Thursday, December 17, 2009

(encontrei isso salvo em rascunhos do meu gmail, nem lembrava da existência)
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Todo mundo se reuniu pra descobrir coisas autênticas. Num galpão, com cadeiras de plástico e sistema de som e uma mesa com salgadinhos. Tinha alguma ansiedade no ar, mas não tanta (as expectativas não eram tão fantásticas, depois das últimas decepções). O homem que deveria liderá-los, daquela vez, seria Arrigo Andrada, a última esperança verdejante. Quando alguém se destacava de alguma maneira (pegando um mosquito com as mãos, ficando debaixo d'água sem respirar por mais de um minuto, chorando por causa de um filme, compreendendo por inteiro a trama da novela), era eleito a nova esperança, alçado aos ares, casado com várias virgens e posto num terno distinto e sóbrio. Depois de experiências iluminadores e purificadoras, ele deveria nos explicar a origem de autenticidade, retraçá-la com gráficos e planilhas, para que finalmente entendêssemos onde é que ela havia se perdido nas confusões. O que se seguia era um extermínio, sensato e organizado e super competente, de tudo aquilo que pudesse entravar a autenticidade. Uma retomada legislativa de todos os códigos disponíveis para impedir que os itens agora expurgados pudessem sobreviver em quaisquer dos setores da realidade. Várias ondas subsequentes e contraditórias já se haviam seguido de explicações e tentativas de purificação, discursos e práticas proibidos e exterminados, um dilúvio que permitisse que vicejassem mais uma vez os lindos carvalhos da autenticidade (as metáforas já haviam largamente se perdido, com muita gente efetivamente achando que carvalhos reais cresceriam aqui em volta, imagine só, nesse tipo de terra, com esse tipo de tempo). Já era bem evidente para todo mundo que não se teria um fim, que o único sentido possível da nossa atividade era um alegórico, da impossibilidade da nossa empreitada, mas não é como se alguém tivesse alguma idéia melhor. Autenticidade ainda era prezada, apesar de tudo, isso ninguém discutia, e o esforço todo ainda era respeitável, com suas circunstâncias burocráticas e práticas (suas instituições e seus corredores e seus motoristas e seus sistemas de crédito e seus amigos ocultos no final do ano) que não poderiam assim ser desmanteladas de forma tão apressada. Nós já estávamos ali, afinal de contas, os processos já encaminhados, profissionais altamente capacitados, treinados até nos finais de semana, prontamente dispostos a efetivarem qualquer linha programática de otimização e planejamento que se estabelecesse. Havia, nos comitês, sempre um cego ou uma criança ou um velho negro que se levantasse dum jeito grosseiro, interrompendo os procedimentos para sugerir que talvez a própria tentativa de se estabelecer uma autenticidade derradeira possuísse em si uma premissa finalmente equivocada, que complicava qualquer de suas possíveis consequências, um até citava um poema bonito de como havia navios fadados ao fracasso desde a podridão das árvores que lhe serviram de madeira (o que eu pessoalmente achei de mau gosto), outros provando a impossibilidade lógica do que a gente tentava fazer, com diagramas e setas e latim (mas ninguém respeita essas coisas hoje em dia). Dessa vez foi quase diferente, apareceu uma moça gordinha falando de como as nossas ferramentas discursivas, redobradas sobre si mesmas, se misturavam como as ferramentas dentro de uma caixa de ferramentas, e que nós estávamos a esse ponto usando chaves de fenda para tentar desmontar um parafuso martelado por um prego. Todos nós achamos a imagem muito eloquente (e bem-humorada), e prontamente descemos Arrigo do pódio (com toda educação, ninguém aqui é bárbaro; ele ganha uma cesta de presentes oferecida pela Jonhson & Johnson) e levantamos a moça lá pra cima. Ela chorou, muito emocionada, era a primeira moça a fazer uma coisa daquelas, o que todo mundo concordou ser muito importante, muito correto. Suas primeiras medidas foram proibir comic sans e gasolina aditivada e gerundismo e oração nas escolas. Escolhas que foram recebidas pela crítica especializada como bem distribuídas e equilibradas em diversos planos diferentes de eficácia.

Monday, November 30, 2009

DESCUBRE EL VICIO DE LA HIPOCRISIA, QUE AFETAM MUCHOS EM LA DISIMULACION DE SUS MALDADES
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Uma cultura toda obcecada com demarcar autenticidade, fixá-la como uma bandeirinha. Isso aqui não é uma simulação (o que quer que simulação signifique, no caso particular)! Eu juro que não é!

Isso vai de complicadas e convolutas demarcações pessoais de gosto nos mundos indies (eu gostava disso antes de sair no comercial da Toyota, antes de se tornar popular, antes da Pitchfork, gostava quando ainda se podia gostar-de-verdade) até as bem literais e repetitivas declarações de 4realness do hip-hop. Sem falar da própria obsessão-maior do rock indie de se botar como menor, como mais vulnerável e infantilizado (i.e. mais autêntico). Como se, nos mundões atuais, todo sistema estético contivesse necessariamente todo um rol de falsidade inócua e canalha ao qual se opor, de forma definitiva, antes da brincadeira sequer começar. É uma paranóia tão sintomática e óbvia que dá até preguiça, as citações de Baudrillard que ninguém quer fazer. Até pornografia mainstream caminha em direção do mais gonzo e menos produzido, e carrega a obsessão do Money shot obrigatório no final, como quem diz Aconteceu sexo de verdade aqui!* Se até publicidade (uma das maiores responsáveis pela paranóia toda, e sempre pontual cemitério de recursos) parece querer isso.
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E aí que uma certa parte desse ímpeto ganhou articulação do David Foster Wallace, lá no famoso ensaio dele, cuja historinha pode ser grosseiramente reduzida jornalisticamente como ironia subversiva e bacana dos escritores comediantes pós-modernos é absorvida e tomada pela mídia televisiva e pela publicidade até se tornar perversa e limitadora das forças redentoras da imaginação. Alguma coisa assim. Na verdade, o argumento dele (que me parece lindo e ótimo e correto, ainda que já datado) é bem delimitado à ficção americana de tal época, mas dá pra ver que ele já vem sendo tomado como call to arms pra arte verdadeira e honesta!, como uma solução geral contra um cinismo generalizado responsável por vários tipos de ruindades. Como se essa briga ironia/autenticidade não só fosse algo novo, mas ainda definisse toda a circunstância cultural desse mundão numa cisão clara e inequívoca.

E parece óbvio o bastante que qualquer discussão de autenticidade nas artes que não se queira fadada à adolescência de um filme indie não pode se traduzir apenas na irrupção de um novo léxico fixo de intenções. Quanto tempo até se aperceberem que se dizer curtidor de uma NEW SINCERITY, ou um PÓS-IRÔNICO, que tornar claro a toda hora que você é de verdade não torna nada mais certo, não estabelece nem sequer um ponto-de-partida retórico genuíno (que tampouco seria o bastante). Que, ao contrário, a declaração de autenticidade - seja direta, seja por adesão a pressupostos estéticos - funciona retoricamente bem mais como uma inversão retórica pra quem a detecta, pra quem percebe os fios. E com toda a culpa que DFW pode vir a ter na elaboração dessa onda toda** - e por mais maluco que soe um autor assim-dito literário influenciar campos tão distantes do mundo-real, ainda me parece mais ou menos plausível -, ninguém pode culpá-lo de não antever ao menos este mais óbvio dos paradoxos. Que a vontade-de-sinceridade tornada um tropo, tornada uma imagem fixa, traz seus coices imediatos de invalidez retórica, e precisa ser incessantemente reformulada, repetidamente afirmada, até se esfumaçar em nada.

*Essas não as únicas demarcações do money shot, né, nem de longe. Mas faz parte essencial do troço.

**Muito irresponsavelmente, sem justificar, eu estabeleço essa linha assim: DFW->Dave Eggers-> Indie Rock-> Juno-> Publicidade -> Mundo. Ela não deve fazer sentido, mas na minha cabeça faz. Dá pra ver o troço se diluindo.

Wednesday, November 11, 2009

What ordre shulde be in lernynge and whiche autours shulde be fyrst redde
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A Biblioteca Central da UnB tem um andar de periódicos. Semana passada eu fui lá pela segunda vez. O lugar é inteiramente diferente dos dois outros andares, tem quase metade do espaço para leitura, não é cheio de gente estudando para concurso, de meninas com cadernos abertos e várias canetas coloridas, de gente passeando pelos corredores. É vazio e, na maior parte do tempo, realmente silencioso, com as exceções sendo bem mais exageradas, já que ninguém parece levar o lugar tão a sério (o guardinha sentado num canto, apoiado na parede, escutando rádio pelo auto-falante estourado do celular, dois homens conversando em voz doidamente alta sobre arquivos que eles precisam digitalizar, um menino gordinho feio roncando feroz entre antropologia e história).

A primeira impressão, mais óbvia e pesada, é só de um excesso, much of a muchness, multidão canhestra e constrangida de conhecimentos e discursos materialmente renderizados. Tudo ganha um rosto mais específico e menor, pontiagudo, mais delimitado de sua realidade. As três prateleiras do Korean Journal of Linnear Algebra, as revistas americanas de fotografia com comercial de seguradora atrás, Acta Metallurgica, as Tel Quels dos anos 60 e 70*, Poultry Science, Архитектурæas CCCP dos anos 70, Sports Illustrated dos anos noventa todas amassadas, rasgadas. A impressão imediata, mais acessível à imaginação, mal emprestada da Bibilioteca de Borges, dos quase-infinitos textos puramente contidos em edições de capa-dura e escura, Harvard Great Books, dá lugar a uma outra versão, mais pesada, das edições amareladas, rasgadas, dobradas sobre si mesmas, escolióticas, tantas delas claramente virgens, vozes inassistidas ali impotentes. Qualquer mito ou representação coletiva de uma única cultura, um único troço que todos nós podemos apreender (dado um mínimo potencial cognitivo), um lugar que todo mundo visita igualmente - acompanhado do, sei lá, George Steiner - torna-se muito mais engraçadinho. Não que esse ponto não esteja já feito, não seja já muitíssimo familiar, mas é outra coisa vê-lo tão ricamente ilustrado, ali na sua cara, com poros entupidos e barba por fazer, a contracapa rasgada da revista de nevrologia & psychiatria entre estantes.

