Wednesday, December 17, 2008

Não me parece aceitável que macacos morram todos os dias, e de maneiras evitáveis
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Entre um pastelzinho de Trás-do-Monte e um último gole no café frio que não se deixaria desperdiçar, ele decidiu pelo primeiro, e o engoliu todo de uma vez deixando apenas uma das três pontinhas se pronunciando pra fora do buraco feito redondo da sua boca, e continuou a ler LA PARTICIPACION EM ST THOMAS DE AQUINAS, de um autor cujo nome ele nem lembrava tão bem, e a considerar seriamente cada frase com mãos pensas que se abraçavam e formavam um arco que encimava seu nariz e o fornecia algo parecido com uma moldura incompleta. Do seu lado também estavam os poemas de Robert Browning e os discursos de Rui Barbosa e uma versão fac-símile em catalão de Tirant Lo Blanc (emprestada) e contos chineses coletados em uma versão reconhecidamente antiquada e preconceituosa (que portanto deveria ser lida “com uma pitada de sal”, segundo a orelha) e a correspondência íntima de Chekov e a contracapa de uma nova tradução Da Divina Comédia da qual só se encontrava para vender, por hora, a contracapa, que oferecia um holograma de Dante sendo alternadamente acompanhado à direita por Virgílio e à esquerda por Beatriz, o que nem lhe parecia tão adequado mas que, tendo à mão apenas a contracapa e sua cultura insuficiente, ele nem poderia verificar.
Ele era um pai, um marido, um filho (duplamente, embora um dos vértices esteja hoje falecido), um engenheiro, um eleitor, um amante, um comprador da banca de revistas de sua quadra, um cristão assim meio mais ou menos, um brasileiro, um cidadão brasileiro (olha só), um palmeirense, um heterossexual, etc. Nenhuma dessas coisas era assim evidente no momento, embora ele tentasse assumi-las agora, como sempre, inteiramente nos braços e nos dedinhos, se possível nos cabelos e nas unhas. Ele lembrou-se da morte de Ayrton Senna e chorou copiosamente por quinze segundos, parando apenas para pensar na crise financeira e em suas possíveis conseqüências, nos números da bolsa, concluiu que o negócio era muito sério e muito grave, e em seguida que todas as coisas eram muito sérias e muito graves, toda elas, inclusive o final daquele filme onde a Susan Sarandon morre de câncer. Lembrou de um grupo de crianças de dez anos de idade que estava construindo uma escola ecologicamente sustentável. Sem ajuda do governo ou da sociedade, de fato até sendo atrapalhada por alguns membros, com gente xingando e tentando derrubar as escadas enquanto eles tentavam aplicar as placas de absorção de energia solar no teto que eles fizeram principalmente de papel-machê e cuspe. Eles eram para ele um motivo constante de inspiração, crianças multiétnicas e multiculturais, na verdade possivelmente transétnicas e transculturais, e de estágios avançados e incompreensíveis, potencialmente impossíveis, de complexidade de gênero e afetividade sexual, vendendo biscoitos para arranjar fundos, trabalhando dia e noite, algumas delas vencendo também cânceres de vários tipos e estágios de avanço, e também pais alcoólatras e expectativas heteronormativas - às vezes todos ao mesmo tempo.
Ele pensava nas crianças e se sentia inspirado, mas nada em volta ajudava, nada em volta lhe parecia imediatamente solucionável com seu ânimo. E ele ainda havia abandonado a leitura de LA PARTICIPATION EM ST THOMAS DE AQUINAS há alguns minutos, que era escrito em uma língua ainda (página 47) indeterminável, no meio de um parágrafo interessantíssimo, realmente formidável, claro e provocante, adverbiado corretamente, com subordinações essenciais e fluidas que te carregavam adiante de forma macia e íntima, como os braços meio gordinhos – moderadamente gordinhos e até meio geladinhos - de uma namorada. E ele havia abandonado aquele parágrafo tão bonito, tão esforçado, e agora chorava também por isso, e queria de alguma forma se encontrar com aquele parágrafo e pedir desculpas em forma de um presente pequeno e significativo, um chaveiro do seu time, um livro de máximas chinesas adequadas ao mundo business. Mas nada disso o ajudava de maneira alguma a continuar a leitura, e no entanto tudo continuava a parecer essencial e da maior importância, tudo igualmente chorável por horas longas e dificultosas.
E tampouco haveria alguma maneira clara de provar a existência das crianças, ele percebeu, terminando de engolir o pastelzinho, cujo gosto ele havia finalmente se esquecido de determinar com qualquer precisão apreciável.

Thursday, December 11, 2008

Sabem o Retábulo de Santa Joana Carolina, do Osman Lins? Então, tava eu lá lendo Auerbach falando de outra coisa nadaver, e olha só:

The figures – as on the sarcophagi of late antiquity – are placed side by side paratactically. They no longer have any reality, they have only signification. With respect to the events of this world, a similar tendency prevails: to remove them from their horizontal context, to isolate the individual fragments, to force them into a fixed frame, and within it, to make them impressive gesturally, so that they appear as exemplary, as models, as significant, and to leave all “the rest” in abeyance.

Não explica um tanto? É isso que ele faz com os pequenos capítulos do conto, que ele chama de mistérios Não só a disposição entre cada um deles imita a de quadros não-exatamente-lineares num retábulo, isso é fácil, mas a concretização esquisitinha mesmo de cada mistério é feita com parataxe estranhamente rígida. Não nos lembra imediatamente narrativas antiguinhas por ter vários elementos modernos ali misturados, por não ter um estilo nobre e distinto que mantém cada coisa no seu lugar (e que pareceria paródia, se tentado). Mas é isso: as cenas não tem nenhuma realidade, como disse o Auerbach, elas só tem significação. Elas recriam poses gesturais sem realizar nunca nenhuma atualidade, são fixas e rígidas. É um negócio bem bastante medieval, e isso não é um acidente.

Eu sou bastante simpático ao que parece ser a tentativa central do Osman Lins, de uma centralização concentrada das propriedades cosmogônicas (eia) da ficção nesse mundo de tantas modernidads, tantas internetes. Mas o jeito que ele opera isso me parece sempre ingênuo, descreditando realismo e operando a partir de coordenadas que ele tira de si mesmo e que não fazem nada pra mim, achando que dá pra sair hierofanizando as coisas a partir de estruturas tão evidentes e declaradas, geometrias e palíndromos e etc.

Mas ainda assim, ainda assim, há de se achar massa. Deve ser a única coisa formalmente original em ficção no Brasil desde, sei lá, Graciliano.

Monday, November 24, 2008


Harness the power cosmic, Urizen!
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Mas o que eu queria assim mesmo era que o William Blake tivesse nascido no século vinte e tivesse sido o Jack Kirby. De algum jeito.

