmente habitável de mentirinha. E, em certa limitada medida, claro, não é nem de mentirinha. Não é impossível que funcione, que se fique bom nisso, praticado. Costuma ser meio ridículo pra quem vê de longe, como qualquer sustentação irônica, qualquer bovarismo,quixotismo, mas isso não torna inválido. Uma palheta reduzida de cores simples e poucas, repetidas, insistidas, trabalhadas durante toda uma vida.

Friday, August 20, 2010

The Spoils of Poynton
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Eu gosto de tentar dar conta dos motivos que me fazem gostar demais de alguma coisa. Não é traçar explicações, resenhas, slides de powerpoint encaixados, mas minimamente delimitar na minha cabeça o que há de especial em algo que me toca pra caramba, perceber quais os pontos expressivos distintos que saltam e se repetem.

É legal, como se você inventasse toda uma topografia da sua sensibilidade. Um território de indexações que você possa percorrer.

E inevitavelmente (porque eu gosto de fingir que as coisas fazem sentido) vão acontecendo umas conexões. Daí que Henry James tardio e Cézanne passam a ser parecidos, assim como Noah Baumbach e Ann Beattie. Modest Mouse de início-de-carreira vira a melhor banda que Brasília já teve. Um tipo de quadro do Matisse, o Silêncio, Gerry, os interiores do De Hooch. O mundo do Super Mario World junto de todo tipo de cosmogonia e cartografia ingênua.

Os reconhecimentos movediços vão acontecendo, ainda que forçados pela reunião amontoada, pela mera presença associada nas gavetas da minha cabeça. Como um gabinete de curiosidades das coisas bonitas que existem.

Tuesday, July 27, 2010

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Sim, é verdade que é possível usar ferramentas críticas relativamente complexas pra desmontar a linhagem por trás de Lady Gaga e certos filmes de Zumbi. Isso não significa que há qualquer interesse em fazê-lo. É verdade que alguns filmes do Tarantino contém algo como esquemas minuciosos de uma determinada linguagem popular. Isso não significa necessariamente que eles são bons.

É como se faltasse a alguns jornalistas e articulistas até a possibilidade vocabular de se criticar um artista que saiba o que está fazendo. Neguinho se sente diante de um formidável nível de auto-consciência formal, as nuanças poderosas e esotéricas de uma linguagem e vocabulário artístico que progressivamente reconhece a si mesmo.

É a interpretação que acha que, ao verificar alguma espécie de complexidade cognitiva deliberada por trás de cultura pop, se depara sempre com algo extraordinário. Como se não fosse possível que algo artificioso fosse superficial ou desinteressante. Como se artifício equivalesse a arte.

O fato de que a gente possa usar as palavras 'pastiche' e 'colagem' apropriadamente de maneira tão desenfreada deveria apontar para um relativo esvaziamento desses recursos, que já são vovôs, é bom lembrar, que remontam a monarquistas anglicanos e surrealistas franceses, a vanguardas de terninho.

* * *

No caso de formatos que ainda lutam por respeito, isso é ainda mais claro. Nos quadrinhos, Chris Ware, Daniel Clowes e Mazzuchelli são quase sempre resenhados com um fascínio meio condescendente, que se contenta em aplaudir a mera possibilidade formal das obras. Pode ser que exista, mas eu nunca vi alguém que tentasse seriamente falar da linguagem deles além de reconhecer a virtuose e as referências gráficas, que tentasse delimitar melhor as suas potências e deficiências expressivas.

Nos jogos, a gente tem algo parecido em volta de Braid, um jogo de 2008 que se pretende como arte da maneira mais encaixada possível, como se preenchesse os pré-requisitos de uma lista. É um jogo de plataforma antiquadamente renderizado, com arte cuidadosa, que se utiliza das convenções mais óbvias do gênero de um jeito auto-consciente para subvertê-las em direção a objetivos meio poéticos, meio metafísicos (uma subversão que acontece não só num nível narrativo, mas através da própria linguagem do jogo, sua mecânica e funcionamento).

Diferente de algo como Passage, que usa a estrutura de agência de um jogo, mas não partilha da história e das convenções da linguagem, Braid funciona muitíssimo bem como um jogo de plataforma, e é uma sensação nova e peculiar sentir-se imerso dentro de um jogo tão deliberadamente montado como obra de arte. Pelo nível de unidade estética intencional acumulada - visível até no nome, e possibilitada tão inteira pela produção independente e autoral do jogo, sacrificada e arriscada - acho que é preciso reconhecer o seu status de arte, sim. Se eu não considero o jogo inteiramente bem-sucedido, é pelo tamanho de suas pretensões, além de uma relativa breguice na suas escolhas estéticas. Mas o seu sucesso (inclusive financeiro) deve ter funcionado como um chamado às armas para muito artista desencontrado.

Elas estão aí, formas até ontem inerentemente populares trilhando os caminhos tão claramente sulcados de uma vanguarda. Existem dificuldades práticas maiores pro lado da emergência de um videogame autoral, mas as possibilidades de exposição e de impacto são ainda maiores do que essas dificuldades. No caso de HQ, pra mim a maior parte da transição já aconteceu, ainda que eu não ache que nenhuma obra isolada mereça nenhum coroamento extraordinário, nenhuma láurea definitiva de obra-prima ou gênio (o que talvez nem seja necessário). Não sei a quantas anda esse ímpeto na academia, mas no jornalismo cultural e quejandos ele já aconteceu.

No outro front, o movimento geracional já está feito, os blogueiros e articulistas todos prontos para receberem com trombetas abaritonadas e indexações em ferramentas sociais esses jogos preclaros do espírito humano. Bioshock já ressonou ligeiramente nesse sentido, mas ainda não houve exatamente um estoiro. Talvez aconteça no próximo jogo desses caras, talvez numa surpresa independente e autoral. É só questão de tempo.

Sunday, July 11, 2010

Umas notas sobre Cachalote e quadrinhos em geral
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Além de falar bem de Cachalote, deixa eu gesticular vagamente umas impressões sobre quadrinhos que nunca tenho a chance de tentar.

O Rafael Coutinho tem seu principal talento em criar ambientes, esparramá-los, abrir e fechá-los como bem entende. Ele sabe como enquadrar uma visão e o que mostrar de um lugar, como estabelecer uma impressão espacial e mantê-la. Sabe como usar as ondulações controladamente distorcidas do seu traço de maneiras sugestivas (em superfícies reflexivas, em vegetação), como integrar as pessoas nos seus ambientes e relacioná-los. É estranho o tanto que suas falhas e deficiências recorrem sobre um mesmo ponto: as figuras humanas. Longe do realismo eloquentemente simplificado e levemente torto da sua natureza e área urbana, as figuras humanas são estorcidas de uma maneira bem menos confiante, de uma incerteza que não é consistentemente expressiva, que em alguns momentos chega a ser quase apressada e tosca (quase nunca de uma maneira afetada, potencialmente interessante).