Ainda dá pra simular alguns desses traços todos antigos, ainda dá pra sorrir e tentar correr um progresso historiográfico panorâmico de algo-parecido-com a cultura ocidental na sua cabeça - sentir que tá simulando um Civilization.exe** - mas você sabe que 'cultura' é também uma pilha de JOURNALS OF COMPARATIVE LITERATURE, 1997/1998, com páginas meio pregadas de desuso, de onde caem cartões amarelados solicitando, tadinha, a sua assinatura, em prateleiras empoeiradas metálicas atendidas durante décadas apenas pelo pessoal da limpeza e por calouros querendo se agarrar (e ainda assim raramente).

Quase todo mundo que eu conheço que é genuinamente interessado em alguma coisa tem que se virar com um alto grau de auto-didatismo pra formar uma visão culturamente informada do que lhe interessa. Uma empreitada pessoal e improvisada, largamente mediada pela internet. O que é difícil, trabalhoso e terroso. Artigos da Wikipédia, ensaios acidentalmente pescados, colagens inventadas, lacunas tardiamente preenchidas. Muita, muita suposição pouco verificada. Uma cultura-gambiarra***. Eu passeei uns quarenta minutos pelos corredores todos e acabei com uma pilha de uns noventa quilos de quase tudo. Media Studies antiquados, Tel Quel, Arquitetura, Fotografia, Antropologia, Linguística, Revista Cult de uns sete anos atrás . Eu me sentei no chão, apoiado num vidro que acumulava toda uma história movimentada de sujeira, projetada e estendida no chão por um sol já idiota de logo-antes do almoço. A pretensão não era de conseguir ler nada muito seriamente. Na verdade, eu nem sabia muito bem qual era a pretensão. Acostumado antes de tudo com hiperlinque e com imaginar associações feitas nuvens de tags, o que facilita imagens mais aéreas e preguiçosa, eu tinha ali uma aproximação talvez mais verdadeira de como se dão esses troços todos aí no mundo, do que são efetivamente essas tentativas todas. E no final eram esses pedaços, essas coisas caídas no colo, tudo impossivelmente querendo ser entendido. E eu só com quarenta minutos até estar atrasado pra almoçar com minha vó.



*talvez a coisa mais genuinamente legal que eu achei. Barthes e Butor e essa garotada toda. Ver um pouco do contexto deles reproduzido - as edições tão francesas e simples, o povo todo concordando consigo mesmo como pequenas caricaturas - ajuda a entender um pouco a miopia concentrada e provinciana que os franceses dessa época conseguiam ter com literatura (uma miopia concentrada frequentemente genial, é verdade). Ajuda a entender como é possível que alguém escreva coisas como Pour num nouveau roman.

**se você tiver uma imaginação tipo a minha, o que rola é uma simulação toda animada, com pequenas miniaturas pantomímicas se agitando em velocidade x32 acompanhadas de tremebundas e abaritonadas onomatopéias.

***não que uma educação aí nas ivy leagues da vida seja necessariamente toda repleta, com barrinhas ideais se preenchendo perfeitamente numa enteléquia toda linda (como os skills num jogo), mas é certamente diferente.

Wednesday, November 04, 2009

Enfim, it faut faire leur place à de mysterieux facteurs à l’ouvre dans tant de villes, les chassant vers l’ouest et condamnant leurs quartiers orientaux à la misère ou à la decadence. Simple expression, peut-être, de ce rythme cosmique qui, depui ses origins, a penetre l’humanité de la croyance inconsciente que lês sens Du mouvement solaire est positif, Le sens inverse négatif; que l’un traduit l’ordre, l’autre Le disordre. Voilá longtemps que nous n’adorons plus Le soleil et que nous avons cesse d’associer lês points cardinaux à dês qualités magiques: couleurs et vertus. Mais, si rebelle que soit devenu notre esprit euclidien à la conception qualtitative de l’espace, il ne dépend pás de nous que lês grands phénomènes astronomiques ou même météorologiques n’affectent lês régions d’um imperceptible mais indélébile coefficient; que, pour tous leus hommes, la direction est-ouest ne soit celle de l’accomplissement; et pour l’habitant dês régions tempérées de l’hémisphere boreal, que Le nord ne soit Le siège du froid et de la nuit; Le sud, celui de la chaleur et de la lumière. Rient de tout cela ne transpaît dans la conduit raisonnable de chaque individu. Mais de la vie urbaine offre um étrange contraste. Bien qu’elle represente la forme la plus complexe et la plus raffinée de la civilisation, par l’exceptionnelle concentration humaine qu’elle réalise sur um petit espace et par la durée de son cycle, elle precipite dans son creuset dês attitudes inconscientes, chacune infinitésimale mais qui, em raison du nombre d’individus qui lês manifestent au même titre et de la même manière, deviennet capables d’engendrer de grand effets. Telle la croissance dês Villes d’est em ouest et la polarisation du luxe et de la misere selon cet axé, incompréhensible si l’on ne reconnaît ce privilège – ou cette servitude – dês Villes, à la façon d’um microscope, et grâce au grossissement qui leur est propre, de faire surgir sur la lame de la conscience collective le grouillement microbien de nos ancestrales et toujours vivantes superstitions.

S’agit-il bien, d’ailleurs, de superstitions? Dans de telles predilections, je vois plutôt la marquee d’une sagesse que les peoples sauvages ont spontanément pratiquée et contre quoi la rébellion modern est la vrai folle. Ils ont souvent su gagner leur harmonie mentale aux moindres frais. Quelles usures, quelles irritations inutiles ne nous épargnerions-nous pas si nous acceptions de recconnaître les conditions réelles de notre experience humaine, et qu’il ne depend pas de nous de nous affranchir intégralement de ses cadres et de son rythme? L’espace possède ses valeurs propres, comme les sons et les parfums ont des couleurs, et les sentiments un poids. Cette quête des correspondances n’est pas un jeu de poète ou un mystifications (…); elle propose au savant le terrain le plus neuf et celui dont l’exploration peut encore lui procurer de riches découvertes.
(…)
Ce n’est donc pas de façon métaphorique qu’on a le droit de comparer – comme on l’a si souvent fait – une ville à une symphonie ou á um poème; ce sont dês objets de même nature. Plus précieuse peut-être encore, la ville se situe au confluent de la nature et de l’artifice. Congrégation d’animaux qui enferment leur histoire biologique dans sés limites et qui la modèlent em même temps de toutes leurs intentions d’êtres pensants, par sa gênese et par sa forme la ville relève simultanément de la procréation biologique, de l’évolution organique et de la création esthétique. Elle est à la fois objet de nature et sujet de culture; individu et groupe, vécue et rêvée: la chose humaine par excellence.
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claude lévi-strauss, tristes tropiques.
(eu que transcrevi, acentos devem estar todos zoados)
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Não é um trecho dos mais legais, nem tão representativo, mas foi o que eu achei de última hora. É algo recorrente no livro, isso de uns pontos vagos e amplos serem expandidos inesperadamente, zoom-out nas ossaturas escondidas e reconhecíveis, assim, DO MUNDO.
Muito legal, pra mim, tê-lo andando por Goiás, por Mato Grosso, comentando as planuras e os longes, o céu largifronte, a terra desinformada, os hominhos confusos. Ele vai divagando de um jeio fistaile muito antiguinho, muito distante e direto, já d'outra realidade. Todo homem-de-letras-francês-fazendo literatura de um jeito gravata borboleta, pouco zoão, nada recursivo. E é estranho e bonito imaginar que ele fosse o último de uma espécie, o último receptáculo de uma episteme, uma consciência hesitante entre esferas, se sentindo de alguma forma responsável por coisa que ele nem entende, um mundo perdurando aí fraco e confuso.

Ficam os filhos dos filhos dos filhos das suas estruturas, sobreouvidas confusamente, resumidas na wikipédia. Assim como suas calças jeans ousadas e revolucionárias.

Saturday, October 31, 2009

NOTA BIOGRÁFICA
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1987: Nasce, em Biguaçu (grande Florianópolis), Andreis Passarinho.

1994: Assiste, pela primeira vez, Jamaica Abaixo de Zero. Muda-se para Brasília.

1997: Primeira viagem a Caldas Novas

2006: Segunda viagem a Caldas Novas

2011: Passa em vigésimo terceiro lugar em um concurso razoavelmente concorrido do Poder Judiciário. Não passa pelo período probatório, por motivos desconhecidos.

2012: Escreve seus primeiros poemas em hipertexto

2013: Publica “O véu e o espelho: ensaios” (autopublicação)

2015: Terceira viagem a Caldas Novas.

2017: Publica “O direito de participar no trabalho da imaginação” (manifesto on-line)

2018: Cria o seu próprio artigo na Wikipédia, apagado horas depois.

2019:Publica “Identidades parciais, explorações totais: ensaios” (7letras)

2022:Convidado para participar do conselho editorial de uma edição da revista de literatura & design da Universidade de Juiz de Fora

2023: Publica o romance “O meio do avesso” (Rocco)

2026:Primeira viagem à Índia. Torna-se (por um breve período) budista.

2027: Perde o movimento de alguns dedos num acidente com a porta de um carro, ganha um tremendo processo com a Ford que lhe sustentará pelo resto de sua vida.

2028: Publica o romance “Repetição” (Editora Ecos), amplamente tido como ilegível.

2031:Publica o controverso ensaio “Pós-humanos ou pós humanos?” na hoje extinta revista on-line Pará Ex-Machina

2031: Participa do programa de entretenimento-realidade-gincana “Hn:S MX’ING”, torna-se um meme involuntário ao se assustar com alguns hologramas e bater em duas mulheres participantes. Sua fama mundial dura quase uma semana.