Friday, November 14, 2008

Mal de montano-
A tradição latinamericana toma grande graça da narrativa subjetivista, como se sabe, de narradores pouco confiáveis ou absolutamente doidinhos, de fragmentação pra todos os lados e, infelizmente, às vezes até de depuração estilística à francesa. O que eu não sabia é que a brincadeira continuava dando corda depois de tantas águas passadas, com Noturno do Chile, por exemplo, ou, caso em ponto, Mal de Montano (Villa-Matas é espanhol, mas escreve como se fosse argentino, o que houve com As Grandes Tradições, né?).
*música tema de resenha literária começa, eu viro pra segunda câmera*
Me impressiona que ainda se veja tanta graça em uma forma que me parece tão, tão retoricamente cansada, mas fazer o quê. O Villa-Matas se desprende aqui da carga potencialmente existencialista desse tipo de relato pra brincar de Borges e intertextualidade, e brincar bem mal. Borges, Kafka são incontestáveis, mas eles são, à sua maneira, escritores fáceis, e muito facilmente usados pro mal. O Mal de Montano brinca consigo mesmo e com o fato dele ser ou não um romance, brinca com o literário toda hora, nada é o que parece (como as orelhas de livro gostam de dizer). Não, e nada se consegue, tampouco.
O livro é formalmente e estilisticamente nulo, geralmente permanecendo rente ao chão, e constrangendo quando tenta se levantar um pouco mais. Camus não tenta, o que é irritante, mas, sei lá, válido. Villa-Matas tenta de vez em quando, o que leva a gente a imaginar que a depuração dele é falta de talento, mesmo. O principal por trás do livro seria a carga intertextual, o literário como assunto, mas Borges e Kafka fazem isso imitando com muita habilidade os efeitos e os movimentos da própria literatura, são gênios formais de manipular convenções. Villa-Matas não chega nem a imitar os efeitos da literatura, ele apenas tenta imitar o literário, o cheirinho que fica em volta, o ar pesado. Ele usa intertextualidade de um jeito banal e pesado, imita o tipo de coisa que um bom escritor evita trazer à tona, mantém dentro da casa de máquinas, usando o elevador de serviço. É uma afetação kitsch dos diabos. E ainda confusa, que desconfia e faz pouco das premissas de ficção realista sem perceber que o livro tenta usar delas mesmo assim, ainda depende delas, sem conseguir estabelecer seus próprios termos.



UMA EXPLICAÇÃO:
Mesmo coisas extremamente bem-sucedidas costumam falhar em algum de seus níveis, costumam ainda ser ridicularizáveis por algum ângulo. Perfeição só se consegue escolhendo um cantinho bem específico (e limitado, portanto) do plano atual e possível e concentrando nele, acumulando, fazendo força.
EXEMPLOS:
Quindim, buldogues, Elliott Smith, Giorgio morandi.

POR ÚLTIMO, UMA ENTREVISTA COMIGO SOBRE GÊNERO
Q-
A-Gênero, na verdade, é a maior confusão.
Q-
A-Nossa, muito.

Wednesday, October 22, 2008

Such awkwardness at the heart, such awkwardness at the heart of being
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Friday, October 17, 2008

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Depois de encarar a terceira ou quarta tradução das Elegias de Duíno, a coisa toda ganha uma cara maior e mais grave, engraçada. Por melhor que elas sejam, você sabe que tá sempre encarando o negócio através de um espelho enviesado, tá sempre tentando alcançar algo esguio e safadão, que escapa (Insira aqui alguma versão da coisa toda de Mas O Que É A Tradução Afinal). Isso não teria tanta graça pra tons mais sossegados (livro de horas, por exemplo), mas as Elegias colaboram tremendamente com essa impressão, sendo aquela coisa tão tremenda e olhem-para-mim-eu-converso-com-anjo, tão oracular, tão (vou falar merda) freestyle auto-importante do Heráclito ou do Heidegger. E não acontece o reflexo que eu tenho às vezes com essas coisas tão graves, de olhar pras palavras individuais e nunca perfeitas até que elas quebrem sobre a pressão, até que uma aliteração desajeitada transpareça o rapazote afetadinho por trás, o rapaz em quem Tolstói aplicaria safanão na nuca. Aqui não há nada de individual e pequeno, você tá vendo o reflexo de algo, sempre, então as insuficiências são relevadas, e a impressão de algo terrível espreitando por trás fica quase intacta. É bem bonito.

Thursday, September 25, 2008

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Eu ando de fazer uns posts pretensiosos, nossa senhora. Se vocês soubessem o que se salva em rascunho, ainda por cima. Tava querendo falar tipo SERIAMENTE sobre o DFW, também, tentar explicar porque que acho mesmo que ninguém da geração dele chegue perto dele, que provavelmente vá sentar de algum jeito no cânone, e tudo, sentar firme nos erros tortos e bonitinhos dele, tal. Mas já vi tanta gente mais esperta do que errar feio, desanima. Se alguém quiser saber, é só me embebedar, tamos aí.
Tomem a lista de leitura do Barthelme, olha que esquisitinha e legal. Eu já segui algumas recomendações dela e tenho meus polegares erguidos aqui, e um olho piscado. Beattie, Carver, Paley, Gass, O'Connor, Booth. Não é compreensiva, mas nem tenta ser direito.
A vantagem desses tempos engraçadinhos é que qualquer um que goste pode muito mais facilmente se abrigar debaixo dessa longa asa projetada da única tradição restante em ficção, muito mais facilmente ir atrás das coisas. Estudo de ficção contemporânea devia ser COMO LER OS AMERICANOS, seguido de COMO IMITA-LOS.

Sunday, September 14, 2008

good old neon
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A última peça de ficção dele que me faltava pra ler eu comecei a ler nessa sexta-feira de tarde. A novela do final da primeira coletânea de histórias, Westward etc, a que fica brincando com Lost in the Funhouse o tempo todo. E diante de alguma daquelas luzinhas que ele acendia a cada cinco minutos ni mim (coisas geralmente pequenas, até, às vezes apenas descrição bem feita,) eu senti uma gratidão genuína e, sei lá, quentinha. Dele existir, dele estar lá como parte real e verificável dos fatos que compõem o mundo. Eu sei que parece forçado, mas foi basicamente isso. E isso provavelmente aconteceu algumas horas antes dele se matar, a última oportunidade que eu teria de sentir isso.

E agora tenho que terminar a história com algo bem diferente revolvendo no estômago.

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Já estão postas em ação todas as carpideiras de blog, e artigos honestos aí de gente sentida, e resumos críticos, e a lista de emails sobre se enche de relatos emocionados.

Eu li todos que consegui achar e vou continuar lendo a noite toda, e não é - como costuma ser o caso- porque me interesso de ver como as pessoas reagem a morte de um escritor, como a crítica se posicona e como uma cultura se acomoda depois de um choque.

Eu estou lendo porque eu estou muito triste e quero me conectar com gente que também está muito triste. Triste pela tristeza e a solidão desse cara, que eu nem começo a conseguir imaginar. Eu estou fisicamente triste - meu corpo está pesado. E não vou falar criticamente sobre o que ele escreveu. Este post é sobre mim. Vocês podem falar aí, e até acho bacana, mas pra mim seria indecente, seria como ir no enterro de um amigo e comentar depois que "ah, mas ele falava meio alto quando ficava bêbado, né?".