Isso parece uma crítica enorme, mas não é tanto. É mesmo muito complicado encontrar uma maneira expressiva e original de se desenhar gente, pra esses fins ainda mal afirmados de história em quadrinhos de autor. Não é só acertar uma voltinha do nariz, envolve todo o estilo que o artista vai arranjar pra montar as suas representações gestuais, e envolve os valores e impressões que o mundo representado deve passar.

Quando você não tá dentro de um gênero de convenções bem delineadas (como de super-heróis), você tem que tirar tudo da própria bunda. Americanos procedem com frequência em retomar convenções do imaginário gráfico do quadrinho mainstream. Clowes e Ware apresentam como que versões irônicas das figuras de gente como Schulz e Walt Kelly. Acrescidas de olheiras, em tons mais pálidos, ressacados de realidade*.

Mazzuchelli e Burns fazem coisas mais ou menos parecidas, ambos de maneira também original. Só o Tomine que parece insistir num realismo mais ‘direto’. Que só funciona porque ele é o escritor mais sutil de todos esses, o menos dependente de outro nível representativo que não o presente na história que ele tá contando.

Enfim, é difícil pra caramba encontrar o seu próprio jeito de desenhar pessoinha.
Não é à toa que todo estilista acima da média costuma manter a base da sua figura humana, depois que a encontra, às vezes por décadas.

Talvez Coutinho queira fugir de um desenho mais realista, ou que proceda a partir de estilizações tradicionais do cartun (talvez queira fugir do tipo de expressividade simples e lindamente infalível do pai, o que seria bem compreensível). Ele consegue, sim, encontrar nesses traços tortos pequenas negociações que funcionam, principalmente (pra mim) no personagem do escultor e no do ator chinês. Mas a inexpressividade frequente é uma pena. É claro que existem dimensões outras do seu traço e do seu repertório que carregam a expressividade narrativa da história, mas em momentos onde o peso recai mais diretamente no que é dito e no que devemos entender da cara dos personagens, nós muitas vezes não temos pessoinhas expressivas, vezes demais temos rasgos repetitivos e descolados de contexto (todo homem contido se contém num mesmo tracinho de boca, toda raiva se expressa numa mesma boca desmedida e disforme – e essa repetição não me parece funcionar dentro do mundo gráfico do Coutinho, que não é de simplicidade reconhecível e repetida).

Eu tou sendo chato, mas é justamente porque gostei muito de Cachalote, e porque queria que fosse ainda melhor do que já é.

Mas a grande vantagem do livro (ou 'romance gráfico', como queira) é que ele não se deixa diminuir tanto por essa que eu considero uma relativa fraqueza sua. Isso porque ele não tem só uma direção narrativa e representativa, não acontece só num tipo de expressividade. E nem tampouco seus níveis podem ser descascados ou engavetados, apontados como acontecendo aqui e ali, agora de tal jeito, agora de outro jeito. Não dá pra dizer onde o talento do Daniel Galera tá se sobrepondo ao do Coutinho, onde um orientou o outro. As qualidades se confundem e se informam de um jeito surpreendente,uma vai compensando as eventuais deficiências da outra.

É estranho como quase toda as histórias que compõe Cachalote tem premissas mais ou menos clichê, e como quase todas se desenrolam, no entanto, de maneiras inesperadas. Você acha que já as apreendeu, já conteve nos dedos as suas possibilidades, e de repente há uma espontaneidade surpreendente, uma falta de conclusão e de fechamento que não é simplesmente uma ausência arbitrária, um buraco largado, mas algo cuidadoso e contido, e seguro de si, uma força positiva. O Galera já demonstrou isso antes, e ele parece confortável em escrever histórias realizadas graficamente, sem poder se apoiar em outras ferramentas discursivas. Histórias que pareciam ser só sobre um assunto de repente se abrem, acomodam novos pontos, fluidamente. Eventos vão se quedando sem nenhuma pressa ou desespero por encaixe.

Na real, é muito bom ver o tanto que eu não tenho vocabulário ou paralelos fáceis para tentar explicar o que há de interessante e genuinamente novo nas cadências e explorações narrativas do livro, nas relações compreendidas entre elas, no tanto que elementos temáticos que não consigo relacionar direito parecem se alinhar, se adequar, e a opacidade discursiva bastante particular do meio ganha umas forças inesperadas, que você não sabe de onde vem.


*O Clowes no início de carreira tinha muito exagerada essa retomada irônica da ingenuidade do imaginário gráfico dos anos cinqüenta/sessenta, era cansativo. Com o tempo ele se tornou mais confiante e foi desamarrando um pouco seu estilo dessas implicações, embora a base se mantenha. O Ware, quase virtuoso, retoma no seu tipo particular de nostalgia um repertório absurdo de linguagem gráfica americana, não limitada a uma sensibilidade específica. Ele tem bem forte, por exemplo, a mania de nos entregar representações de uma simplicidade infográfica, de Clip Art. As representações reduzidas ao seu essencial comunicativo mais básico, só que minimamente manipuladas de acidentes, como que entristecidas.

Friday, July 02, 2010

Já de aviso, esse post é tão interessante ou iluminador quanto as outras bobagens desabafadas em mesas-redondas e caixas de comentários. No mesmo nível do TÚLIO DE ITAPETNINGA que diz GALVÃO VC NAO ACHA QUE OS BRASILEIROS PERDEM POIS NAO TEM CONTROLE PSICOLOGICO VIDE VARIOS RESULTADOS ESPORTIVOS e etcs.
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Tostão, maior homem vivo, é o único que tão frequentemente admite a impossibilidade de se contar uma historinha sobre jogos de futebol, a relativa arbitrariedade, impondo histórias quase completamente baseadas nos resultados. Essa verdade não é tão interessante quanto ele acha, e é aborrecida de se repetir a cada resultado surpreendente, mas não deixa de ser a verdade.

No entanto, às vezes as historinhas se apresentam encaixadas, esquisitamente adequadas, as coisas fazendo sentido (a Alemanha ser uma máquina tática que não perde disputa de pênaltis, a Àfrica espontânea, genial e desorganizada dos anos 90), geralmente não. Em 82 a história é que não se pode jogar tão bonito assim, que Deus castiga. Em 2006 foi que não pode ter festa, tem que ter alma. A resposta (de mentalidade principalmente publicitária) ao suposto problema foi o Dunga. Uma resposta que nunca fez sentido, em nenhuma esfera de explicação, mas que foi se acidentando adiante como a única possibilidade, e que as pessoas facilmente foram aceitando por motivos apoucados e tortos, como sempre fazem.

Para o fracasso dessa vez as explicações são tão óbvias e prefiguradas por qualquer pessoa de bom senso que quase não tem graça. Ele se percebia com a sutileza diversamente anunciada de um caminhão de lixo, de um monstro de filme japonês.