2032: Publica o romance satírico “Nós éramos nós”, recebido pela crítica como um dos primeiros romances a tratar de maneira crítica a internet e a pós-modernidade no Brasil, que lhe renderá a fama de ser “talvez até o novo Júlio Abreu”

2033:Ganha uma coluna semanal na revista online portuguesa Tripas

2035:Encerra sua parceira com a revista online portuguesa Tripas

2036:Publica “Brasília: a utopia estática”, com edição subsidiada pelo Governo Estadual, vira alvo de controvérsia e denúncias de improbidades.

2037: É condecorado com a ordem de Duque de Impossibilidad do Reino fictício de Redonda, pelo músico, grafiteiro virtual e chef Gastón Marías, filho de Javier Marías e neto de Julian Marías. A imprensa espanhola repercute de maneira extremamente negativa, sugere que a "amizade virtual" dos dois explique a condecoração.

2044: Publica o romance “Vidro moído”.

2046: Descobre-se que o seu romance “Vidro moído” é uma versão apenas ligeiramente modificada de “Molloy”, de Samuel Beckett. A crítica retrata seus elogios anteriores, e ele é obrigado a devolver seu prêmio Jabuti. Ele explica, em entrevista, que se tratava de uma “pegadinha literária com a idéia de autoria”.

2055:Depois de uma longa e protelada luta com uma infecção hospitalar, vem a falecer de manhã, sozinho, no Hospital de Base de Brasília. Como era dia do servidor público, uma pequena festinha dos funcionários no seu andar impede que seu falecimento seja descoberto por mais de dezesseis horas, evento estranhamente prefigurado por um de seus contos não-publicados “A sobra do resto”.

2057: Stand (com mesas e fotos) em sua homenagem na XXIII Feira do Livro do Plano Piloto

Saturday, October 17, 2009

esse conto é meio grande, ninguém precisa ler não (ainda mais do jeito que blogger deixa as coisas ruins de ler). e eu tampouco o revisei direito, acabei de acabar. mas hoje é sábado, pédecachimbo, tou aqui super jazzys do bom humor e da verdejante bem-aventurança, então toma, sentaquelávemahistória, tal. aqui não é exatamente a Partisan Review, né.

*tosse, põe fraque, diminui a luz, franze o cenho de preocupação com o peso acachapante de toda a tradição ocidental*