Emotícones de tristeza estão me parecendo vergonhosos, e trocadilhos, e também isso aqui.

Tuesday, August 26, 2008

The Varieties of Religious Experience

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Mais ou menos como a arbitrariedade do sinal em linguagem não impede que se estabeleçam proposições verdadeiras, a artificialidade das convenções artísticas não impede que verdades se articulem ali (ainda que verdades de outro tipo). Depende de mind sets, depende fortemente de hábito e tradição, mas o que se estabelece em objetos e relações tão impuras pode, sim, ser puro e incontornável.

Tudo que se passa por aqui *gesticula amplamente * se passa com naturalidade, tudo tem e precisa ter a cara natural e descompromissada de um acidente, a cara pequena; com suas explicações por trás, seus fios.
É uma tensão esquisita e perturbadora, mas isso não estraga nada não, isso não atinge nada.

Thursday, August 21, 2008

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Daonde que vem essa galera da Bravo, da Folha? Eles gostam de literatura, mesmo? Ele estão tentando de verdade?

É particularmente doloroso vê-los entrevistar alguém. Mantendo-se no mundinho fechado e retardado deles, onde nenhuma luz entra ou pode entrar, pode até parecer que eles têm alguma idéia do que tá acontecendo. Mas aí de vez em quando acontece de baterem de frente com os próprios autores, e daí é só vergonha e dores e lágrimas.

Isso porque saiu na folha anteontem entrevista com o Philip Roth.
Logo de cara se afirma e se repete que em 2009 sai no Brasil Shop Talk!, seu mais novo romance! (um livro de 2001 que até eu, que não gosto do Roth, sei que se trata de ensaios e entrevistas sobre literatura). Na primeira frase da entrevista a menina fala que o Roth trata da hipocrisia da classe média. Ele responde que não se preocupa com hipocrisia e que não pensa em termos de classe. E ela insiste que, ué, ele trata da classe média. Ele nega mais uma vez. Daí frase do caetano e bobagens políticas americanas que não tem muito a ver com o Roth. No miolo da página, uma ANÁLISE de outro imbecil tem o título: Escritor tem classe média como alvo.

êêêêêê!

Fala-se que ele fez uma ruptura marcante com Bellow e Singer ao tratar das contradições da classe média abertamente. Eu queria ver a cara do bróder ao escrever isso, a expressão de rapto e insight crítico por trás dos óculos quadrados dele. Eu aposto sete reais que conseguiria representá-la com alguma acurácia.
Isso é o máximo que se consegue. Detectar ironia onde não tem, preocupação política tacanha onde não tem (ou onde não é relevante), algumas referências óbvias incompreendidas. Contradições hipócritas e hipocrisias contraditórias! Nada se arrisca sobre o estilo.

Neguinho tá num freestyle absoluto e ininterrupto e inaceitável desde que me entendo por gente, assim, fazendo cara séria e fingindo que sabe do que tá falando. Toda reportagem e resenha literária brasileira que eu já li em revista e jornal. Sempre absurdamente vazio, malucamente vazio. Palavras chave bestas se interligando licenciosamente, perversamente.

Todo mundo sabe disso, eu sei, todo mundo tá cansado de saber. Mas às vezes ainda me surpreende, ainda me arregalam os olhos. Deixa eu. Blog é pressas coisas.

Sunday, August 10, 2008

Cultura ! ! ! ! ! ! !

Barth-

Borges é grande literatura sem o esforço, os efeitos e sentidos já descritos e expostos pra nós, os caminhos invertidos. Isso que o McLuhan diz que o Poe inventou (mais ou menos), e até um pouco como o kitsch que o Greenberg descreve. É uma imitação de literatura, opera em níveis que ninguém sabia que podiam ser operados tão bem até que o velhinho os acenasse. Como os seus Chesterton e Carlye, ele escreve ensaios quando vai escrever ficção (pena que só o Carlye fazia isso conscientemente*). Mas a originalidade dele é uma situação complicada. Ele achou uns loopholes e foi bastante eloqüente sobre o que encontrou, sim, mas difícil chamá-lo de gênio, eu acho. Ele tinha, sim, um tremendo bom gosto. Ele é um amigão, um bróder das literaturas. Calvino, sim, é um gênio. É um Borges mais consciente e mais esforçado. Ele não é necessariamente mais divertido (Borges é dos que mais traz gente pra literatura, foi dos que me trouxe), mas é operador mais habilidoso criativo e forte da confusão toda de ficção pósmoderna, antes, você sabe, que ela se pesasse com viadagens tantas.

E daí o Barth! Tudo isso pra falar dele. Barth é o que o mundo d’hoje (de cinqüenta anos atrás) faz de um Calvino menos talentoso. Tem uma imaginação falha e pouco bacana, pouco amigável (que eu gosto de imaginar que é culpa também do mundo, e não só dele mesmo). É uma versão bem inferior dos seus mestres ali de cima, talvez por ter feito o caminho inverso dos dois, um caminho artificial e pouco inocente. Calvino e Borges foram os últimos filhos de uma cultura que hoje já é impossível, que já era estrangeira a um americano quase contemporâneo aos dois. Quando Barth enche a boca de contos de fada e coisas do tipo ele está assumindo uma pose, e isso fica óbvio. Por isso não consegue dar vida de verdade à algumas de suas tentativas. Ele parece estar em pernas-de-pau boa parte do tempo.

(Coover fazendo a mesma coisa com cinema soa muito mais natural, por exemplo. Talvez fosse essa a direção que ele devia ter tomado)

Mas com Lost in the Funhouse ele achou um nicho que pudesse insistir, e a exaustãodeautosconsciência, por mais cansativa que seja, tem uns momentos bem honestos e diretos, com uma força meio difícil de não se reconhecer. Só é um pouco difícil acreditar que alguém poderia se importar de verdade com tudo aquilo. Além de escritores de ficção, né, além do cara do Bookworm.

*(zoei)

LitBrasCont!

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Sérgio Sant’anna é divertido, talvez melhor que Campos de Carvalho. Pena que o livro dele é caro. Só leio em pé entre estantes lá na cultura. João Paulo Cuenca (Cuenca!) e Santiago Nazarian (Santiago!) são incompetentes em todas as direções possíveis. Inofensivos e inócuos de tão, tão ruins.

Dicta & Contradicta é exatamente o que você espera dela, o que quer que isso seja. Tolentino pesa por cima de tudo (como a sua tag no site deles demonstra)


Como tanta coisa, esse blog é estritamente desnecessário. Vai se produzindo sem nada por trás, matéria morta. Como Brendan Fraser, como bonequinhos do Pica-Pau de beira de estrada. E no entanto.

Sunday, July 20, 2008

troço inacabado e inacabável, que eu posto porque sim.


Direito Administrativo

Vinha vindo machucado, solto, lento, o Direito Administrativo. Passos complicados, esforçados, que se empertigam toda hora, talvez em insegurança. Suas pernas são como dois palitos mal posicionados enfiados em uma maçã. Suas mãos não cabem nos seus bolsos, pombos andam ao longo dos seus ombros. O parque não é bem cuidado, e as irregularidades do chão permitem poças gigantescas que engolem o seu pé e alcançam até a barra de sua calça, sempre molhada. Os suportes para estátuas estão vazios e há pombos em todo lugar, em alguns pontos cobrindo toda a superfície do chão.