(O que não impediria, é claro, a gente de ganhar do mesmo jeito, sem fazer sentido. Ou enformando aos poucos um sentido narrativo composto de Lúcio, Juan e Maicon, com a fajutice fabulosa e afins se assentando como podiam, com tapinhas de mão)

Que a gente perdeu a copa ali no Dunga ganhando a copa América, vendo seu mundinho rarefeito e solipsista arrancar confirmações absurdas da realidade, renovadas na Copa das Confederações, ou que perdemos na convocação, que até hoje ressoa como um desafio à qualquer noção de qualquer coisa (justificando com a mesma racionalidade a Ditadura, a escravatura e a presença de Kléberson), ou que perdemos quando o Filipe Melo jogou bem os primeiros jogos e deu impressão que queimaria todas nossas línguas. Etc.

E pra quem se identifica tão pouco com sentimentos massivamente veiculados, pra quem tem relativa dificuldade de compreender ou partilhar a dimensão de eventos de larga escala, é sempre estranho poder voluntariamente se adequar a essas delimitações de tristeza e alegria tão simples e binárias. Como se faz em qualquer outra ficção, qualquer outra suspensão de descrença, só que uma encenada grotescamente por milhões de pessoas, e mal interpretada pelos veículos mais crassos (Galvão, anúncios amanhã cedo nos jornais falando VALEU, SELEÇÃO).

Entendo que esse sentimento não faça sentido pra muita gente, que alguém não veja graça em futebol, não consiga ou não queira torcer, mas é tão pequeno o extremo oposto, extrair um senso tremendo de individualidade e auto-importância do fato de não se adequar no humor que se apresenta, não se adequar. Gente que de fato acha que vai arrancar à força uma personalidade com esse tipo de demarcação (ou uma, risos, personal brand).

Como uma amiga comentou, tristes são os fogos já comprados e que precisam ser estourados, pipocando desapontamentos, quinem que os rasgos de um bicho morrendo.

O que faltou foi a presença de espírito histórico da RedeTv!, ao não se agenciar Vannucci embriagado pra esse pós-jogo, impecável, infalível, cuidando para todo o sempre às nossas vaidades da única e perfeita resposta apropriada.

Tuesday, June 29, 2010

Die lehre der Sainte-Victoire
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Os gálicos (literais e derivados) que comentam toda ficção realista moderna com risinhos de escárnio não entendem nada. As reclamações mais habituais sugerem que o que ocorre é um seguimento automatizado de linhas tradicionais programáticas simplérrimas, uma ingenuidade tremenda que se acha próxima de alguma forma objetiva de apresentar a realidade, mas na real só envolve a aplicação insciente de umas fórmulas burguesas aborrecidas, ignorantes de viradas e reboladas linguísticas, formidáveis limiares ultrapassados de maneira definitiva por gente assim inteligentíssima. Do tipo olhem-só-para-eles-acham-que-a-"realidade"-se-configura-assim-com-palavrinhas-que-remetam-a-objetos-e-lineariedade-e-um-universo-com-atualidade-apreensível-e-personagens-com-interioridade-e-agência-material-circunscrita-à-subjetividade-européia, tadinhos.

(como se certas medidas do fantástico, de pastiche pop, de fragmentação, de polifonia , etc, não se prestassem todas ao mesmo processo de formulação, ou o parti pris supostamente mais subjetivista trouxesse atestado de originalidade e complexidade).

Nenhum autor realista interessante apresenta uma cosmologia tão simples, tão inequívoca. uma impressão de realidade tão aborrecida. Nem uma Ann Beattie da vida. Essas convenções não se apresentam tão imediatas assim, são sempre renegociadas, repostas com o estabelecimento de qualquer voz minimamente autêntica. Não que todo mundo seja um Cézanne (um Henry James), mas o erro - ou a ingenuidade - é achar que realizar o mundo consegue ser simples. Nem querendo. Isso não existe.

Friday, June 25, 2010

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(parte de um conto enorme bagunçado que provavelmente nunca vou terminar)
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Arrigo recebeu a sugestão num email do Bernardo, entusiasmada, de imediatamente colocar a tal frase ali (uma linha de código? o que significava?) pra pesquisa e controlar câmeras soltas pelo mundo. Não entendeu muito bem o que era pra acontecer, se de fato seria tão fácil assim, tão simples. Mas tava lá, apareceu mesmo uma lista imensa de câmeras de segurança distribuídas pelo mundo, todas desguardadas e acessíveis, algumas até controláveis com setas direcionais, você podendo muito lentamente alterar o que ela enquadrava. Arrigo não entendia como isso era possível, qual tecnicalidade fazia com que isso acontecesse. Isso devia estar errado, que ele conseguisse acessá-las tão facilmente. Mas a lista se desenrolava, interminável, as tantas câmeras oferecidas em endereços de nome atropelado e confuso. A alimentação era lenta, às vezes você quase só distinguia a imagem ali antojada de uma foto fixa por ligeiras perturbações de pixels acontecidas em folhagem agitada por vento, movimentações mínimas de cor, de azul do céu escurecido ou esclarecido, luz refletida tremendo. O mais estranho, talvez, era a falta de origem ou explicação pra aquilo que você via. Às vezes o endereço até explicava aquela imagem como proveniente de um bar na Flórida, de uma praça em Edimburgo, uma universidade Coreana. Às vezes a própria imagem era bem auto-explicativa. Aviões se acomodando numa pista de pouso, crianças orientais numa creche. Mas a maioria não se anunciava, não se delimitava como pertencente a lugar algum. Era a mais desconectada e impertencente manifestação de atualidade que Arrigo conseguia imaginar. Seria como uma mente onisciente que não conseguisse processar ou compreender a quantidade absurda de informações disponível, que conseguisse acessar apenas dados soltos, desconexos, visões e pedaços do mundo que não reportassem a nada, que não sustentassem relações, um Deus dificultado que apenas conseguisse compreender e observar um pequeno recorte do universo de cada vez.

Aquilo acontecia, de fato, aquela visão noturna e alaranjada de uma rua apertada e vazia, sem carros estacionados, aquilo acontecia naquele momento, era um ramo real e presente dos fatos. As paisagens em sua maioria cinzentas, complexos funcionais acalmados, estacionamentos vazios, áreas de descarga e depósito, pequenas torres de transmissão nos longes, cercas de arame. E no entanto aquilo precisava ser de algum interesse possível, de alguma relevância institucional, sei lá, um dos privilegiados pontos materiais do cosmos eleitos como importantes o bastante para merecer a vigilância permanente de uma câmera, uma oferta de luz cuidada. A maior vontade de Arrigo, algo que o deixava formigando de antecipação com cada janela diferente que abria, era de um dia abrir naquela oferta aleatória de mundos uma câmera que o capturasse. Por mais que soubesse a possibilidade infinitamente remota. O bloco vizinho ao seu era vigiado por câmeras, por exemplo. Se um dia calhasse de abrir a página com uma delas (o que não era impossível, não era), ele desceria imediatamente, correndo, atravessaria a rua, se colocaria com toda gratidão sob a visão daquelas modestas lentes, metendo seus movimentos para captura, que fossem seccionados e guardados, transmitidos, e correria de volta para o computador, no quarto, com a esperança que os atrasos esperados entre captura e transmissão e processamento e transmissão permitissem que ele encarasse a si mesmo, o eco ainda soado de seus movimentos, como alguém que consegue virar rápido o bastante para enxergar a própria nuca refletida, que consegue encurralar dentro de seus próprios pensamentos uma inesperada recorrência e prova de presença divina, encontra a si mesmo numa história narrada alheia, numa foto histórica, como uma confirmação quase sobrenatural da sua própria existência, dela atingindo esferas outras distantes de importância.