Barulho
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De tarde ela trabalhava, e ele não. O sol se batia em tudo no pequeno apartamento de dois quartos, progredia a iluminar todas as coisas no seu progresso, todos os livros empilhados e revistas amassadas e camisetas esparramadas, propondo diferentes sistemas de sombras na parede, ao longo da tarde. E ele se engastava de todas essas coisas, ganhava uma pequeníssima (mas presente) agonia de todas as suas posições possíveis ali, todas as suas pequenas possibilidades de organização (deitado na cama, deitado no sofá, sentado no sofá, sentado no computador, sentado no pufe, deitado no chão, debruçado na varandinha apertada). Tinha dificuldade de ficar parado, de aceitar qualquer posição como definitiva. De fora chegavam espaçados os barulhos que uma tarde de quadra traz, soltos e descompromissados, indispostos a serem explicados, crianças, porteiros, gente vendendo botijões de gás implausivelmente pesados, naquele calor todo, gente oferecendo para remendar suas cadeiras de vime. Ele pega uma guitarra (das quatro disponíveis ali), a Fender azul-bebê comprada por um preço verdadeiramente absurdo de barato num leilão na internet - recompensa de umas incontáveis tardes consecutivas gastas na procura da melhor oferta possível, da mais irresponsável e inocente oferta, de alguém que não soubesse o que estava vendendo - e começa a rodear bem lentamente a possibilidade de alguma composição, pequeníssimos começos de idéia que andam rondando sua cabeça nas últimas semanas, todas severamente inconclusas. Ele sempre que empaca em algum trecho por muito tempo acaba desviando pralguma música antiga que fica passeando pela sua cabeça, imbecil, geralmente algum sucesso antigo da sua adolescência que ele diz que só gosta em alguma compreensão enviesada, supostamente irônica. Toca Greenday, Shakira, mudando o registro e o tempo, fazendo versões em bolero, ruidosas de distorção, versões tristíssimas para músicas tolas e juvenis e fáceis. Fuma um baseado já feito que ele estranhamente não lembra de ter feito, encontrado meio amassado entre duas revistas, e lê uma tirinha de internet sobre um tiranossauro ninja, vê fotos de meninas lindas e lindamente arrumadas de Oslo, de Paris, de Barcelona. Aprova tudo nas fotos e sente vários tipos sobrepostos de carência e desejo, linhas concorrentes e confusas que culminam num ponto meio insustentável, no qual ele acha melhor fechar tudo e sair do computador (já tendo se masturbado nessa última hora). Percebe, desviando as ambiências mais concretas daquele troço pra um lado mais refletido e rarefeito, que falta ao mundo meninas bonitamente desleixadas, conscientemente desleixadas, envoltas em dobrinhas confortáveis de moletom, com cabelo genuinamente bagunçado, fumando tchose e chegando desavisada na casa dos outros, atravessando a Asa Norte a pé com um cachorro que não é seu. Minas slacker. Sabe que isso é provavelmente porque esse nosso malvado mundo não permite às minas que sejam bonitamente desleixadas, um ethos (ele não sabe se a palavra está correta) reservado e exclusivo aos homens. O mais próximo seriam minas hippies, mas aí ele não gosta. Pensa (apenas mais ou menos sério) no quanto que o mundo ganharia em elegância se estivesse disposto a seguir sua consultoria não-remunerada em diversos campos de empreendimento, sua consultoria tão iluminadas, tão disposta e desinteressada. Ele poderia coordenar tudo daqui mesmo, do sofá, do pufe, do chão, mas não, o mundo preferia insistir teimosamente em todos seus erros. Ele pensa em se levantar, tomar um banho. Seu cabelo parece sujo ao toque, e ele talvez esteja carregando um cheiro desagradável. Ele cheira suas axilas (mais verdadeiramente: ele cheira seus ombros), mas aprendeu a não confiar no próprio olfato pra esse tipo de coisa.
A sua namorada deve estar, naquele momento, lidando com alguma seriedade muito séria, no Itamaraty. Ela é uma dessas pessoas que fazem coisas, que falam com os outros, que se projetam em direção a problemas para solucioná-los, que descobrem que esse é o telefone do cara do negócio (do Itamar lá do cerimonial, por exemplo), e então anotam no caderninho que anda com ela apenas pra lembretes imediatos, e que então liga, assim, de uma vez, para o Itamar, tratando-o educadamente e simpaticamente, sem parecer falsa – provavelmente sem nem ser falsa -, e descobrem, sem que isso lhe seja dito diretamente, descobrem nas sutilezas, que o cerimonial de tal ministro não respondeu porque o ministro tá emburrado que só ele não recebeu os livros do outro ministro. Ela conta essas histórias e ele concorda adiante, não consegue entender de verdade a realidade na qual ela está metida, de ministros e cerimoniais e autoridades que nunca se alcançam diretamente ao telefone, e ele geralmente inventa versões cartunescas que sua imaginação consiga articular com mais facilidade (com cada pessoa ganhando um avatar amigável e ironicamente infantil, como o monstrinho roxo do McDonald’s ou o amigo do Popeye que come hambúrgueres toda hora). Ele ficou chocado de descobrir, por exemplo, que alguns dos prédios da Esplanada tinham anexos subterrâneos. Imagina agora toda atividade burocrática se passando em complexos assustadores e distópicos de túneis interligados, com luz fraquejante piscando, carpete verde escuro mofado, filtro d’água vazio rodeado de copos plásticos e pôsteres da Amazônia na parede (“A NOSSA FORÇA”), quadros esquecidos do Sesquiat e gente de terno transportando papéis pra todo lado em carrinhos antiquados empurrados com displicência. Ele se involuta desse jeito em reação a quase qualquer fenômeno, se encolhe e tenta desconsiderar sua realidade (ou ao menos adiá-la), remontá-lo numa versão animada, nos seus próprios termos, feita para TV. Aos nove anos ele associou essa atividade a de um tatu-bolinha - que se fecha tão rápido numa linda e íntegra bolinha, lisinha ao toque - e ainda mantém a imagem, embora meio fraca e um pouco abstrata (tendo já uns nove anos que ele não vê nenhum tatu-bolinha, embora eles permaneçam igualmente disponíveis, inutilizados, em diversos canteiros e jardins perpassados por ele quase diariamente). Empunha sua guitarra agora com renovada seriedade, e agora senta no chão, para comprovar a mudança de postura, apóia as costas no pufe quadrado e dá pequenos tapinhas nas cordas, com a ponta dos dedos, os mais sutis possíveis, quase surdos. Faz isso por dez minutos.
Ele sabe mais de música do que qualquer pessoa que ele conhece. Música popular, é verdade, e apenas americana e brasileira, é também verdade (e mais americana do que brasileira), mas mesmo assim. Desenvolve há uns meses um texto que nunca mostrou nem deve mostrar pra ninguém, já de uns cinco páginas (Uma altamente crítica e pouquíssimo deslumbrada teoria do Indie, o troço se chama, mas o título ainda é bem provisório). Ele sabe o que é que estão fazendo, sempre, em boa parte dos cantos desse mundão, e entende os motivos e as pertencenças, as origens, sabe traçar mentalmente para cada música que ouve nuvenzinhas de atribuições e influências de uma complexidade impossível de ser traduzida em qualquer mídia que ele conheça. Ele já pensou, até, em desenvolver um software que o faça, mas os planos não passaram de rabiscos emaconhados num caderno que no dia seguinte ele nem chegou perto de entender (e que insistiam em traçar vários diagramas todos parecidos com capacitadores de fluxo). Sabe decompor as influências dos poucos artistas realmente originais, compartilhar sua força de maneira intensamente sofisticada (ele gosta de pensar que entende melhor do que os próprios artistas, até, na maior parte do tempo). E inclusive sabe que sabe disso, enuncia isso pra si mesmo como parte de uma teatral recomposição de si mesmo, auto-irônica e auto-odiosa (geralmente na forma de uma entrevista madura, de final de carreira, com o Jô Soares)
Olha, Jô, acho que é o que mais me define é essa indecisão entre esses dois mundos, da tradição americana e da tradição brasileira. Eu me defino assim nessa falta de definição, entende?Como um objeto ansioso, se me permite.
Agora já meio deitado, com a guitarra ainda em seus braços e sendo bem suavemente tocada, ele tenta com os pés apanhar um isqueiro que havia caído da mesinha do computador e que quase saía do quarto. Com o corpo quase todo deposto no chão, ele percebe que consegue sentir uns pequenos tremores e vibrações no prédio, intercadências de maquinaria distante, do elevador, de eletrodomésticos dos vizinhos, do encanamento, funcionamentos vagos chegando até ele como gestos denunciadores de uma materialidade total inapreensível, daquele prédio como um corpo infinitamente complexo de concreto armado e vidro e aço sabe-se lá o que mais, um bicho rugindo. Ele desiste do que estava tentando e se deita todo no chão, percebe que consegue ouvir uma multitude absurda de coisas abafadas e distantes, um universo distante de significado. Já havia ouvido a Helena falar de como aquele pequeno espaço fechadinho entre as varandas (perto da parede ali mais próxima de sua cabeça) comunicava os sons de todos os apartamentos de cada prumada, mas nunca havia sentido aquilo de verdade, até então. Aquele ponto onde ele estava, de alguma forma, deveria ser onde culminavam aquelas reverberações todas, em tanta nitidez. Ou então - e ele entretia também essa possibilidade com igual atenção - ele estava doidão pra caralho, e aquilo não passava do ruído normal que qualquer um consegue escutar a qualquer momento, se prestar mínima atenção.
Sempre que sob a influência ele sentia essa capacidade de estender indefinidamente a importância e o peso de uma pequena sensação específica, um único dado minúsculo da realidade de alguma forma explodido e tornado total, tornado importante.
Sua guitarra estava ainda no seu peito, repousada com algum conforto, uma extensão carinhosa de si mesmo, infinitamente confortável, e ele não havia parado, durante esse tempo, de tocá-la lentamente nuns acordes espaçados e pouco coerentes, ruidosos de muita e acumulada distorção reunida de quatro pedais distintos. Mas agora ele parou, tirando o cabo, para melhor ouvir o que ele tinha para ouvir, aquele apanhado pontiagudo e disperso que ele pudesse reunir em coerência, explicar, de alguma maneira. Ele conseguia distinguir janelas sendo abertas e fechadas, com vidro correndo estridente e relutante, uma televisão (ou rádio) com canais sendo trocados toda hora por alguém indeciso, uns alarmes eventuais que poderiam ser de bem qualquer coisa, microondas, rádio-relógio, celular, uma música repetitiva que ele decidiu ser de um videogame, embora sem muito motivo, e uma vibração meio uniforme e distribuída que se interrompia e se retomava em intervalos que poderiam muito bem ser os de um elevador.
Ele demorou muito tempo para entender quais daqueles barulhos – aqueles surdos, abafados e meio uniformes que se sobrepunham a todo o resto em ritmos e intervalos próprios e aleatórios – que seriam vozes humanas.
Ele passou a se concentrar nelas, então, tentar entender o que tavam dizendo. As palavras em si pareciam bem impossíveis de serem compreendidas, mas talvez o ritmo e algo da inflexão poderiam ser intuídos, reunidos e explicados (e também o próprio processo de interpretação ele narrava pra si mesmo, com os dedos encadeados no peito, uma recursão que ele precisava frear toda hora para que não o distraísse da primeira e mais importante atividade). Entremetidos a todo o excesso, ele percebeu duas linhas constantes que pareciam compor uma conversa mais sustentada. Uma masculina e outra feminina (aparentemente, na verdade tudo que percebia era que uma era bem mais grave que a outra). Estavam exaltadas, e por isso se destacavam ao resto, na verdade, ele percebeu, elas quase gritavam em resposta uma a outra. Ele não conseguia entender o sentido possível de nada, mas os ritmos eram bem reconhecíveis, se alinhavam numa forma qualquer imediata de briga de casal (no mínimo, certamente uma briga de duas pessoas íntimas). Na verdade, naquelas vozes tão abafadas onde nem a língua portuguesa conseguia se verificar de nenhuma forma definitiva, aquilo se tomava como um modelo meio abstrato de briga-de-casal, ele percebeu, como se estivessem apenas praticando uma forma vazia, ali, preenchendo os gestos sem um conteúdo real, talvez porque praticassem. Com uma pontada de dor súbita de mau jeito na cintura, torcida pro lado ali no chão, ele veio a si por um instante, percebeu que estava há bem uns dez minutos ali ouvindo aquele troço todo, deitado no chão. Ele não estava nem de longe doido o bastante para que isso não se lhe afigurasse como exagerado.
Mas ainda conseguia ouvir as duas vozes, ainda se esbatendo incessantemente, duas linhas que resistiam uma à outra, um imitando a frase anterior do outro, ridicularizando-a, reproduzindo aqueles tons extremos, vociferados.
Ainda discorria a preocupação de que ele estaria talvez fazendo algo imbecil, indultando suas partes mais reprováveis e perdendo mais uma tarde inaudita em algo tão distante e opaco, o dia escorrendo irreversivelmente sua luz pra fora das janelas, prorrompendo em perdas, irrecuperáveis e incompreensíveis perdas, oportunidades imensas desperdiçadas, espatifadas, com uma das vozes na sua cabeça se prontificando a tentar entender o que se passava de alguma maneira um pouco mais objetiva, menos dispersa e doidona. E aí que Os vizinhos do quarto andar. Aquele casal que Helena tão frequentemente dizia esquisito, ele fortão e barrigudo, de cabelo um pouco grisalho, naquele ponto meio estranho entre uns trinta poucos e uns trinta e tantos (estranho pela maneira adolescente que o cara tinha ainda de se vestir, bermudas surfistas e camisetas esportivas, sempre) e ela um tiquinho de gente, moreninha até bonita e minúscula, meio olhuda, ele sempre andando com a mão de orangotango aranhada em volta do pescoço frágil dela, parecendo que ia quebrar, e meio que conduzindo o progresso dela, pra dentro do elevador, pra fora do elevador, pra baixo da escada. Helena ficava puta com tudo aquilo. Ele argumentava com Helena que a mulher não tinha olhos submissos e fracos, na verdade, e que às vezes ela gostava dessa imposição física e mandava no marido em todo o resto. Ele não acreditava particularmente naquela interpretação, mas era possível, e ele se sentia de alguma forma invocado a dispor um ponto contrário ao de Helena, apenas porque parecia assim mais simétrico. Mas agora ali ele começou a se preocupar com a possibilidade daquele barulho ser deles dois brigando (eram o único casal não-aposentado do prédio que não trabalhava, passavam o dia vendo TV e gritando um com o outro, passavam os fins-de-semana todos fora de casa, ele em campeonatos de Rally sobre os quais falava longamente no elevador, inclusive depois de parar no seu andar, segurando sua porta meio como se te desencorajando de sair antes de terminar a história), e começou a temer pela integridade física da mulher. E realmente não sobraria muita coisa se aquele cara decidisse bater nela, em termos de assim ossos. Uma murranca dele devia afundar tudo ali. Ele imaginou a cabeça dela cedendo como metal líquido, cavando pra dentro, o que acabou deslanchando em algumas cenas sustentadas de uma mulher-de-metal-líquido apanhando impunemente de um cara fortão e confuso, gargalhando sua invencibilidade. E como seria legal ser feito de metal líquido, como o T-1000. Mas aí de repente houve um barulho mais forte, ainda difícil de se compreender, soado de mais de uma maneira, com vários tipos de materiais se combinando, um barulho seccionado, e que silenciou as duas vozes por um instante. Ele percebeu que seria bem isso que ele ouviria, provavelmente, se o marido desse uma porrada na mulher. E uma porrada forte, mesmo, já que o barulho não se seguiu de mais gritos raivosos, ou de uma reclamação, ou de alguma espécie (mais simbólica do que qualquer coisa) de revide, ou choro. Havia sido uma porrada definitiva, de algum tipo, ele pensou. Ele possivelmente seria a única pessoa do prédio a entender aquilo. A única a deitar no chão e captar as vibrações todas. Se não estivesse prestando tanta atenção, os barulhos tão teriam se acumulado naquela narrativa que ele conseguiu compor. Mas também, ele sabia, haveria uma chance gigantesca de uns barulhos ligeiramente sugestivos terem sido interpretados doidamente. Às vezes esse último barulho soou claramente longe daqui, fora do prédio, e ele que não conseguiu perceber. E se fosse a primeira opção? Ele não poderia fugir daquilo, da realidade daquela merda, então. Aquilo estava acontecendo de verdade, naquele momento, apenas alguns andares abaixo. Tipo coisas verdadeiras verdadeiramente se combinando de maneira efetiva. Como em filmes, o personagem do marido ainda tentando enrolar suas ferramentas cognitivas em volta da realidade da situação, checando o pulso da mulher, tentando entender se haveria indícios na cena que o incriminassem, sua mão levemente machucada do soco, a quina do armário onde ela bateu a cabeça, tudo insolitamente limpo, sem nem uma gota de sangue. Ele então esperaria a madrugada para descer com o corpo da mulher enrolado em algum material improvisado, talvez cortina do chuveiro, talvez lençol, talvez um tapete, direto para a garagem, evitando as câmeras do prédio (o que não seria fácil de se fazer, como ele vivia comentando com Helena, absurdamente compondo planos fantásticos de assaltos ao prédio). Ou então fatiaria em vários pedaços e dividiria o corpo em diversos sacos plásticos de supermercado (“Alcatra”, ele diria, no elevador). Ou às vezes ela ainda estaria viva, mas o marido estivesse assustado demais, paralisado pela merda que tinha feito, pelo azar de um soquinho de nada ter resultado tão catastrófico, amaldiçoando a fragilidade absurda dela, de bonequinha (que tanto o excitava em situações bem diversas daquela). Talvez ele realmente gostasse dela, em algum nível, e estaria chorando agora copiosamente e calculando as maneiras mais fantásticas de se redimir daquilo (e, embora o marido fosse bem claramente o vilão da história, ele lembrou que era bom e correto lembrar que ele possivelmente cresceu num ambiente imbecil, circunstâncias culturais imbecis, onde tudo potencializava aquela sua masculinidade animalesca e simples, violenta, de mãos de orangotango) incluindo o suicídio imediato, correndo desde a sala até a varanda e pulando fantasticamente, com a propulsão que suas pernas absurdamente fortes deveriam proporcionar (talvez caindo até perto do estacionamento lá embaixo). Se essa opção fosse a correta, ele pensou, certamente se seguiria um barulho mais fantástico de um corpo se espatifando em algum material lá embaixo, seguido, é claro, de exclamações variadas de toda a quadra, comoções várias, articulações decompostas e ramificadas daquele impacto em várias novas vozes e registros (como uma fuga, ele pensou, mas não tinha rigorosamente nada a ver, ele também pensou). Era difícil imaginar como é que soa um corpo batendo em asfalto. Ele pensou naquele barulho comicamente amassado de coisas se espatifando como massinha, em desenho animado, algo como ploft. Ele pensou no tanto que seria incrível se isso realmente acontecesse agora e ele tivesse conseguido antecipá-lo. De como ele poderia explicar aquilo em meses e anos subseqüentes, todo Sherlock Holmes, todo retoricamente diminuindo a importância (“eu consegui entender o que tava rolando, e percebi que ele talvez agora fosse se matar, porque dava pra ver que, apesar de tudo, eles gostavam um do outro, de algum jeito maluco, o que a Helena sempre negou, mas não tive tempo de impedir nada, infelizmente”). E se qualquer daquelas coisas tivessem se passando, como que ele poderia explicar que não tomou nenhuma atitude? Que continuou deitado no chão com uma guitarra no peito e apenas uma das meias no pé, sem ainda ter almoçado, peidando repetidas vezes e julgando estudiosamente o cheiro de seus novos peido em comparação com os anteriores (um juízo que ele meio misticamente relacionava ao seu bem-estar assim espiritual) às três hora da tarde, e não tendo feito nada digno de nota naquele dia todo (embora, sendo justo, o seu dia tivesse começado apenas às onze e meia, e ele tivesse lido quase um terço do jornal e tomado suco de laranja). Que sua garganta agora pudesse ser retraçada por um matizado gosto de cigarro e Passatempo, com pedaços ainda generosos de massa de biscoito sendo resgatados com a língua de buracos entre os dentes na última meia hora. Ele tinha conseguido interpretar o negócio todo de uma maneira genial e não havia tirado nenhum proveito daquilo. Nem sequer se apresentava como possível sua intervenção, qualquer que fosse, ele nem chegava a imaginá-la de verdade. Até parece que ele desceria as escadas e bateria na porta e perguntaria se estava tudo bem. E se tivesse? E se não tivesse? Mesmo se o que tivesse ouvido fosse mais conclusivo, mais óbvio, se não tivesse doidão agora e conseguisse determinar que sim, que certamente havia acabado de escutar um marido dando uma porrada na esposa, ou (quem sabe?, sejamos inclusivos) uma esposa dando uma porrada no marido (fisicamente a coisa parecia improvável, mas há sempre um abajur, um cinzeiro, uma chave-de-fenda ou castiçal que facilitem o trabalho). Ele provavelmente continuaria aqui deitado do mesmo jeito, recebendo esses sons macios e espaçados e abafados como espasmos abstratos de um mundo impossivelmente longe, igualmente composto de concreto e vidro e tinta descascada e vazamentos e vizinhos estranhos e impostos e homem do gás e luz derramada no térreo e ônibus queimados e motoqueiros com urgências e triplos assassinatos e mobilizações da categoria e reformas da previdência, um mundo do qual ele participava apenas formalmente, sem de fato se compreender como imerso dentro de seus funcionamentos e integrante das suas estruturas de participação.
Ele pode tentar, pode tentar ainda refinar a sua interpretação, tentar uma retomada dos barulhos escondidos, uma repetição dos augúrios, das relações compreendidas. Dos ruídos que ele tenta reunir. Suas costas estão inteiras no chão, até incômodas, sua nuca duramente deposta em madeira lisa. Ele vira de lado, recolhe suas pernas, repousa o braço da guitarra no chão. Seus olhos estão fechados, ele não sabe o que fazer. Em algum momento Helena deve chegar, assoviando alguma música brega e romântica, como sempre faz (ontem Claudinho e Buchecha), chamando ele de Guto, de lindinho, perguntar o que ele fez o dia todo. Impedi um assassinato e um suicídio, ele poderia dizer, com as forças do pensamento positivo. A luz recortada da janela se alonga na parede, se estica num losango distorcido que enfraquece, quase se confunde ao cinza do resto do quarto. Ele começa a sentir a consciência fraquejando, as bordas das coisas se misturando, os limites já porosos, sabe que logo-logo vai adormecer. Ele percebe isso com alguma gratidão. Ele deveria, no mínimo, escovar os dentes. Reunir-se a esse tremendo e memorável e necessário feito de higiene e, secundariamente, até saúde, de certa forma. Não pode haver nada de imediatamente reprovável em escovar os dentes, ele acha. Nenhuma culpa se derivaria disso. Ele sente os tremores e os ruídos circundantes todos se embaçando num mesmo pulso, um mesmo excesso indistinto e distante, cinza, que cede, um gesto vago significando nada, ou bem pouco.