O Direito Administrativo senta-se em um banco e é observado por dezesseis turistas orientais que pedem para tirar foto com ele, provavelmente o confundindo com outro gólem, algum mais interessante. Ele se esforça para sorrir e não consegue, forçando uma veia no pescoço.

Ao lado, de repente passa o Balzac de Rodin, envolto em seus trapos, perseguido por dezenas de turistas. Os orientais percebem seu engano e abandonam o Direito Administrativo. A confusão é freqüente. Os dois se diferenciam principalmente em dois aspectos: um bigodinho e três metros de altura. Além da indumentária.

Quando perguntado quem ele é, o Direito Administrativo responde (em alemão):

-Eu sou o conjunto de normas e princípios que, visando sempre ao interesse público, regem as relações jurídicas entre as pessoas e órgãos do Estado e entre este e as coletividades a que devem servir!

Sua inflexão não segue sempre o sentido do que ele está falando, e geralmente acentua pontos quase aleatórios da frase.

Turistas não incomodam muito, não fazem muito além de tirar fotos. O principal problema são escritores e artistas, eruditos. Esses chegam arrogantes invocando os gólens para todo tipo de bobagem desnecessária, e não há muito que a maioria deles possa fazer senão aceitar. No momento, dois poetas magrelos gritam imprecações obscenas enquanto colocam para brigar dois gólens cansados (Wallace Stevens e Cézanne, que o Direito Administrativo não reconhece). Os dois tem mais de seis metros e são dois gólens da Terra, embora de variações bem diferentes, o que torna a luta menos variada e mais longa, arrastada. No caso, a luta claramente saiu do controle de quem os invocou, estes sendo gólens poderosos, e agora parece incontrolável. Derrubam algumas árvores por perto, marcam a areia com o halo de força em volta deles ao voarem daqui pra lá, descrevem rapidamente e redundantemente o que vão fazer em seguida.

Fontes do direito administrativo

São quatro (ele conta com os dedos, virado para os pombos nos seus ombros):

A Lei

A Doutrina

A jurisprudência

O costume

Os gólens mais poderosos dominam setores grandes do parque, e quase ninguém consegue invocá-los com sucesso (embora as tentativas sejam freqüentes). Em volta deles o ar se carrega e tudo se desespera para seguir sua ordem. Pequenos redemoinhos de vento acumulando terra e folhas secas, pessoas distraídas, outros gólens. O próprio Direito Administrativo tem seus poderes modestos, que costuma preservar para alguns estudantes que lhe aparecessem às vezes. Consegue arregimentar pequenas organizações, influências, se se concentrar o bastante. Geralmente seu alvo são os pombos nos seus ombros. Ele é apenas um dos vários gólens de Direito Administrativo, um criado por um estudioso paulista já esquecido há meio século atrás, e agora obsoleto. Sabe que não dura mais muito tempo, que logo se junta aos vários cadáveres que povoam o parque já como paisagem.

Cadáveres que incomodam justamente por nunca morrerem inteiramente, de vez em quando ainda tremendo uma sobrancelha ou fremindo os ombros, murmurando nomes desconexos.

Ver Também:

Tuesday, July 08, 2008

Serious Sans
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Até o Design, esse trem tão escandinavo e estéril, tem essa agora de ser sério, de ser tipo responsável. Até a Vice inventou de virar política e tirar o bróder que fazia Dos & Don'ts, caramba. Tá na hora de parar de chamar de "unhip earnestness", né, minha gente, no mínimo.

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Slow Learner é a maior prova de que Pynchon não sabe mesmo escrever ficção, que ele nunca soube. É bonitinho e constrangedor, o que ele admite muito massamente na introdução. Isso só torna o feito que é GR mais impressionante ainda, e esclarece o quanto foi um progresso consciente de um gênio cavando com as mãos um lugar próprio pra sentar. É muito mais radical do que se diz, a retórica narrativa do livro não possui um centro de consciência refletor do que acontece, nem sequer vários dispersos: o centro de consciência do romance é o próprio romance, estranho e familiar, orgânico como a natureza. Sem saber como lidar com as pessoinhas, Pynchon engoliu o mundo, Galactus-like. Aquilo é o mundo narrando a si mesmo, quase como Tolstói. A naturalidade é a mesma, o mundo é que parece vestir calças diferentes e engraçadinhas.

Isso é que a cambada de gentes que sai por aí histérica não parece entender. A reclamação contra realismo histérico do James Wood procede, sim, de uma maneira geral. Ela só não se aplica de verdade a GR*.


*embora se aplique, talvez, a V.

Thursday, June 26, 2008

Um dos poucos padrões aplicáveis a quase qualquer arte é a necessidade de matar o artifício, de esconder as costuras. Isso é antigo e bastante elementar, bastante insistente. Porque precisa aparentar que o sentido de alguma coisa é emancipado, e não dado, como diz achoque o Frye em algum lugar.

Disso (e não apenas disso, esperamos) é que sai aquela contradição irônica e talvez útil; que a única maneira de levantar uma vida bem-sucedida esteticamente seja não encarar a vida como uma empreitada estética. Não tentar, como se diz. Nunca. Na verdade nem se importar (mas isso já seria pedir demais). No sentido extremo da coisa, uma vida removida é a única não ridícula.

Saturday, May 31, 2008

Fans bared and dripping gore

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They seem then, no matter how randomly he’s thrown the clips together, to be caught up in some terrible enchantment of continuity, as though meaning itself were pursuing them (and him! and him!), lunging and snorting at the edge of the frame, fans bared and dripping gore.

Monday, May 26, 2008

Murakami* e o Warhol vestem as calças do mundo tão bem que acabam virando informantes previsíveis e bestas do que acontece. Tudo faz sentido e é pequeno, é tão pequeno. É o Fernando Meirelles dirigindo Saramago, o mundo no automático, o mundo não tentando

(eles abraçam isso, dão piscadelas, mas não é esperto o bastante pra se safar)

Arte deveria nos reconciliar com o mundo, isso não deveria ter que ser explicado. Do jeito que é, essa arte pop-savvy é divertida e ruim para você, é pior do que a cultura de massa em si. Cultura de massa ao menos tem a vantagem de ser inexpressiva o bastante pra virar parte do mundo, tipo árvore, arco-íris, pedra. Arte ruim faz mal, faz mal pacas.

O mundo precisa de gente grande, precisa não achar que quirkiness realmente vai te redimir de alguma coisa.

*o da estátua do cara fazendo safadeza, não o que escreve coisas bacanas.

Disclaimer! isso é provavelmente o que todo mundo fala dessas coisas. eu não sei do que estou falando.