Mas não, nunca aparecia nenhuma visagem minimamente reconhecível. Jardins com luz crepuscular deitando em espelhos d'água, renovados estacionamentos, nuvens adumbradas se misturando em baixa e incerta resolução.

Ele continuava abrindo novas janelas, não conseguia evitar a impressão de que a próxima câmera traria alguma visão espetacular. Se não essa, a próxima, ou ainda a próxima depois dessa. Não raro aparecia alguma câmera que apenas entregava um quadro escuro, todo preto. Mesmo essa falta de qualquer detalhe configurado, de qualquer mundo desenhado não impedia a impressão de que aquele também era um pedaço genuíno e distinto do universo, aquele escuro um escuro específico e real, individualmente realizado. Era tudo preto, mas não perfeitamente preto, a imagem se preenchia de granulações e compreensões variadas desse nada, dessa ausência, e também ainda assim se alterava, se atualizava, se renovava de diferentes tentativas, diferentes recuperações de noite.

Wednesday, June 16, 2010

Now wave your flag
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É muito bonitinho ver como a Copa do Mundo se dispõe como palco absoluto de aplicação de todos disponíveis instrumentos de entretenimento. Além da insistência repetitiva nas trinta e duas câmeras de alta tecnologia acionadas a todo momento, na sua qualidade de imagem e imediata disponibilidade ao montar fluentemente a historinha de cada partida pros milhões de pessoas assistindo, nós temos ainda os incontáveis aplicativos pipocando modos de visualização de informação ao vivo dos jogos. É previsível que artchistas enxerguem essa profusão como um terreno fértil de contemporaneidad’s, e eles não estão exatamente errados. A linha é mais ou menos a de mostrar a quantidade absurda de ferramentas e filtros através dos quais nós podemos compreender um evento. Nada é simples e unívoco, mesmo esse joguinho aqui se desenrola em dezenas de versões diferentes, dezenas de sistemas de representação, cada um oferecendo um sentido distinto. Um jogo acontece ali diferentemente na narração do Galvão, da ESPN, da Sportv, cada um desvelando suas linhas editoriais marcadas como bandeiras. Acontece diferente nos tópicos do twitter, como sintoma daquilo que mais chama a atenção topicamente articulável dessa comunidadezinha (o Tshabalala se destaca tanto porque todo mundo gosta de dizer e digitar seu nome, por ex.). Acontece na recursão entediante da própria mídia ao descrever a si mesma (a cabeçada de Zidane quase nunca é descrita sozinha, muito mais por suas ramificações infinitas, sua qualidade de meme imediato).

O comercial da Nike linkado por toda parte, cabulosamente produzido, carregou esse ponto de uma maneira meio indecisa entre séria e pastiche (além de constituir uma auto-paródia involuntária e meio deprimente do diretor, o tudo-é-global-tá-tudo-conectado Inarritu ). Os atos desempenhados ali naquele momento preparado do jogo se tornam, imperativamente, históricos. Mesmo se não forem tão espetaculares assim, a estrutura de sua importância já está armada inevitavelmente. História (nesses termos, né) vai ser feita, já se sabe. É só esperar. Cada pequeno marco é destacado e entronizado. O primeiro gol da copa, o terceiro cartão vermelho, o primeiro técnico sérvio a derrotar a Sérvia dirigindo uma seleção estrangeira. Dá pra imaginar cada uma daquelas cenas compondo um pequeno documentário da Copa passando na TV a cabo na Alemanha em 2054. Um momento marcante que nós assistimos ao vivo é sempre surpreendente, estranho, até ser acalmado e recebido pelo replay – a versão itemizada com a qual os instrumentos do mundo devem lidar com aquilo de agora em diante. E o slogan que a Nike arrancou disso (“Write the future”) sugere que nós humildes aqui assistindo em casa partilhamos de alguma maneira dessa possibilidade espetacular de agência.

Publicidade esportiva tem sempre isso, claro, de apelar pro moleque dentro da gente que quer fazer o gol na final. O descarado é o salto que sugere que nós de fato já tenhamos como desempenhar esses atos explodidos mundialmente, sentidos por milhões de pessoas. Uma variação engraçada disso eu vi outro dia, na casa de um amigo, assistindo a final da Liga dos Campeões. O ps3 estava ligado na mesma televisão (para se jogar FIFA World Cup no intervalo), e no meio do jogo dois amigos empunharam os controles e fingiram por uns instantes que controlavam o que se passava em Madrid, ao vivo, como se controlassem com manipulações simbólicas o corpo daqueles jogadores milionários, suas articulações estéticas visíveis ali na tela. O tanto que isso fez a gente rir e a insistência demorada na brincadeira traíram um fato estranho. Que parte de nós esperava minimamente que eles respondessem aos comandos, parte de nós encarava aqueles vinte e dois indivíduos metidos numa atividade física de um nível técnico impossível de se alcançar como elementos inscientes de um jogo inumano programado para o nosso divertimento. Isso porque o nível de realidade mais imediato daquela partida – a experiência material daquelas pessoas correndo na grama no frio - nos é infinitamente distante. A realidade de um indivíduo igual a nós participar daquele que parece um evento de relevância inimaginável não é devidamente computada.

Ou ainda, em outra direção: o irmão de um amigo durante o segundo jogo da copa comentou que tava prestando mais atenção em que marcas eram divulgadas em volta do campo do que no jogo. Isso não é novo, de um evento midiático estourar tanto que se presta mais atenção na sua aura, nos seus apêndices*.

Da mesma forma, não é possível dar conta da complexidade potencial de cada jogo da copa. Você vê a imprensa e a publicidade insistirem naquelas imagens tradicionais de gente em volta de televisores no mundo todo, de culturas e situações sociais distintas, todos reagindo da mesma maneira, niveladas lindamente por esse ‘jogo universal’, etc. Além da torcida no estádio há muito tempo funcionar principalmente como cenário para o espetáculo, reforçando o seu sentido, a gente hoje ainda assiste a outras pessoas assistindo o jogo na televisão – a comunidade de coreanos em São Paulo nos certificando que sim, que aquele jogo chatinho importa, e que você deveria continuar assistindo. Mas não é possível de fato simular mentalmente que aquele gol ali feio da Eslovênia tenha algum significado, que exista no mundo um território administrativo correspondente àqueles vinte e três uniformizados, que milhões de pessoas tenham individualmente sentido aquele evento. A maneira mais fácil para a minha imaginação de lidar com aquilo é como se esses países fossem não apenas invenções meio arbitrárias - o que eles são - , mas apenas times de futebol, montados para jogar a Copa do Mundo.