Saturday, October 03, 2009

O futebol de júnior baiano
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Nós nos damos o tempo inteiro com uma cultura que não conseguimos ter como nossa diretamente, que não nos diz nada (os modos de expressão mais imediatos estão tomados, cinema é tudo publicidade, etc). Por isso todas essas circunvoluções retóricas quando neguinho quer fazer arte (e com isso não quero dizer só arte maiúscula toda séria, não), todos esses redemunhos confusos. Todo mundo quer encontrar focos de autenticidade, reuni-los, de alguma forma, tentar se apoiar neles. E daí esses focos sempre bem frágeis, equilíbrios geralmente acidentais de forças retóricas grandalhonas como placas se chocando e deslizando uma contra outra, dando em posições e acomodações eventuais bem-sucedidas por motivos geralmente pouco explicáveis

(o post começava assim pra falar de música indie, mas aí eu não fiz isso)

*se exalta*

E daí que eu, pessoalmente, aqui no fundo da minha humildade e pequeneza e perna esquerda torta, de frente a essas fantasmagorias se agitando como se importassem, como se dissessem alguma coisa, me vejo envolvido mais uma vez com o Campeonato Brasileiro. Envolvido. Do tipo saber vários jogadores de times tipo Atlético Paranaense e Vitória, de me revoltar com declarações de jogadores e saber de cabeça pontuações. De ter opinião sobre o futebol de pessoas chamadas Thiago Feltri e Neto Berola e Marquinhos Paraná e Muriqui. Saber nomes de árbitros.

E torcer, ainda, o que é mais maluco. De me importar e ter meu humor alterado por causa de resultado de jogo (eu sou cruzeirense, aliás). E o tempo inteiro com algumas vozes dentro da minha cabeça repetindo o tanto que o negócio é maluco e não faz sentido, chamando a minha atenção pra arbitrariedade, os movimentos constrangidos da grandeza meio tola que tenta se articular, impossível, os fundos corporativos pequenos e feinhos por trás de tudo, com suas tentativas técnicas de maximizar as potências dramáticas e épicas (a Globo e toda sua relação involuta com as torcidas, Galvão, a super-câmera), os impulsos de masculinidade besta, a ingenuidade tremenda e insciente do povo metido ali, as facções de torcidas de um mesmo time ganhando complexidades orientemedianas, as mesas redondas se redobrando sobre si mesmas em análise de umas pequeníssimas coisas.

E ainda torcer em Brasília, onde a coisa nem faz sentido num nível imediato de identidade coletiva local, de ir pro estádio, de ver a cidade minimamente transfigurada pelo resultado da rodada anterior nas bandeiras na janela e motoqueiros uniformizados no dia seguinte. E ainda nem gostando de tirar sarro dos outros, como eu não gosto. Em Brasília a coisa tornada ainda mais abstrata, as denominações heráldicas dos times ainda mais engraçadas e longes, significando apenas a si mesmas (e olhe lá), uns nomes aí antiguinhos hipostasiados e fingidos de identidade, reunidos uns fatos e momentos cuidadosamente selecionados e devidamente protegidos da realidade, contidos com as mãos, pra consagrar uma suposta presença qualquer aí confusa.

A capacidade esquisita que o negócio tem de pretender uma totalidade, com suas infinitas esferas de importância se decorrendo de cada evento, comentadas e subcomentadas, explodindo em tópicos no orkut. E de todas as grandes narrativas aí rolando, de todas as versões do mundo, a mais absurda. Justamente o seu tamanhinho, a sua falta de jeito. E isso sem falar sobre o futebol, em si - o jogo, a coisa tática, os passes bonitos, os golos - porque eu não sei nada de futebol. Leiam o PVC e o Tostão.

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SEGUNDA PARTE DO POST, QUE É DIFERENTE MAS QUE TEM UM POUCO A VER

Ao se acostumar com comentaristas de youtube, com yahoo!respostas, com Barbara Johnson propondo um tríptico de leituras composto de Poe, da leitura do Lacan de Poe e da leitura do Derrida da leitura do Lacan de Poe, com Mezzanine, com todos esses excessos fumosos, uma parte minha vai se afeiçoando a uma impressão de que qualquer coisa no mundo - qualquer item destacável da realidade - pode se desenrolar em infinitas recursões, tudo pode se redobrar infinitamente sobre si mesmo em linhas discursivas progressivamente complicadas.
Como se toda coisinha (todo jogo do Goiás, música do Djavan) se pretendesse, assim meio sem querer, absoluta. Falhando miseravalmente, em seguida, é claro, toda bonitinha.
Nada parece muito negligenciável, tudo parece da maior importância, participando de esferas tipo concêntricas de masseza. O negócio quase ficaria místico, se eu soubesse me explicar. A gente poderia escolher um único item e lhe dedicar o resto da vida, estudando, anotando, revisando, sem chegar a nenhum fim. Um episódio de Sai de Baixo, um andar do Mercure Apartments de Osasco, um mamilo da Taís Araújo.