Saturday, May 24, 2008




No caso de alguém estar se perguntando
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a melhor banda do mundo, zoando pixeladamente

Sunday, May 18, 2008

vijogueime!
(...) (uma parte séria que eu não posto)

Agora adiante, vijogueime. Gente que diz a sério que é uma narrativa potencialmente superior porque interativa não distingue o seu cu de um buraco no chão. Atiradores de primeira pessoa* (por exemplo) costumam funcionar com historinhas bem tradicionais, mas completamente incapazes de qualquer efetividade. Eu consigo me importar até com aquela aberração que é Starship Troopers, com novela, com o meu cobertor, mas não com pessoinhas de jogo. Isso é freqüentemente admitido de formas diferentes, como se faz com pornografia, ninguém tá nem aí.

O tipo de interatividade de videogame tende a reduzir qualquer significado que não colabore com a dinâmica principal da parada, com suas primeiras diretrizes, sempre imediatas. Lá dentro o que importa são as conseqüências plásticas das coisas, o potencial estético assim óbvio, apenas. Fora a necessidade eventual de imersão, de pesar a situação em alguma realidade que liguem botões não tão complicados de grandeza, a importância de uma caixa de madeira e uma garrafa está em como elas se estilhaçam ao serem fuziladas. O que é previsível. Entrando num meio razoavelmente opaco de significado, toda importância se reduz aos termos mais imediatos de satisfação que eles possam proporcionar. É meio que se aproximar das calças de uma pessoa moralmente e metafisicamente burra**. Andar um mundo onde as coisas até brilham de vez em quando, até explodem, mas finalmente não importam.

(Talvez eu fosse apenas uma criança esquisita, mas eu me lembro de uma pontadinha perturbadora ao sair andando por aí em Goldeneye por um pedaço do mapa já tornado irrelevante pelo progresso dos objetivos, correndo na neve contra uma parede invisível e tendo o tipo de crise que neguinho sempre teve aí pela vida, que francês do século vinte parece ter na vida real. Arte anda sendo feita em volta disso, provavelmente mal feita)

Daí que é muito legal, e muito divertido, mas um tendão aqui se puxa e se assusta, às vezes.

*levanto a voz*

Mas aí que o mundo do Mario (por exemplo) se reduz às suas estruturas essenciais, se alinha todo nas diretrizes de diversão do jogo, tudo é abertamente funcional e abertamente intrumentalizado, um cano verde é apenas aquilo que você vê, não há um travesti do mundo acontecendo ali. O Mario não está nunca morrendo e todo mundo sabe disso, ele mal existe. E Mario Galaxy chega o mais próximo possível de um jogo abstrato. Como em alguns modernistas da primeira geração, a existência de figuras reconhecíveis é uma formalidade, o que importa é a interação bonitinha de formas. Muito bonitinha.

Ou seja,

GTA é o teu cu. Sou um homem sério.

*me sinto tão chique evitando falar FPS. Tão, assim, português.

**a palavra é essa.

Saturday, May 17, 2008

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Eu tava aqui pensando ouvindo música bonita e do nada imaginei uma manchete "Jô Soares Grávido". Olha o que fizeram com a minha imaginação. A culpa é parcialmente minha, ok, mas não toda. Tudo se assesta nisso, toda a criação se instrumentaliza para dar nisso. E eventualmente todos temos que lidar com o fato que o estado das coisas está caminhando para manchetes diárias do tipo "Jô Soares grávido". E todo mundo sorrindo feliz como se nada estivesse errado, e Jô Soares com brinquinho falando se for menina, Julieta, se for homem, Luiz Cláudio.
Tá, deixa eu voltar pra música bonita.

Wednesday, May 14, 2008

Coisas!
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Poesia de graça na internet sempre é pesada de realidad's, né, tipo banners engraçados, comentários doidinhos, videokê. Leitura do Charles Wright tinha que ser em real audio. Tipo real audio.

Italiano é muito massa.

Isso. Martim Vasques, Ferlim Assami, Júlio Lemos, Tolentino piscadeleando e um bando de gente que não conheço. Por favor seja legal? Já deu de decepção já.

Isso e depois isso. E depois isso. Se ainda tiver saco, isso.

^_^

Isso.

Isso é divertido.

Por último, aos irresponsáveis que ainda não viram.

Tinha mais coisa, mas esqueci. Ok.

Friday, May 09, 2008

Museu

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As estimativas mais tímidas diriam algo em torno de centenas de coisas. O que é um punhado. Aqui no momento pedaços de um painel egípcio, pequenos pedaços. A disposição na parede sugere que o que se tem aqui não é nem vinte por cento do original. Mas se forem os pedaços certos.

Esse touro (na sala seguinte) segurava alguma coisa no palácio de Dario. As mãos tão quebradas, não há nada em cima dele, mas os cotovelos sugerem a intenção de segurar alguma coisa. Ele parece ainda muito esforçado, mantendo aquela pose por dois mil e quinhentos anos, cansado. A posição do pescoço assim parece meio incômoda. Dario pessoalmente talvez tenha pensado coisa parecida, mas talvez não. Subimos (eu a japoneses que não conheço) uma escada larga e suja, vazia, e encontramos quadros do século dezessete. Do tamanho das paredes, do tamanho de prefeituras (pequenas prefeituras, mas ainda assim). Vários casais de idade na frente deles, nacionalidade européia genérica, bronzeado leve, mãos cruzadas na cintura, parecem dizer para aquele excesso, aquela efusividade explodindo de religião ou nacionalismo, repetida ao longo de um corredor imenso, imenso, parecem dizer: “ora”. Eles sorriem e dizem “o mundo não é assim não”. O moço limpando os corredores também, com fones de ouvido. Lá fora, as árvores empertigadas e surpresas, lívidas em uma luz branca. Do outro lado a janela dá para um pátio interno do museu, que é cheio de esculturas de eras diferentes, uma coisa. Uma estátua grande no centro, de Odisseu (eu prefiro Odisseu) impressionado com alguma coisa que se quebrou fora da estátua, o que torna a situação quase (você vê na expressão do povo em volta) moderna! Muita gente em volta desenha atentamente a estátua. Eu prefiro não checar nenhum dos desenhos, manter-me otimista.

Há uma intervenção contemporânea ao longo de toda a coleção. Misturada à cerâmica grega e pintura holandesa do século quinze, interpretações e 'releituras' de algum artista moderno. No Balzac do Rodin há alguma gracinha com as obras completas do Balzac, a comédia humana toda lá editada por trás de vidro ou plástico parecido com vidro. O artigo da Wikipédia em várias línguas impresso em alta definição (talvez alta demais?) na parede. Algo que talvez seja sobre aquele ali não ser o Balzac mesmo, ser uma estátua do Rodin, e afinal o que é o Balzac mesmo, hoje em dia? Uma menina morde o interior da sua boca, pensando, como se uma resposta fosse esperada dela.

Um homem oriental senta cansado em um canto, uma cadeira pequena, as mãos nos joelhos. O seu grupo está muito adiante, sendo explicado em japonês que Monet pintou todos aqueles quadros da mesma catedral ao mesmo tempo. Eu não sei japonês, mas a entonação não permite que o guia esteja dizendo qualquer outra coisa. E a reação do grupo é animadinha, que agora entende, agora tira fotos, na luz desse conhecimento. Fotos conscientes.