Wednesday, June 09, 2010

All them dumpsters overflowing
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Enfileirados todos na minha frente, antes de eu dormir. A disposição particular deles é muito familiar, o arranjo de cores, o desenho único que se monta . Pequenas caixinhas, pequenos tijolinhos de consciência. São objetos bem simples. Eu tento voltar minhas fracas luzes pra memória que tenho de cada um daqueles que, de fato, li. A imagem mais exata talvez seja de umas vagas impressões já desmontadas, sem cor, de uns eventos esvaziados, pedaços recortados de frases, lembrando apenas aquilo que eu conto que conto pra mim mesmo, como uma imagem repetidamente repassada por algoritmos de compressão. Mas a imagem que mais me agrada é bem outra, de todos aqueles hominhos - todas as vozes e acidentes e eventos empilhados - ainda redivivos aqui, ainda que inacessíveis, Tudo ainda resistindo, mundos recuperados, sobrevivendo não sei por que meios. Em hotéis e pensões mal acabadas, corredores enormes inassistidos. Os habitantes de cidades paroquiais inglesas, panoramas de tal e tal sociedade, pequena-nobreza russa, americanos nervosinhos, franceses ironizados, todo mundo vividamente interagindo, as tramas sobrepostas em múltiplas janelas minimizadas.

Thursday, May 27, 2010

Porque que eu não acho o Bernardo Carvalho um grande escritor (y)
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Não existe – eu não conheço – escritor brasileiro mais consciente do que ele, com maior domínio dos seus instrumentos retóricos todos, mais deliberado. Ele sabe onde ele está, no que tá sentado, o pertencimento de suas escolhas todas. Ele mantém um raio, um vocabulário e um território bem delimitadinhos, ele é todo contemporâneo, infalivelmente contemporâneo. Ele tem, de fato, uma obra*. Parece que leu muito Barthes, Benhard e Cortázar e teve muitas idéias sobre o que pode e o que não pode antes de publicar qualquer coisa. Ele tem idéias bem específicas sobre que adjetivos ele pode usar, sobre que fim pode ter uma história, sobre como pode se posicionar um personagem ficcional, um narrador, um enredo, nos dias etc. Eu juro que dá pra extrair só de Aberração, As Iniciais e Nove Noites um pequeno manualzinho de motivos e temas da ficção contemporânea, parece brincadeira. Deslocamentos de várias ordens, mediações, mentiras, loucuras, etc. Dá pra dar aulas-panorama em cima facinho. As teses de mestrado escrevem a si mesmas, pingam dos livros, se derramam. Dá pra escrever umas três só com a sinopse de Mongólia.

E não é que eu ache artificial, imposto. Não acho que ele filtrou periódicos de literatura através de tags populares e saiu escrevendo em cima disso. A voz dele** convence e sustenta em grande parte essas suas fixas referências e tentativas, mas a localização de tudo dentro de um léxico já previsto impede que eu veja grande graça se arranjando em qualquer lugar. O jogo já está armado, digamos.

E por jogo eu não quero dizer o enredo. Na verdade, o BC é bem pouco previsível nesse sentido, na maior parte do tempo, e bem habilidoso (embora seja verdade que depois do terceiro livro lido você comece a sacar o repertório razoavelmente repetido de mecanismos narrativos, os relatos/cartas que entregam só uma parte enviesada da história, as viagens ao exterior procurando parentes distantes de gente que talvez não exista, as notas de jornal pescadas acidentalmente que talvez ofereçam pistas que, etc). Eu quero dizer todo o romance, todas as suas escolhas possíveis. Pode até ser que o protagonista seja atropelado por um travesti, ou que ele descubra que ele é irmão do cara que assassinou décadas atrás, mas tudo isso acontece através de um filtro narrativo familiar, tudo é valorizado de uma mesma maneira. Uns mesmos distanciamentos do protagonista e dos outros personagens, conseguidos através de uns mesmos truques formais.

Você vê uma inteligência bem acima da média por trás, evitando banalidade, evitando sentimentalismo, e a sensação é agradável. Ele sabe o que tá fazendo, olha só. Você ajeita a postura, varre algumas migalhas de biscoito da camisa, se dispõe a levar o negócio a sério. Mas o livro parece todo contrito por uma sensibilidade reduzida, como um animal preso andando só até o alcance da sua coleira.

Ele sabe escolher paisagens e territórios interessantes, mas os temas são os mesmos, é tudo bastante familiar. Uma mesma tendência a culminar as potencialidades narrativas em paranóias do protagonista, praticamente toda tentativa de compreensão dos personagens igualmente sugeridas retoricamente como imposições arbitrárias de sentido. O passado como um peso insustentável e incompreensível que os mortos exercem sobre os vivos, e sobre o qual tentamos construir narrativas arbitrárias, homossexualismo e exostismos vários como símbolos bifrontes de alteridade (uma tensão que ele às vezes chega a negociar de um jeito interessante, mas que se repete demais da conta).

E essa falta de surpresa (que não seria, deixa eu repetir, uma surpresa narrativa, essas são corretamente alocadas) é o que me entedia. Do mesmo jeito que todas as fotos de uma Powershot parecem sempre limitadas de um mesmo jeito, as mesmas cores de plástico, tudo o que o BC nos mostra e nos entrega me parece saído de um mínimo buraquinho.

A minha objeção não é a do Martim Vasques, de que o BC tem inteligência e noção mas escolhe ser uma artesão do nilismo e da falta de sentido. O problema não está tanto em quais premissas que ele elege como base pra ficção dele, mas no fato de que ele tenta com tanta força se apoiar na força isolada de umas poucas e simples conclusões repetidas. Acho que o método seria igualmente cansativo independente das premissas eleitas.

É muito raro (em qualquer lugar, não só por aqui) um autor que tenha tanta noção do que tá fazendo, que nos entregue um bichinho todo orgânico, consciente de todos seus pertencimentos, todo deliberadamente posicionado. Existe, sim, uma beleza em ver alguém tão confiante, em concordar com o alinhamento de decisões tão acertadas e coerentes, em poder seguir o desempenho acertado de instrumentos retóricos. E ela às vezes é considerável.

Mas existe também uma segunda camada. Embora você veja com alguma frequência o BC ser destacado como um autor ousado, a imagem dele pra mim é principalmente de um cara comportado, alinhado. Quando eu penso nos instrumentos de recepção de literatura séria no Brasil, o tom do nosso pequeno jornalismo literário, tudo transido de FolhaMais!ness, ele parece de um encaixe tão confortável, tão bem-oleado, que a organicidade formal e coerência que me agradam nele vao ganhando um gostinho ruim. De um grupo pequeno de pessoas auto-complacentes infinitamente concordando umas com as outras.

Mas aí já não sei, pode muito bem ser principalmente birra da minha parte.