Wednesday, September 02, 2009


UMA COMPILAÇÃO BREVE DE PALAVRAS CHAVE QUE RECENTEMENTE TROUXERAM PESSOAS A ESSE BLOG, ADICIONADA DE COMENTÁRIOS
Um post direto de 2002

-que é quando a gente perde que as coisas se mostram com algum sentido, e a gente se constrói então
O único problema do ritmo meio confuso da frase (doutra forma lindo) é a dificuldade de se situar o escritor retoricamente, de entender se ele acredita exatamente no que está dizendo - e procura aliados e citações do Confúcio - ou se está no meio do processo de tentar convencer a si mesmo, e buscando a mundipotente presença do Google para encontrar reforço. Se for o segundo caso, é bem triste que ela tenha encontrado esse blog aqui, tão bobão e insuficiente, assim como um textinho sobre “Linguagem e verdade em Autran Dourado” e um outro chamado “O amor se constrói e dói construir o amor”. O cara todo tentando que o mundo mostre algum sentido, e o Google todo cínico, todo robozão burro, entregando pedras para que ele mastigue.

-se a pessoa ouve abrulho através de movimentos de moveis q se mexem por causa da presença de um espírito oq quer dizer
Ora mas se você já disse que é um espírito.

-como matar passarinhos
Dá pra entender melhor quem queira matar um passarinho pelo exercício de uma técnica, duma arapuca, duma espingarda de bolinha, tal. É bem mais doido alguém que esteja tipo diretamente interessado na morte de passarinhos, em si, com a técnica sendo um acidente.

-adjetivos engraçados
Este é o mais popular. Chegam aqui aos baldes querendo adjetivo engraçados
Bojudo é um, eu acho.

-como eu ponho a linguagem no jogo age of empires
Esse é tão lindo. A linguagem já está no jogo, Guilherme (posso te chamar de Guilherme?), de tantas maneiras diferentes, em tantos níveis! As linguagens de código doidamente complexas que carregam tudo adiante por baixo da interface, a linguagem pictórica tão elementar e básica de hominhos civilizando uma terra randômica, cortando lenha e construindo casas, a jogabilidade intuitiva que nos direciona a rapidamente se adequar às propriedades do jogo, etc. O subtexto não-intencionado de que empreender civilização significa dominar território e matar os cavalos alheios e roubar as ovelhas e as minas de ouro, etc. Mas você provavelmente quer dizer aquela caixinha de comando de texto. É apertando enter, eu acho.

-vijogueime
De novo, é quase impossível penetrar na circunstância de alguém que se depare com o Google e demande algo tão simples. O que ele esperava, exatamente? Minha conjetura favorita é de um moleque impossivelmente novo (tipo, sei lá, dezoito meses) que se contente com a mera força taumatúrgica da ferramenta de pesquisa, com as ocorrências pressurosas avalanchando aos milhões, tão imprecisas, com fotos de baixa resolução do console de PS3, do Wii, e que já fique contente com isso, com essa invocação (meu irmão de quatro anos tem algo parecido com fotos de animais e tratores).

-furta-cebolas
Sim.

-Quem escreveu mundo dos pseudoeventos.
Ah. Somos nós quem escrevemos esse mundo, meu rapaz. Todos os dias.


É legal se ver como de alguma forma participando dessas pesquisas todas, de alguma forma metido junto deles dentro de um mesmo corpo amorfo e desengonçado de articulações pouco intencionais, de alguma forma responsável por elas, também. Conjunções muito específicas as quais eu não entendo me ligaram a essas pesquisas todas, só resta concordar e juntar os dedos e tentar divinar a sabedoria maior de deus Google, né, que tudo aponta.

E ainda (bonus tracks):
macacos brigando ate a morte
orelhas pequenas quase infantis
como arranjar um homosecsual

Wednesday, August 05, 2009

como ninguém me dá o que fazer no trabalho, eu lhes ofereço outro post enorme, vlw
LIT BR CONT
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1
Num artigo que eu li uns meses atrás, um bróder chamado José Castello falava de como literatura brasileira contemporânea teria agora uma tendência de reinventar a realidade, e não mais apenas se postar como imitadora banal e obediente, automática (como se fosse possível imitar automaticamente a realidade, como se houvesse um discurso claro disponível a se obedecer), fundar suas ficções com princípios tortos e deliberadamente estranhos, turvos, complicadinhos.
Afora a banalidade maior dessa constatação, da tão pequena tentativa de tentar pegar emprestado uma tendência óbvia e mundial e já velha e tentar dar uma cara ousada e maisoumenos fixa a algo tão informe e despegado de cor como a nossa literatura, a coisa se torna particularmente imprópria quando o cara tenta botar no meio o Cristovão Tezza e o seu filho eterno.
Esse livro, pra quem não sabe, é um romance que fez um sucesso do caramba ano passado, história de um pai tentando lidar com o fato do seu primeiro filho ter síndrome de down, estilão realista tradicional com discurso indireto livre competente e acima da média. O suposto encaixe do Castello estaria no fato do livro de Tezza ter se desenvolvido a partir da tão-ousada decisão do escritor de, não só fundamentá-lo diretamente na sua experiência (já que o autor viveu justamente a história do livro), mas de ainda botar um filtro entre ele e o personagem, e torná-lo um tremendo babaca bestinham que despreza o filho com síndrome de down durante a maior parte do tempo, chegando a desejar sua morte, e tudo mais. A complexidade, segundo o Castello, se encontraria em algum lugar por aí (ele não faz muito mais além de gesticular vagamente). Na tão moderna confusão entre o fictício e o real, é o meu chute. Ele não é o único a achar isso. É impressionante como se insiste em enxergar esse pulinho do Tezza como algo corajoso pra caramba, mesmo depois da recepção tremendamente entusiasmada e rara que o livro ganhou, de quase unânime. Com os prêmios todos, com pilhas de resenhas elogiosas, num lugar tão distraído como esse, deveria de se tornar óbvio que o livro – suas qualidades quais sejam – é uma satisfação bem imediata das expectativas estéticas d’hoje em dia, do gosto desse povo que resenha literatura. Devia se tornar claro que ele não é uma quebra de porra nenhuma.
Pelo que me parece, a dificuldade do Tezza estava em cumprir um ato significativo que não se esbatesse contra uma breguice incontornável de livro de auto-ajuda, com mensagem óbvia Foi Difícil Mas Aprendi A Amar Meu Filho Deficiente Do Jeito Que Ele É E todos Crescemos No Processo. Sem dúvida que isso seria difícil, que seria quase impossível. A solução dele, então, foi extrair qualquer possibilidade de moralismo ou sentimentalismo óbvio, não só compondo o livro a partir de um filho-da-puta como evitando qualquer moralização maior por parte da narrativa (porque nós estamos, é bem claro, muito acima disso tudo), evitando inclusive a segunda opção técnica óbvia: se distanciar mui sutilmente do personagem para criar aquela ironia fácil que o povo tanto adora por aqui, de que o Chico Buarque claramente se serve no Leite Derramado (que eu só folheei). O que ele põe no lugar não é de nenhuma ousadia moral, sofisticada e assustadora, ou de qualquer complicação que possa te perturbar de qualquer maneira. A miopia do autor não chega tão longe. É apenas rasteiro, é apenas uma operação de sinais trocados, de uma neutralidade moral tão simples e covarde quanto a moralidade óbvia e automática de um romance tolo do século XIV, uma resposta automática e igualmente ingênua na sua compreensão de que está, de alguma forma, sendo fiel à complexidade de qualquer versão coerente da realidade.
Isso porque o livro não é opaco, não é que as coisas se passem sem valorização nenhuma, nouveau-roman-like. Isso fica bem claro quando o livro apresenta os frequentes arroubos do personagem diante da opressora falta de sentido da vida. Tecnicamente, o livro se demonstra nesses momentos bem convencional (o que não é um problema), bem direto na sua enunciação retórica. O tom amargo e repetitivo do personagem, de conclusões óbvias, medíocres e inexpressivas, desimportantes, se coloca tão diretamente e tantas vezes que o autor acaba descendo e sujando as mãos, mostrando a cara um pouco e dando tchauzinho. Torna ainda mais evidente que as pinças cagonas com as quais ele trata o seu personagem e a complexidade (real) do seu problema não constituem uma técnica formal sofisticada, mas sim a falta de qualquer visão profunda sobre temas um pouco mais complicados, e o medo de se aventurar por terreno (esteticamente) pedregoso.
Não seria justo esperar de Tezza que ele nos entregasse uma solução moral perfeita e esteticamente agradável de um tema tão complicado, mas tampouco me parece satisfatório aplaudir tão efusivamente o que não passa, no final das contas, de uma realização técnica mínima, que se mantém rente ao chão, de nenhuma coragem ou originalidade expressiva.
E, tocando no tal do José Castello, o que não dá – não dá mesmo – é dizer que qualquer coisa tecnicamente sofisticada esteja se operando aqui, que Tezza tenha se distanciado da realidade para fundar seu próprio mundo de agudeza de significado, de turvamento retórico, um parque colorido de recursões autor-personagem do tipo que o Roth mantém. De fato, não há nada nesse livro que não seja claríssimo, imediatamente apreensível. O seu tom, sua técnica, sua escolha vocabular, suas situações, suas conclusões. Ele é todo pequeno*.
Sim, síndrome de Down é um tema cercado de dificuldades estéticas, minado de clichês. Mas a solução não está – não pode estar – em fingir então que o tema não tem nenhuma importância, em tratá-lo da maneira mais rasteira possível, onde absolutamente nada se arrisca. Os resenhistas parecem se divertir justamente com isso, Estamos evitando tomar julgamentos morais!, estamos contornando posições politicamente corretas e prontas!, isso deve ser grande literatura! Não é.
Os leitores parecem bastante animados com essa via negativa, com esse medo cagão de clichê, além da mera possibilidade de sentirem alguma coisa (que a técnica do Tezza possibilita). Mas o que estamos sentindo é só pena. Do autor.