Eu procuro o Cézanne, que normalmente não se deixa afetar. Ele também está rodeado de movimento, e luzes e coisas. Há uma sala escura onde um filme é projetado, fora dela uma plaquinha Fight, 2004, 29 min. Lá dentro sentam crianças entediadas no chão. O vídeo é de dois bonequinhos bem feitos brigando devagarzinho, uma luta coreografada e pra sempre protelada de qualquer clímax, uma que te lembra animes e filmes dos anos setenta. Um deles é claramente o Cézanne de um dos auto-retratos mais famosos, o outro parece o Wallace Stevens. Eles lutam pela terra.

Claro, eu concordo sem ninguém me ver, no escuro.

Uma garota explica em alemão baixinho no ouvido do namorado o que tá acontecendo. Será que ‘pastiche’ em alemão é ‘pastiche’? Eu, pessoalmente, não tenho nenhuma mulher pra me explicar o vídeo no ouvido, nem em alemão.

O vídeo deve estar cheio de referências. Eu entendo o coelho, as peras alternando de um para o outro. Mas se houver referências a, por exemplo, The Anatomy of Melancholy, eu não vou entender (e não há, até agora, nenhum motivo para imaginar que haveria). Ou Clarissa (tampouco, menos ainda). Eu acordo de noite às vezes suando frio por não ter lido nenhum dos dois. Mas tem a minha idade, eu me explico, tem a fadiga. Eu me imagino então em uma super bacana maturidade, digamos trinta e poucos anos, comendo um sanduíche de madrugada na minha cozinha, depois de certamente ter lido os dois livros, e vários outros. O sanduíche que vou ter feito, as mordidas estratégicas e estudadas no intratável escuro. Ah.

Tuesday, May 06, 2008

This article is about Pierre Menard, the Illinois politician. For other uses, see Pierre Menard (disambiguation)

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Internet é esquisita e desajeitada e precisamos cutucar com gravetos às vezes, é verdade. Mas como princípio geral a Câmara de Comércio de Itapemirim precisa comendá-la, bater palmas. Como com artes contemporâneas risos, funciona dentro duma ficção do mundo que você olha de longe, com funções próprias e engraçadas, onde você sorri que tal pessoa agora fez wiki disso, comunidade daquilo, feed etc (eu uso o jargão como um velho). Na pior das hipóteses, permite mais mundo, uma lista das coisas, uma reunião, um catálogo, e por isso é muito correta, por enquanto. Qualquer versão do mundo merece alguma coisa como gratidão. Provando aí exaustivamente que a gente não pode, não consegue errar de nenhuma maneira irreversível. Fico todo brega em volta, pra você ver. Agora é só educar as filhas em volta e ser feliz.

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em outras notícias,

wunderblogs se foi, moribundo já há um tempo.
Não devo ser o único que os encontrou em tenra idade e ficou (falando honestamente) todo animadinho, todo ouriçadinho. Que comprou o livro e resmungava de tempos em tempos com amigos que não havia nada melhor por aí, etc. Releu arquivos do dante e do mozart mesmo sem entender com tanta frequência, tal e coisa.
Agora não há muito o que dizer. Está é apenas uma formalidade, né, uma incerta de sua própria seriedade nessa terra de tantas internetes. If you have to ask, vá pros arquivos enquanto eles existirem.

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Monday, April 28, 2008

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Quase todo blog é um acidente de carro, não é? Arrastado, assim, primeiro em câmera lenta e depois em loop. Mesmo os bons. Assim consistente, enquanto ninguém na vidareal é porra de consistente. Internet parece que machuca as pessoas, fica essa coisa tentadinha. E eu não só leio como releio, vários.

(aviso a amigos meus: os de vocês não)

Thursday, April 17, 2008

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it's music
Nunca faço essas coisas, mas aí está. Só músicão aew.

Monday, April 14, 2008

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Tava pensando aqui. Pale Fire é um tanto mais divertido (deve ser um dos livros mais divertidos já escritos), mas Pnin acaba sendo estranhamente mais sofisticado. Como Ivan Ilitch, Seize The Day, é uma coisinha pequena e perfeita nos seus termos. Dá pra tirar toda uma LIÇÃO massa sobre ficção ali, também, que dá vergonha de falar, né. Nabokov provavelmente não levava ele tão a sério, mas e daí?

Saturday, April 12, 2008

uma quebra forçada de auto-importância (a necessary turning of mothers)
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Devem existir argumentos excelentes, excelentes, sobre como peido não é uma coisa universalmente engraçada. De como eu (daí vocês apontam pra mim) acho muito engraçado por causa disso (exhibit A) e disso (exhibit B), aí eu anoto num caderno e entendo e prosseguimos (até onde vocês me explicam porque é que a girafa não fez forcinha com o pescoço para que a filha nascesse com o pescoço maior).
Mas a minha cabeça não enrola bem suas ferramentas engraçadas e mal formadas em volta desse tipo de coisa. Eu não consigo imaginar uma tribo africana (sempre elas) onde o peido é divino, e pessoas peidando e entendendo aquilo como um lembrete da imortalidade da alma. Quem peida dá uma risadinha, a minha compreensão empurra de volta, como se fosse um componente básico do hardware nosso.
O Aristóteles não ria dos próprios peidos, por exemplo? Ele fazia o quê?
Na foto, etc.
Eu ia falar mais, mas ia ficar muito parecido com aqueles caras moderninhos que se acham super legais fazendo tipo crônicas* sobre esse tipo de coisa. Existe, não existe?

*haha, crônicas!


Friday, April 04, 2008

SHRTRVWS!
Atonement: Ian McEwan é bonitinho. Assim literariamente bonitinho. Bill Pullman no final batendo palmas aparece no palco This is what a book looks like, now folks!
Mas manda uns foguinhos, uns James Woods aí agradados ao longo do caminho. Ele é tipo o São Paulo do ano passado.

The Echo Maker:
Também Richard Powers. Coisas tão já prontas de significados tipo Capgras não prestam, não, ow, no máximo pra continhos. Tipo todas as sinopses do Saramago. Mas é bonitinho., cotas se preenchem, etc.

Tuesday, April 01, 2008

Mais um
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Os dois entraram no carro e não falaram nada por um tempo, em silêncio inclusive durante os vários minutos que levaram até sair da vaga apertada, arrastados pela prudência bêbada que nunca se pronunciava adiante por mais de alguns poucos centímetros. No chão do carro algumas poucas notas fiscais de posto de gasolina, sujas e rasgadas.

-Vou ligar pra sua irmã que ela tinha que ouvir.

Ele assentiu em um barulho mínimo, e, logo que o carro alcançou uma via mais movimentada e ganhou alguma velocidade, fechou os olhos em uma expressão séria, o arco dos ombros encurvado e, no entanto, reteso. As mãos rudes fortificadas entre os joelhos. Demorou um tempo para o pai perceber - de boca aberta, os óculos escorregando até metade dos seus olhos, ainda lutando para conseguir ligar no celular com uma só mão enquanto dirigia com a outra.