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*O outro escritor de ficção vivo nosso mais MADURO que eu conheço que tem uma obra assim mais ou menos respeitável é o Sérgio Sant’anna. Mas esse é esparramado em todas as direções em que o BC é contido. É o que o torna bem mais surpreendente, e também bem menos confiável. Algo como 60% do que ele escreve, pra mim, é ruim, ruim de quase não dar pra ler, mesmo.

**Alguém poderia reclamar que ele não tem uma voz autoral, ou que a voz dele é uma auto-elusiva cuja pala é basicamente de uma falta de voz, esse tipo de coisa. Mas pra mim isso é fumacinha. A voz é muito reconhecível.

Tuesday, May 18, 2010

The little cartoon at the heart of events
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O Delillo não é esse autor que as professorinhas de cultural studies dependuradas no seu pescoço levam a crer. Parcialmente até que sim. Cultura de massa e mediação e mídia e imagem, as tags todas estão lá. Mas não é panorama, não é explicação, não é alegoria (embora os personagens inexistam, embora ele tenha a cara de pau de nomear um personagem 'the curator'). O que ele faz em cima disso, nos seus melhores momentos - com uma prosa de ritmo todo próprio, de uma atenção demorada que impede que qualquer momento se passe desapercebido - é um tipo de misticismo. Um deliberadamente vago e confuso, né. Misticismo é uma palavra de muitos bracinhos, e não vou tentar me explicar. Mas eu não sou o único que acha.

Sunday, May 09, 2010

Com todo o aço que tinha
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Dos meus quatorze aos dezessete, eu quase que só lia ficção. O mundo praticamente não acontecia , se manifestava principalmente como uma escola modorrenta onde eu dormia e desenhava, e em amigos de internet com nicks engraçados que estavam sempre acordados às três da manhã. Eu assistia Newsradio depois do almoço e dormia a tarde toda. Eu não lia muito (em horas por dia/livros por mês), mas era, em certo sentido, a atividade mais importante que eu desempenhava, e eu já sabia disso. Gosto de pensar que vem daí a tendência entranhada e recorrente de tomar tudo por ficção, julgar tudo pelos seus parâmetros. Eu não digo daquele sentimento de mediação do Scrubs, e dos romances da garotada, de entender sua vida através de filmes e livros, narrar em terceira pessoa. Isso também existe, mas tou falando de outra coisa. De sempre julgar as ferramentas retóricas e os pontos de focalização de cada discurso que me é apresentado como se estivesse lidando com um narrador do Nabokov, com um conto do Borges. Num texto acadêmico, achar que as bibliografias são sempre falsas, os contextos inventados. Essas barreiras aqui são sempre porosas, precisam sempre ser levantadas com esforço.

Sunday, April 25, 2010

Lately the concept has been adopted by marketing campaigns.
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Nunca vi ninguém falar nada parecido, mas me parece meio óbvio o motivo de paranóia ter se tornado um tema (ou método) tão prontamente absorvido pela ficção recente. Ela serve basicamente como uma teleologia falsa, uma totalidade impossível que o romance finge fixar, às vezes pelo interesse (em grande parte cômico) que se tem em articulações distantes e absurdas da realidade, às vezes como dramatização bastante séria e sisuda da arbitrariedade de todas essas nossas tão-tolas construções de sentido. Geralmente um meio termo dos dois. O Borges parece ser – como sempre – um dos pais distantes da confusão toda, ou pelo menos da sua possibilidade formal.

Faz sentido que a paranóia enquanto tropo se difunda como praga, se pra nove de dez autores modernosos o procedimento operacional padrão é o de estabelecer ironicamente tentativas fracassadas de compreensão do mundo (o ‘ironicamente’ e o ‘fracassadas’ aí variando bastante muito de tom). Também não ajuda que as pessoas achem que sugerir loucura em personagens - principalmente narradores - torna tudo imediatamente interessante.

Paranóia é mais habitualmente chamada pelo seu nome com os americanos, principalmente Pynchon, mas na real ela se vê esparramada por todo lado, ainda que às vezes fininha e dificilmente reconhecível. Nos EUA paranóia ganhou essas calças específicas de dominação política, a narrativa-total-paranóica misturando as várias possibilidades disponíveis e sobrepostas da mitologia política popular americana*. Não é um acidente que Pynchon tenha essa identificação com contracultura e anos-sessenta-ness (Inherent Vice deixou bem claro o tanto que ela é forte e afetiva).

Mas paranóia não é só isso. Você pode, eu proponho, chamar de paranóia toda redução extrema da realidade a um código absurdo, pessoal e arbitrariamente imposto. Toda totalização de um sistema de referências ou microcosmo aleatório. Não é psicologicamente preciso, deve ter algum outro nome mais exato, mas literariamente o recurso imaginativo é exatamente o mesmo.

E nesse sentido, paranóia tá lá pura e translúcida em Cosmos, do Gombrowicz, tá pesadona em quase tudo que eu já li do Bernardo Carvalho, em trechos do DeLillo (muito forte em Libra), naquele trecho de M*A*S*H do Infinite Jest, borbulhando indecisamente o tempo inteiro no Cortázar**, acho que até em momentos do Piglia. Se eu não fosse ignorante, aposto que teria mais uns dez exemplos***. Sempre que um personagem, geralmente o protagonista, propor um sistema de equivalências esquisito que pretenda dar sentido ao mundo - e, consequentemente, ao romance -, apenas para vê-lo plenamente frustrado em seguida (uma frustração que pode acontecer estrondosa, ou pode ser apenas retoricamente sugerida), ela tá lá, correndo por debaixo, toda esguia, toda safadona.

*No Pynchon ainda tem geralmente umas duas camadas adicionais de complicação, mas não temos tempo pra elas.
**Me irrita.
*** Eu chuto que franceses cont devem fazer isso toda hora. Mas eu não conheço praticamente nenhum. Se alguém souber faz favor me avisa.

Tuesday, April 13, 2010

Gli oggetti desueti nelle immagini della letteratura
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Não é aceitável que qualquer coisa se perca. Se eu tenho como encontrar imediatamente a completa lista de episódios dos Thundercats, eu deveria ser igualmente capaz de encontrar uma descrição perfeita do que eu fiz à tarde no dia treze de abril de noventa e nove, qual episódio de Newsradio que eu assisti, quantos biscoitos comi, o que eu achei da luz caída no chão do escritório, etc. Talvez na forma de um ensaio escrito por uma mestranda da Universidade de Bogotá, relacionando aquele dia com os outros dia daquele semestre, elencando gráficos que provassem pontos controversos, uma bibliografia enorme, as páginas mais interessantes faltando na visualização gratuita do Google Books.
Sempre que eu tento entreter imagens de onisciência, me pego escapando pra esses subterfúgios desajeitados.