*O que não é necessariamente um problema. Grandíssima arte já se fez com tudo pequeno (Chekov, Carver). Mas o pequeno do Tezza se quer grande, se quer Coetzee, quer que a raivinha meio existencial meio burguesa meio medíocre do seu personagem tenha a força de Disgrace. Aí não dá.


2
Mãos de Cavalo é bacana, sim. Comprem para os seus amigos, seus primos, seus tios, suas namoradas.

3
Muito divertido, isso aqui. Os sinais estão corretos e bonitinhos, fluidos e naturais, os pontos de referência (maiores e menores) estão todos firmes, o ímpeto é certo, dever de casa feito. A organização engraçadinha funciona em vários sentidos, ultrapassa o imediatamente gimmicky, e, curioso, dá numa leitura não-linear bem mais fluida do que uma impressa daria, e mais divertida, menos aparatosa.
O truque é simples, até intuitivo, mas a graça é justamente essa. A naturalidade com que a coisa se organiza na nossa cabeça, usando de maneira nova de umas ferramentas que a gente já tem, lá, prontinhas na nossa cabeça. Boas sacações formais funcionam assim.
É verdade, também, que os eventos todos se repassam um pouco de desculpa pra brincadeirinha formal, sem aparecer aquela – me desculpem – LIBERDADE PLÁSTICA, aquela – me desculpem de novo – NEGOCIAÇÃO COM A CONTINGÊNCIA, é verdade que o tom irônico não precisava diminuir quase todos os personagens da mesma maneira facinha. Mas tou sendo chato, não dá pedir tudo de uma vez, também.

Wednesday, July 29, 2009

Um intervalo auto-indulgente
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Eu juro que não gosto de ser chato, e deus sabe que eu costumo engolir seco os tão freqüentes impulsos (no mínimo diários) de OHMEUDEUS, Someone is wrong on the internet! Mas meu trabalho tá chato e o dia não passa e, olha, hoje vou ME PERMITIR (tipo uma mulher mãe dona de casa executiva comprando um Sundae no Drive-Thru e comendo em três garfadas, ainda no estacionamento).

Tem pelo menos duas coisas erradas com isso aqui.
Primeiro:
Existe já um discurso prontinho, reanimado frequentemente, de que Essas coisas moderna aí são tudo besta, o que importa mesmo é a beleza. Isso costuma significar muito pouco, ou quase nada, e nesse caso não é diferente. Até dá pra conferir algum tipo de validade pro argumento as-modernidades-precisam-sossegar-um-pouco-de-tanta-bagunça, embora ele dificilmente seja de interesse para qualquer um, e seja igualmente articulado por críticos medíocres e a novela das sete, o que não dá pra entender é a parte O que importa é a beleza. Certo. Não dá pra entender se com isso se quer dizer que arte moderna não conseguiu produzir nada de bonito, ou que ela nem sequer está tentando. As duas alternativas são tolas. Ninguém é obrigado a concordar com as premissas engraçadinhas da arte contemporânea, nem da música, nem da literatura, mas achar que existe algum sentido real em simplesmente dizer Mas gente, o que aconteceu com a beleza??? é de uma ingenuidade constrangedora.

Segundo (mais grave):
O autor desqualifica a crítica de o vídeo ser uma propaganda de uma multinacional, tratando o argumento como papo de intelectual. Pelo tom do texto, dá pra supor que ele vê essa crítica como uma imposição meio abstrata, meio teórica, algo que as pessoas se sentem artificialmente na obrigação de sustentar - por estarem imersos num discurso acadêmico, talvez – contra algo que é, assim, simplesmente bonito, e que portanto estaria acima dessas críticas.

O que ele não parece antecipar é o a possibilidade do status publicitário de alguma obra necessariamente atingir qualquer força estética que ela possa ter. Sendo bem didático: publicidade quer alguma coisa de você, quer te vender alguma coisa. Isso compromete qualquer definição sustentável de arte, e compromete a nossa relação direta com boa parte das ferramentas estéticas disponíveis. E, sim, existe algo de particularmente perverso na veiculação casual de publicidade, como é o caso dos virais. Vídeos despretensioso de internet são, afinal de contas, uma produção cultural popular genuína, de um alcance considerável e um impacto até bacana. Pode não ser exatamente Brakhage, mas é um canal verdadeiro de interação, com gente tentando se expressar, e tudo mais. O fato de a publicidade tentar tomar esse mundo pra si torna muito mais difícil que a gente confie neles, torna mais difícil que eles consigam transmitir qualquer coisa*.

Não sou nenhum resmungão do tipo do Gaddis, do Adorno, esse confusão aí *gesticula amplamente* é a minha casa, e eu vivo feliz nela. Já estou um tanto acostumado com o espaço que publicidade ganha como força cultural (prêmio em Cannes, imprensa cultural tratando tudo nos mesmos termos, tudo criatividade, Washington Olivetto na capa da Cult), mas é meio deprimente ver partilhar desse tipo tolo de cegueira a revista que tão altivamente tenta se colocar como contrária à mediocridade nacional, à banalização da cultura. Então tá, então. Depois não me venha falar dos outros.

*Exemplo pessoal e pouco representativo: tem um poema lindo do Frost, dos meus favoritos, que termina Here are your Waters and your watering place / Drink, and be whole again beyond confusion . Quando eu li isso pela primeira vez, me veio à mente um comercial de água, essa frase escrita em comic sans numa garrafa da Evian. Eu sei que isso é muito da minha cabecinha escrota, mas existe um sentido aqui. Ela estava acionando um reflexo condicionado, ela tava tentando, tadinha, não ser enganada.

(e ainda tem o fato do vídeo ser, ele mesmo, propaganda ou não, bem bestinha, bem pouco original, mas isso nem tem graça dizer)

Thursday, July 23, 2009

Notes on awesome (um post horrivelmente grande)
Though I am speaking about sensibility only -- and about a sensibility that, among other things, converts the serious into the frivolous -- these are grave matters.
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Eu tenho até um carinho considerável por toda a cultura de awesomeness (que eu traduzo, meio idioletamente, como cabulosidade), mas me incomoda um pouco a valorização que anda se dando, a confiança deposta nos seus ombros, achando-se que o buraco não tem fundo e a força do negócio pode ir se auto-afetando indefinidamente, cheio das implosões bulbosas, dos Zumbis caubóis e tiranossauros ninjas e piratas chtulhu dirigindo suas motos e seus dirigíveis até o infinito, os termos negociados numa pequena e confusa retomada.

A coisa vai progressivamente ganhando seus carimbos de reconhecimento e legitimidade, vai se consolidando e endurecendo. É um progresso sempre contrito e contraditório para uma sensiblidade, um troço tão fugidio, que progressivamente perde um pouco da sua graça frágil ao ganhar contornos oficiais e se estabelecer melhor.

Dá pra ver um dos lados da coisa progredindo de um jeito bem simples, e feio, no caso do Duro de Matar.

*ahem*

O primeiro filme – talvez até o segundo* - tem uma relação ingênua e direta com seus termos heróicos de masseza absurda, a ligeira subversão de convenções se deve muito ao carisma meio acidental do Bruce Willis.

O filme veio na esteira de um milhão de filmes do tipo, de policiais durões que não seguem as regras e improvavelmente salvam o dia, ao mesmo tempo afirmando e contestando a autoridade das instituições, e tudo mais. Mas ele foi o único filme que manteve uma graça confusamente irônica, do Bruce Willis realizar seus atos implausíveis com uma aparente consciência de cantinho de boca do tanto que estava sendo absurdo e improvável. É um marco do que viria a ser esse tipo de sensibilidade, mas a aparência é de um processo bem acidental e natural, até quase inocente.

Mas aí vem temos o Duro de Matar 4, tão recente, já mil anos depois, com seus produtores e roteiristas presumivelmente crescidos com a assimilação dos primeiros filmes, com tipo sessões bêbadas de VHS do filme em dormitório de faculdade, já processada a aura cultural, a pala já sustentada e coerente, e reproduzida aqui de um jeito não tanto espontâneo e engraçado quanto calculado e frio, e triste. Todo mundo entende, nesse último filme, que o que se passa é ridículo (John Mclane derrubando um caça nas mãos, atirando através de si mesmo para atingir o malvadão, etc), e, perversamente, já se arquiteta o filme com essa retomada, essa segunda qualidade subjacente à qualidade mais imediata. É meio que um motivo já fixo dos tempos: alguma apropriação divertida e razoavelmente genuína de algum item de cultura popular é retomada artificialmente pela própria indústria, com aquele cheirinho de publicitário. Como quando os produtores perceberam a piada que se fazia em torno de Snakes on a Plane e tentaram forçá-la adiante, chamando o Samuel L Jackson (talvez o maior talismã nerd hoje em dia, e embaixador de awesomeness auto-consciente, conseguindo ser ao mesmo tempo um jedi, protagonista do Tarantino, Nick Fury e vilão do Spirit) e ridicularizando o troço. Não funciona. Seria o equivalente a um novo filme do Chuck Norris onde seus recém-adquiridos atributos cabulosos fossem devidamente aplicados, e ele constituísse uma paródia genuína de si mesmo. Os fãs iriam animadões pro cinema e não entenderiam o porquê de tanto desapontamento, da graça se gastando em alguns minutos, a auto-afeção tremenda morrendo ali quando oficial, quando institucionalizada.

Isso de se apreciar justo o ridículo e o improvável dos filmes simplistas e formulaicos de ação não é uma complicação crítica genuína, é só uma autoconsciência formal. É o que acontece depois de décadas de um gênero tão apressadamente reproduzido e pesadamente consumido, são os consumidores se acostumando quase mecanicamente ao reconhecimento dos tropos, e passando – faltando qualquer outro estímulo significativo - a apreciar justamente essa auto-consciência. Hipertrofia, tipo, uma previsível, triste e recorrente em quase todo canto. Não é como se esse suposto espírito crítico quisesse no lugar um realismo decente, que desse conta de alguma versão coerente da realidade. Apenas se quer que as convenções sejam reformuladas de maneira esperta, que dê conta de uma mais potente capacidade de apreender reversões e sacadas narrativas (por exemplo: Bourne). Mas ainda tudo se passa sempre no mesmo nível.