-Tá bêbado - o quê? Nem bebeu nada, né?

-Dor de cabeça, dor de cabeça que eu tenho sempre no carro. Desde moleque.

-Ah – OI. Oi querida, oi como você ta? Não, ótimo, tou com o seu irmão aqui. É. É. Não a gente jantou com as tias, sabe, que deu certinho liguei falei que tava aqui que o Pedro mora aqui agora, tinha anos que elas não viam ele. E foi assim ótimo tinha uns primos assim mais novos gente boa sabe. Os filhos da Maura.

A voz do outro lado se ouvia baixa e ridícula, com alguns detalhes característicos de inflexão discerníveis, uns altos e baixos óbvios. Ele abriu os olhos tentativamente para a janela e percebeu que não, que ainda não dava.

-Ah mas foi ótimo só te liguei por isso mesmo foi muito bom. E elas falaram tanto de você viram seu negócio no computador o Julinho seu primo mostrou pra elas, elas não entenderam assim muito bem o que era mas ficaram impressionadas, tavam orgulhosas.

O carro parou surpreso em um sinal. Ele abriu os olhos para uma lanchonete pequena e três motoqueiros fumando perto do semáforo, olhando todos para ele. Na lanchonete várias pessoas provavelmente voltando de uma festa a fantasia. Dois turistas e duas enfermeiras, os homens na frente das mulheres e olhando para a televisão diante deles em um suporte na parede. Bom dia, Vietnã, uma cena pouco característica. Suas mãos se aliaram adiante ao reconhecimento, com força, para que ele não tivesse que sorrir.

-Ficaram, assim elas não entendem né não entenderam muito o que era mas acho que a coisa de estar assim no computador como revista né, é como televisão hoje. Ah claro que é filha. E ótimo assim eles todos gentis a casa é linda você lembra dela? A gente visitou uma vez com sua mãe, que a gente achou que ia ficar lá mas não deu. É, com a escadaria.

No sinal verde ele fecha os olhos novamente. O carro corta as ruas vazias e vira abruptamente, fura alguns sinais. A cabeça recostada na janela treme e bate, às vezes com alguma força, aos solavancos desordenados do carro. Não conhecendo bem a cidade, nada daquilo faz sentido, uma violência. Ele se esforça para não ouvir, para não estar lá, mas não consegue. O acolchoado cinza do banco é de um cinza também marrom com retângulos concêntricos roxos, um conjunto que ele diria cansado, que ele diria vexado no cheiro que ele guarda e protege, o cheiro de uma má intenção conservada. O seu carro.

-Não ele tá aqui tá comigo no carro vou me deixar no hotel. Ha ha. Não, o carro dele. Tá aqui quer falar com – Alô, oi. Alô. Alô. A-lô. Alô. Alô.

Ele foi obrigado a notar como cada um deles foi diferente, cada um deles um esforço renovado e recomposto. Depois do último, conformado e como que protocolar, ouviu-se os cuidados separados de fechar o celular e de colocá-lo em seguida no bolso apertado da calça, uma tosse entre os dois que não pareceu necessária.

Alguns minutos se passaram sem mais nada, até que

-Ué.

logo quando a cabeça havia alcançado algum conforto entre o encosto e o teto. Isto seria um convite à sua atenção. Os olhos continuaram fechados, seria necessário mais do que isso. O que se concedeu apenas uns dez segundos depois.

-Você sabe onde que a gente tá?

Em dois segundos ele abriu os olhos e olhou em volta. O carro andava ridiculamente devagar em uma avenida larga de complexos comerciais irrelevantes e baixos, por trás alguns condomínios grandes de um amarelo fraco. Sua voz saiu seca contra aquilo.

-Nunca vi nada disso na vida.

O pai começou a rir, olhando pra ele, os olhos estourados e algumas pretensões brancas de barba na pele que ele tinha escura de férias. A rir muito.

-Eu saí de lá como se – como se eu conhecesse não conheço porra nenhuma dessa cidade. Nunca vi porra nenhuma disso aqui.

A rua era bem iluminada demais e nem pontos de ônibus se encontravam em toda extensão visível dela, em nenhum lugar se dizia um nome, nada escrito. Ele agora parou o carro e começou a gargalhar, olhando todo o tempo pro filho, como que querendo algum sinal que o absolvesse de qualquer aparência de controle da situação. Passou os dedos pela ausência de bigode que havia decidido apenas semana passada, depois de quarenta anos. Olhou mais uma vez pela janela para os mesmos lugares de segundos atrás. Entre fôlegos histéricos longos que se renovavam de alguma forma íntegros, ele finalmente sossegou em um tom próprio para conseguir falar:

-E agora?

Saturday, March 29, 2008

Not its cruelty but its frivolity
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Isso aí não é sério, mesmo que quem esteja lá no meio acredite inteiramente. O fato deles serem mexicanos deveria tornar óbvio o bastante. Que é SÁTIRA.
Mas mesmo sátira: revolta da vacina deixou 50 mortos e, mais grave, centenas de pessoas deportadas para o Acre.

The greatest threat to freedom is not dogmas but the reluctance to define them precisely, tipow, dá vontade de dizer.

Friday, March 28, 2008




Awkward age
é melhor que vocês tudo. Quem quiser retomar empreitadas dignas, de século dezenove (e não for talentoso o suficiente para fazê-lo na cara dura, tipo um Bellow) precisa apenas tomá-lo como exemplo. Não diretamente, porque ele não permitiria, mas como direção. Ah, se o mundo tivesse assumido H James a sério, vestido ele desde sempre. Mas ele é um desses modelos pessoais demais, que não desbundam em literaturas, não gritam na sua cara o que você tem que fazer (como um Flaubert, um Joyce). Mas daí que ainda há tempo.
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tá lá ó. the distinguished thing, that which he knew.

Monday, March 10, 2008

FICCAOBRASILEIRACONTEMPORANEA, de novo
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Só li Malthus e Polígono das Secas do Mainardi, o que me pareceu o bastante. Dos tipo quase nenhuns brasileiros vivos que conheço, admito, infelizmente, que ele é um dos melhores. E -wait for it, wait for it- ele não é nem bom.
A voz em Malthus é uma que eu gosto de chamar, no quase infinito conforto da minha própria cabeça, de zoeira federal*, uma que eu curto bastante e que é infelizmente pouco comum em um país tão próprio pra ela, tão, assim, socialmente necessitado de sátira. Menos talentoso que, por exemplo, Campos de Carvalho, nas possibilidades principalmente cômicas que ela traz, o Mainardi é pelo menos mais consciente, mais regular**.
Mas a real é que a essência dessa voz é bastante simples, mesmo que talvez não pareça. Você precisa basicamente determinar que ela existe pra sair dançando por aí, dispensando de recursos narrativos tradicionais e trazendo com ar blasé elementos e nomes oh-tão-inesperados-para-uma-história. Difícil mesmo, mermão, é tirar alguma coisa de, assim, verdadeiro de tanta zoeira, ó. O principal responsável por isso no meu conhecimento sendo um Sr Donald Barthelme, que eu já mencionei aqui, eu sei, ridiculamente insistente nos meus gostos como sempre sou. Barthelme e sua trupe fizeram basicamente tudo que se poderia fazer com uma história enquanto Mainardi engatinhava, e sendo infinitamente mais engraçados e profundos e etc.
Não quero soar chato, não tenho nada contra repetir truques velhos em nome de diversão massa, e em lugar nenhum Mainardi parece supôr que está sendo incrivelmente genial e original. Mas é que ele parece ter herdado o shtik cômico-satirista sem trazer junto o resto, o que torna a coisa verdadeiramente boa, e é meio triste que o resultado (divertido e eventualmente desapontador, finalmente estéril) do livro acabe sendo um atestado involuntário do nosso provincialismo***, e um bem mais eloquente do que qualquer dos vários que ele tenta estabelecer semanalmente. Ao menos aos meus ouvidos.