Saturday, March 27, 2010

É possível uma existência contemporânea hoje sem malware??
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Na real, ninguém sabe o que se passa, a quantas anda a internet, o Japão, a política, a democracia, a literatura, o Botafogo. Ajuntamos feeds obscuros, manchetes da Globo.com, artigos profundos da n+1, reflexões lindas que você faz dirigindo sozinho de noite sobre COMO FIRMAR UMA TELEOLOGIA FICCIONAL NOS DIAS DE. Mas o mundo se levanta com seus NPCs e tudo se derruba¹. Dentro de mim tem um universo de 76k tentando se manter coerente, recalculado a cada quinze minutos.
A gente decide uns pontinhos que a gente finge entender e manipula como pode, contando uns feijões deitados no chão com as pontas dos dedos, soldadinhos, fingindo que isso é aquilo, dando nomes, falando baixinho 'Aí o Henry James falou assim 'oxi, eu não', aí o mundo cresceu e aprendeu palavrões e (...)'-
Enfim. Meus sábados são desse jeito.

¹BACHELARD, Gaston (1991), p.95

Saturday, March 20, 2010

Ths is obviosuly fake, anyone who disagrees is a complete idiot
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Eu acabei de passar uma meia hora lendo uma discussão enorme, vigorosa, pessoal e apenas marginalmente interessante que aconteceu numa das listas de email que acompanho. Umas vozes desconhecidas vindas sei lá de onde rebatendo nuances progressivamente específicos, às vezes três ou quatro emails demorando numa única controversa frase. As pessoas quase todas dotadas de alguma habilidade argumentativa, embora as idéias elas mesmas fossem meio rasas. Li antes o email mais recente e fui descascando até chegar no email que desencadeou a confusão toda, meu interesse quase só na bagunça e na briga, nos mecanismos retóricos se encaixando.

Acho que quase todo mundo faz parecido, chega sem querer na página quatorze de comentários do YouTube de um clipe da LadyGaga, ou no terceiro tópico sobre o desempenho de um jogador menor do seu time. Meu interesse geralmente cresce de acordo com a quantidade de opiniões imbecis sendo veiculadas. Dá sempre vontade, mas eu quase nunca participo. É divertido, mas me assusta. De imaginar vidas inteiras preenchidas assim, derrubando os argumentos de moleques de quatorze anos, cortando as infinitas cabeças de umas hidras proteiformes, imediatamente repostas.
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Wednesday, March 10, 2010

RESENHA DAQUELE LIVRO FRANCÊS 'LA VIE MODE D'EMPLOI'
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*imagem ruim de televisão pública francesa, entrevistador indulgente, cachimbo, paletó com cotovelo remendado*

Sobre o método do livro*, dá pra dizer que ele sempre aponta em duas direções bem distintas. Ou ele captura um momento específico no máximo de sua materialidade e especifidade, numa enumeração minuciosa dos materiais, dos móveis e tapetes e tecidos e produtos industrializados reconhecíveis - perec pioneiro nisso de usar os pequenos reconhecimentos pós-industriais de achocolatado e refrigerante e filme-de-holywood como um detalhe ficcional determinante e afetivo, que restitue e posicione uma experiência em comum - agindo como uma fotografia, sem fazer com que esse momento se distenda ou se compreenda temporalmente direito. Ou ele faz justamente o contrário, narra a vida da personagem numa série de anedotas apressadamente relatadas, como a vida de um estadista romano numa enciclopédia. Essas histórias são muitas vezes de algum potencial considerável desperdiçado, ou utilizado para algum fim inútil - eruditos reclusos, esportistas aposentados, etc. Do jeito que o livro apresenta, é a vida compreendida como um jogo. Alguém totalizando um único detalhe ou aspecto de sua vida, medindo-a toda a partir desse critério solitário, direcionando-a toda a algum fim pequeno, às vezes aleatório. O exemplo mais puro e direto disso, tomado pelo livro como microcosmo de si mesmo (ha-ho), é o de Bartlebooth, um milionário cujo projeto de vida consiste em, primeiro, gastar anos para aprender a pintar aquarelas (algo que ele não tem vocação pra fazer), para depois então viajar o mundo e pintar em diversos locais distintos uma série (oitenta? não lembro) de cenas marinhas, que ele em seguida envia para Paris, onde um artista chamado Winckler é contratado para colar as aquarelas em quadros de madeira e recortá-los em loucamente intrincados quebra-cabeças dificílimos de serem resolvidos. Depois de pintar tudo, Bartlebooth retorna. Gasta mais uns dez anos pra montar todos os quebra-cabeças, para em seguida enviá-los pros seus locais de nascimento, para que sejam descolados dos quadros de madeira e dissolvidos no mesmo lugar onde foram pintados. Sua vida e fortuna gastas numa atividade absolutamente despropositada, que resulte em exatamente nada. Isso sendo uma metáfora assim pra mundo-vida, né, e pro próprio livro. De certa forma enviesada, isso de uma clareza alegórica sobreposta em níveis concêntricos se parece com a Divina Comédia, um pouco. A modernidad's do troço sobrevem, é claro, com a falta de anagogia e com a Moral da História sendo algo como: a vida é um jogo sem sentido que devemos organizar de maneira arbitrária! (assim exclamado, mesmo). Além de ser meio auto-irônica, com esse título todo faceiro.

Narrativamente, pra mim o livro quase nunca consegue se reunir nalguma força, em detalhes realmente sentidos, nisso de alternar entre detalhamento microscópico que não se estende (e que, portanto, não se presta a consagrar nenhuma atualidade efetivamente sentida) e vidas anedotais com estrutura propositalmente simplista.


O Perec claramente quer fugir da progressão ficcional de sempre, o que em si é agradável, mas nenhum dos enquadramentos pra mim é interessante. A impressão de todos detalhes e elementos do livro como combinações aleatórias de linhas programáticas rígidas, por ex, não traz pra mim grandes profundidades, nem na configuração de uma ordem, nem num possível sentido oposto, meio safado, de dramatizar a nenhumsentidoness desse mundão. O que realmente se dramatiza é um francês doidão super simpático brincando de sopa de letrinhas, e não qualquer impressão nossa do mundo. Quando ele toma pra si umas ferramentas pouco romancescas, a coisa fica mais engraçada, das bibliografias despropositadas, de enumerações constrangidas ali de seu excesso inapropriado no meio de algo tão sério quanto um Romance Francês**. Mas o livro se concentra mais em efetivamente contar historinhas, infelizmente. E quase todas as anedotas são divertidas, e há uma organização, um direcionamento, mas tudo se realiza de um jeito pequeno. O Perec se recusa às ferramentas tradicionais de ficção bonitinha, mas quer arrancar da gente algumas das mesmas reações (esse povo inovador dificilmente sabe o que quer, sempre aprontam dessas. convenção é um bicho traiçoeiro). Mesmo a opacidade fundamental das cenas enquadradas e meticulosamente realizadas não consegue - eu não sei por quê - te meter aquela agudeza de quididade, de linda especificidade de um canto realizado e atual do mundo. Isso poderia tornar o livro muito mais estranho (num ótimo sentido), de uma realidade agudamente sentida contrastando a todo momento com a clara artificialidade do mestre-titereiro puxando tudo pra lá e pra cá. Mas nem.