Daí que a curtição de awesomeness parece se contentar com a afirmação - irônica, né? (eu sei, também tou cansado) – dessas convenções meio ridículas de importância e grandeza épica, parece se contentar com uma confirmação delas, e com um certo carinho que se adquire pela sua artificialidade formal e estilizada, pela satisfação tão pequena e previsível das convenções imbecis.

*o 3 não conta muito, porque, que nem que Super Mario 3, é um caso muito evidente de imposição de uma franquia numa estrutura alheia, com uns esforços mínimos pra que a coisa faça algum sentido.

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Sunday, June 14, 2009

He is fertile as reality itself in arresting incronguities
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Todo romance do Bellow parece ter a tão bonita tarefa alquimística de tentar salvar a opacidade das rudes aparências, reconhecê-las em alguma forma significativa confusa. E isso sem nenhuma das soluções habituais, nenhuma geringonça formal de redenção e explicação, buracos de encaixe evidente, ironias oniscientes, sem complicações retóricas que toldem as águas, para que pareçam mais profundas do que são. Sempre um narrador de primeira pessoa de quase nenhuma distância do autor, olhando pra gente nos olhos, (quase) todos os níveis diretamente enunciados. Tentando cumprir um ato significativo a partir de uma dolorosamente verossimilhante realidade, que esperneia de impurezas, que não quer significar nada de tão extraordinário assim, não. Coleridge falou que arte devia nos livrar das ‘disturbing forces of accident’. Bellow colocava seus hominhos agitados atentamente recolhendo tudo, tudo, todos os pontiagudos acidentes irredimidos, que eles se intregrassem e se consagrassem pela sua força expressiva até algo além deles mesmos. O que, claro, nunca se operava de verdade. Mas a tentativa escancarada deixa seus mundos povoados de uma dificuldade e de uma gratidão. Eu gosto tanto dele.
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Música
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Veckatimest muito bacana, como tanta gente irá te dizer. E também, e mais ainda, o Bitte Orca. É engraçado que desde Radiohead nenhuma banda realmente legal faz mais o caminho do mais-acessível pro ruidoso-e-doidinho. Agora é o contrário, você começa fazendo barulho auto-indulgente e arrastado e progride a coisas mais acessíveis e, curiosamente, bem melhores. Música pop tem aptidão presse meio termo, mesmo, parece. Animal Collective, Grizzly Bear, Broken Social Scene, e agora Dirty Projectors. Alguém mais esperto me diga o que isso significa, se alguma coisa.
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Design
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Eu não gosto de design.
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Friday, May 22, 2009

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Eu agora estou também aqui, todo multimídia e agitadinho.

Friday, May 15, 2009

Santiago, ou
OH THESE MASTER TROPES OF OUR TIMES! (gritado pelo Will Ferrell)
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(isso aqui é tipo um rascunho de um texto mais organizado que não escreverei, vlw, basicamente porque não vale o esforço)

(JMS é João Moreira Salles)
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Nos anos 60, um cara chamado Joseph Mitchell escreveu na New Yorker o perfil de um boêmio mendigo do Village, Joe Gould, um excêntrico local que era famoso, entre outras coisas, por uma empreitada absurda de escrever uma história oral dos Estados Unidos, uma obra de pretensões Gibbonianas que já teria milhares de página, na época da reportagem.

No meio do perfil, que é bem longo, Mitchell abandona o tom jornalístico mais objetivo para trazer candidamente uma equivalência bem bonitinha entre ele e o objeto do seu relato, uma volta meio inesperada e trazida bem honestamente, sem grandes volteios retóricos ou estilísticos. O texto é tido como um clássico jornalístico, um exemplo de como dá de se fazer Arte a partir do jornalismo. Quando eu li, pensei imediatamente em Santiago, ainda mais sabendo a importância que o JMS dá para o jornalismo literário (que ele, burramente, tem como tão importante quanto a ficção, pra segunda metade do século XX, sóseforhein).

Santiago também tem um autor que traça equivalências pessoais com o seu objeto documentado, tentando formar (ou encontrar) um discurso em comum, um tema meio pronto ali entre os dois. Mas essa equivalência temática dos dois acaba evidenciando o tanto que o tratamento do JMS é um tanto mais sofisticado do que o do Mitchell, né, o tanto que os pressupostos estéticos atuais resultam numa obra bem completamente diferente. O que não é acidental, e acaba por ser eloqüente sobre um bando de coisa (que tentarei explicar).

Santiago é todo complicadinho, todo repleto de camadas e temas diretamente enunciados, quase didaticamente dispostos. O que é engraçado, e que torna o filme distinto, pra mim, é que os temas sejam todos literários. Não só tradicionalmente literários, mas que estejam mesmo dispostos de maneira literária (isso não deve ser tão raro quanto me parece, com os Chris Marker aí e tudo, filmes-ensaios, mas pra mim é curioso). São poucos os recursos do filme que dependem exclusivamente de linguagem cinematográfica (o que quer que isso seja).

Mas seu eu tivesse que escolher um tema central, por mais chatas que sejam essas tentativas, seria a da terrível dificuldade que espreita por trás de qualquer produção de sentido, um certo constrangimento final (tou numa fase de itálicos). Um constrangimento que compreenderia tudo. De todos os vários tropos e recursos e elementos temáticos da obra, eu reconheço esse fio em comum, esse padrão onde tudo se enreda. Isso está na própria figura (quase trágica) do Santiago, ao tentar se colocar como o personagem do documentário que o JMS-de-93 quer fazer, isso está na sua gigantesca e caseira e inútil empreitada de se capturar e listar a nobreza mundial*(que se equivale maisoumenos ao espírito falho e bonito da empreitada também canhestra e excêntrica do Joe Gould), isso está no lirismo-de-memória do filme**, enviesado e típico, de desconfiança amarga-e-doce dos nossas tão-suspeitas faculdades de produção de sentido , etc. Tá em tudo.

Talvez a principal maneira desse fio em comum se manifestar no filme esteja na sua recursividade metaficcional, que é o seu recurso mais imediatamente notável (e mais imediatamente notado, em resenhas e tal). O filme, principalmente ao tratar direto do primeiro corte do documentário, de 93, fala toda hora dos seus movimentos formais, das premissas retóricas de algumas das convenções que ele abandona, além de um certo constrangimento estético e retórico (e finalmente moral) que existe nas tentativas óbvias e ingênuas do primeiro corte.

De se tentar firmar o Santiago como um personagem numa narrativa prontinha e artificiosa, superficial***. O que está em ação aqui, é bom notar, é um tropo já assente, já familiar, do artista candidamente desvelando-se em honestidades, descascando as premissas formais da sua arte para atingir uma suposta autenticidade final, um apuramento infinitamente confiável.

Isso é tão rotineiro que até publicidade (que é como um deserto pra onde recursos e imagens artísticas vão quando morrem) faz. Po-mos americanos já tentaram fazer o que seria o passo lógico seguinte, submetendo a própria prática metafficonal à mesma tentativa de desvelar seus mecanismos e tentar atingir uma autenticidade retórica final. É evidente que o negócio espirala involutamente num progresso engastado, sem nenhum fim previsível. Há sempre um mecanismo retórico a ser revelado e exposto em honestidade (‘eu estou te falando dos mecanismos da ficção pra você confiar em mim, e admitindo isso para que confie mais ainda, etc’). Barthelme tá cheio disso, mas a tentativa mais exagerada que eu conheço nesse sentido é Octet, do DFW (cujo sucesso é bem discutível). É difícil imaginar uma tentativa séria ainda mais extremada do que aquela, acaba funcionando meio como um Ok, já deu, bora desligar a luzinha dos nosso chapéu de minerador e voltar pra superfície.

E no entanto o negócio funciona em Santiago, eu digo. O filme realmente consegue usar de todas essas ferramentas literárias, já meio cansadas, para trazer uma autenticidade pro seu discurso, para se tingir de uma autoridade retórica que não se costuma conferir a muita coisa hoje em dia (além do Obama, a-yo!). E é curioso que funcione, com o filme se apresentando tão imediato de temas relevantes, de recursos familiares, de um clima Senta-que-lá-vem-uma-arte, piano-feeling, p&b. Eu confesso que a minha reação inicial, meio martelinho-no-joelho, foi de desconfiar, de achar tudo muito encaixadinho, como um pássaro mecânico que tenta demais, ou uma cebola de infinitas camadas descascáveis****. Mas o filme me ganhou, de verdade, de com força, talvez principalmente pelo carisma do Santiago, que é um grande dum bróder, e que parece pronto a sair significando adiante em qualquer romance do século XX.

E talvez esses engenhos literários meio artificiosos todos ganhem legitimidade no filme justamente por ser um documentário, e não um trabalho de ficção. Ficção que se meta a recursos formais ou temáticos muito vistosos e evidentes corre sempre o risco de perder parte de sua força, de nos deixar suspeitos quanto a importância ficcional da realidade que se mostra e se constrói, derrubando a suspensão de descrença à procura das intenções por trás das cortinas. A realidade dos eventos de Santiago não deixam que isso jamais aconteça. Apesar do rastro tão pesado dos recursos e temas, nada jamais se diminui.



*Também esse parece, curiosamente, um elemento literário, embora seja, é claro , algo real. e não trazido pelo JMS. Há muito tempo que se considera especificamente o constrangimento da lista enquanto produtora de sentido. Há o exemplo divertidão de Borges, da enciclopédia chinesa, que Foucault cita e que é, por sua vez, citado pelo Gass (risos). Mas o filme foi bem esperto em se centrar naquilo que só um filme poderia trazer, trazendo o constrangimento material da lista, sua tipografia tosca, suas fitinhas fiapadas. É lindão.


**Que seria, segundo não-lembro-quem-mas-juro-que-existe, o principal tema da literatura no século passado. Eu pessoalmente sou meio engastado com ele, com Sebald e parte da galera, leio sempre com reticências automáticas (“Minha memória me trai” -> “Minha memória me trai...”), mas isso é provavelmente bobajada de quem não leu Proust direito.

***Pode-se dizer que o filme faça a mesma coisa no corte atual, só que de uma maneira mais sofisticada. É estranho que o JMS não pareça admitir isso.

***mal aew.