RECOMENDAÇÃO FINAL:
Leia, sim, tendo essa cara em mente, imaginando a sua insuperável francesidade ao realmente escrever aquele troço. Fica mais legal.

*não a maneira regrada e oulipiana das combinações de apartamentos e personagens e materiais se darem, digo do método narrativo compreendido da maneira mais simples possível.

**O Perec tem aquilo que Butor e Robbe-Grillet não pareciam ter, de uma inventividade bem-humorada, que parece consciente com o ridículo da coisa toda. Ele nunca escreveria um La Jalousie, ou um La Modification. No máximo vinhetas de duas páginas a partir das mesmas premissas, com títulos melhores.

Tuesday, February 09, 2010

waht dr3ms may cum
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Ao invés da gente crescer com uns poucos modelos narrativos básicos, com um corpo certinho de contos populares e uma religião oficial e uma historinha nacional sacramentada, a gente tem hoje uma confusão colorida de incontáveis bagunças se copulando em incomprensíveis montagens. Isso é corrente e certo, não é nenhuma novidade. Mas toda história contada funciona como um modelo do mundo, como um microcosmo, um pequeno universo impossível que a gente sustenta com boa vontade. E essa multidão de modelos narrativos não muda as pessoas só pelos supostos valores que transmitem, mas também por suas características formais, o estilo, o jeito do mundo ser apresentado e as vozes se relacionarem. Eu percebo isso decomforça por causa dos meus sonhos*. As ferramentas e instrumentos de tudo que existe ficam tentando se combinar, sem que faça muito sentido. Tipo o elenco dos muppets e do animaniacs com superpoderes encenando um musical dirigido pelo Bergman com roteiro do John Ashberry, tudo acontencendo num mundo de perspectiva confusa com plataformas 2d, torres derruídas e monstros de pelúcia paralisados. As estruturas todas desfalecendo, como um circo desabando, os corredores vazios, as pessoas sumindo, as expectativas todas lindamente frustradas, sempre.

*gente, eu adoro eles.

Thursday, January 28, 2010

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Este é um post sobre Avatar. Para tornar a experiência mais interessante e as contribuições ao google mais ricas, vou chamar doravante o filme de Substanzbegriff und Funktionsbegriff'. (SPOILERALERT tudo).

Pra alguém que gosta de cinema e tenta, no máximo de suas capacidades, levar arte e o mundo e o universo e as obras do homem a sério, eu sou bastante complacente com filmões-entretenimento. Assisto com frequência, gosto de boa parte deles, tento ranqueá-los de acordo com seus merecimentos dentro de diversos mal ajustados critérios. Gosto de Bourne, gosto muito da Pixar. Nunca acreditei muito em Substanzbegriff und Funktionsbegriff, em nenhum sentido (dá muita fadiga o ar de PREPARE-SE....PARA...UMNOVOCONCEITODEENTRETENIMENTO!) E ainda não entendi a recepção de parte da crítica.

Ao povo mais velho que nunca jogou videogame, nunca leu quadrinhos, nunca jogou RPG, eu até consigo perdoar que achem criativo o mundo alienígena do Substanzbegriff und Funktionsbegriff. É uma das maiores pretensões estéticas possívels, acho, né, criar um mundo? E, fora umas duas coisas, nunca se levanta acima de estupidez, fica caindo toda hora, tudo feio e saído das piores ilustrações do livro dos monstros de D&D, quase tudo uma versão xxtreme de algum ser terrestre, com árvores e rinocerontes enormes, uns pássaros coloridos.

A tentativa de se compreender o filme como politicamente ousado é ainda mais estranha. Não só 'humanos malvados com armas querendo recurso natural de povo primitivo com ligação profunda com a natureza' é a premissa de uns setenta filmes, mas ainda que hoje em dia usar ambientalismos new age pouco específicos como fonte-de-valor-narrativo é a saída mais imediata e inofensiva e segura que existe, oramas (é o único defeito grande de Wall-E, por ex.). E Substanzbegriff und Funktionsbegriff faz tudo isso da maneira mais óbvia possível.


E o mais patético é que parte do povo esperto que se vê gostando do filme (Luiz Carlos Oliveira Jr e Inácio Araújo, por ex) tente defender o simplismo nulo do roteiro do filme como se não fosse clichê, não exatamente, fosse algo como uma retomada consciente e hábil de arquétipos, uma tentativa de cinema total que se estabeleça em fundamentos da narrativa. É como defender alguma comédia romântica do John Cusack citando Northrop Frye e falando que há um uso moderno dos motivos da primavera e de renovação. É claro que dá pra achar essas estruturas arquetípicas em filmões épicos - Star Wars se preenche assim quinem receita de bolo, George Lucas curtia Joseph Campbell e tudo -, mas existe um abismo entre uso consciente de arquétipo e clichê, e não há nada que Substanzbegriff und Funktionsbegriff faça que o posicione do outro lado.

O único ponto mais ou menos novo de Substanzbegriff und Funktionsbegriff (entenda-se: pra um filmão de massa, não novo assim pro cinema, né), a relação do cara com um avatar de outra espécie e sua escolha final pelo corpo artificial e mediado pra ser assumido como seu - algo que poderia de fato render cenas semi-interessantes e Cronemberguianas - é tornado absolutamente desinteressante e inofensivo pela assepsia ritualística da transformação definitiva, um povo action-figure-friendly cantando world music nauseante de idiota e tendo transes cientificamente explicados (até nisso foram bobocas!). Acaba sendo só uma confirmação triste de que o mundão consegue absorver temas interessantes (mediação, assumir um corpo não-seu) e transformá-los em nada.

Enfim. Tem umas duas cenas legais de batalha.

Saturday, January 02, 2010

Reveilão
(nem acredito que escrevi um post curto)
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As pessoas remontam para si mesmas os horizontes mais esquisitinhos, as mais improvisadas cosmogonias. Umas maquetes feitas de jornais molhados, papelão, fitas k7, umas montagens envolvendo sucesso e marketing-pessoal-transforma, fogos de artifício, tumblarity, comédias românticas, resoluções de conquistas e emagrecimentos. E o mais maluco é que esses mundinhos mal firmes e engrimponados são tão válidos quanto qualquer outro, as vidas malucas que neguinho vive neles tão sentidas quanto as mais geniais, mais deliberadamente construídas. Homens desenhados pelo Dürer interagindo com hominhos rabiscados de giz de cera, personagens do Dostoiévski casando com personagens de fan fiction do Lost. Os mundinhos contraditórios todos existindo, juntos, sobrepostos.


(e eu não quero dizer com isso, hein, que meu mundinho seja um Rembrandt, nem nada assim. O meu mundinho seria, sei lá, uma ilustração idiota aceitavelmente rankeada no DeviantArt, ou talvez uma dessas ilustrações bobocas de pixel-art)