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não revisar, postar no freestyle, desculpa pelos prováveis erros.




*uma voz descritível como, se me permitem um fôlego só: irônica em todas as direções que consegue imaginar alternadamente maxi e minimalista na sua consciência declarada d'altas convenções narrativas. Pronto.

**Campos de Carvalho parece frequentemente com um moleque de quatorze anos que acabou de descobrir o nonsense em uma animação em flash. Um moleque talentoso, mas um moleque.

***Da mesma forma que as brincadeiras do Bernardo Carvalho com paranóia, também reflexos pálidos e vazios das originais (que eu suponho de novo americanas). Isso se desculparia com visão estética própria, com talento bruto como prosador ou ficcionista, mas isso ele (e por ele quero dizer Aberração, Teatro e As Iniciais, apenas, nenhum saco pros seguintes) não tem.

Tuesday, February 19, 2008

Fidel Castro, seus extremos e seu legado para o esporte
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Sucesso e consenso tornam as coisas imprestáveis esteticamente. Você só precisa ser minimamente atento para perceber esse tipo de coisa, pra chamar de cliché e desconsiderar por inteiro,animadinho, tratando tudo no mesmo nível. É o que aconteceu com a esquerda. O que se vê é nojinho, antes de tudo. Nunca se acredita que a unanimidade pode estar certa.
O constrangedor é que muita gente, de tanto revirar os olhos corretamente diante de um tratamento tolo dos efeitosdasociedadedeconsumonoindivíduo (por exemplo), passa a revirar os olhos a sério diante da preocupação em si.
É verdade que boa parte faz de brincadeira, achando natural tomar um passo além. Mas isso só torna mais besta.

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Rock depende quase sempre de uns elementos bem particulares e esquisitos que, graças a deus, ninguém me explicou muito bem ainda. É muito satisfatório (num sentido mesquinho) assistir o tanto que algo de aparência tão simples funciona só em condições bem específicas.

Essa é a desgraça da vida do Stephin Merrit. Um dos caras mais espertos tentando consegue ser responsável por alguns dos fracassos mais evidentes.

Pavement é esquisitinho, mas na verdade é dos casos mais compreensíveis, explicáveis. É difícil construir um caso de ser, assim, Grande Arte. Mas ele existe, e é quase interessante. Algum dia ainda eu tento, quando a vergonha toda se for (qualquer dia agora, pelo que parece).

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Monday, February 04, 2008

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Imagino que isso aqui vá ficar um tempo sem muitas atualizações. Então pra não me incomodar tanto vou postar um troço antigo. Tem mais de ano, mas claramente não tem pernas pra ir alugar nenhum.

Além do mais, como falei, faz bem exercitar vergonha.

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Lixando as unhas, ela está lixando as unhas do pé em posição que você julgaria desconfortável. No que talvez seja a primeira vez que você a vê agindo como se não se julgasse observada. Isso nos - o quê? - seis meses em que você a conhece (você já a viu fazer isso antes, mas em uma posição muito mais atraente). A expressão dela é uma de desgosto que contrai a sobrancelha e os cantos da boca, deixando o rosto irreconhecível. Provavelmente com nojo de alguma sujeira inesperada no canto do dedo.

Você não sabe exatamente qual é objetivo por trás de lixar as unhas, além de tê-las lixadas.

Ela não te percebe acordado, você divisa a expressão dela pelo espelho, no cantinho dele, e de resto você a vê de costas, toalha disposta através do corpo sem nenhuma função discernível como aqueles panos em quadros antigos. Ela ignora a televisão ligada no filme que você lutava pra acompanhar antes de dormir, o filme que agora aparentemente está muito avançado, a loirinha chorando e um cara novo ali consolando, o marido dela todo puto com alguma coisa.

Você considera se mexer para que ela perceba que você está acordado, movimenta o braço de um jeito pouco natural e despropositado, sente-se meio besta e desiste. Preguiça de ter algo para dizer, ou de alimentar alguma vontade dela de sair pra fazer alguma coisa. Então.

As costas arqueadas de uma maneira pouco atraente, quase perfeitamente descobertas. As vértebras sendo impressas na pele, desaparecendo de acordo com o movimento. Ela lixando as unhas provoca uma torrente de Paulas indo ao banheiro, tirando sujeira dos dentes, lidando com caixa de banco, sendo impaciente, até grosseira. Tomando parte em atos encerrados ali, os menos atraentes do mundo. Você está disposto a aceitar que protagonize chatices. Você sem-graça indo ao dentista, esperando ser atendido ao telefone, sua senha ser chamada no cartório. Que a sua vida fosse isso a que nos acostumamos quando percebemos primeiro que não vamos comer todo chocolate que quisermos e segundo que não vamos dormir com todas as garotas, essa coisa desajeitada que simplesmente paira lá, esperando você reagir. Mas ela estava incluída numa outra esfera de coisas, sorridente nas fotos que você escolhe para a imagem mental que tem dela, que fica no fundo da cabeça lhe confortando diante de toda sorte de coisa ofensiva que se levanta das fendas abertas ao longo de um dia. E agora as costas delas arqueadas, inconscientes do seu escrutínio, a expressão deformada dela, ela se desfazendo com um gesto desatento do acúmulo de etcéteras ao pé da cama, eles descrevendo um arco vagaroso até o chão ou desaparecendo com o fundo claro dos móveis do hotel, o quarto com sua disposição neutra e não ofensiva, não permitindo que você se prenda com interesse em nada mais.

Desanimado com o filme, tira o prazer que consegue tirar da cama confortável, do abrigo do frio que as cobertas oferecem. Tenta tomar consciência do corpo inteiro, confirmando o conforto em todas as extremidades atrás do pequeno erro que está evitando a volta do sono.

Ela vai percebê-lo acordado, sugerir alguma coisa, virar-se tentando ser charmosa, e vai parecer tão pouco natural. Vai se repetir toda a incompreensão que você já antecipa. Ela ali reclinada de lado, reclinada no cotovelo, dizendo que te ama. Sempre tão simples, as outras pessoas, terminando ali nos seus respectivos joelhos, ali nos ombros e ali na ponta do nariz. Devia ser invenção, isso de querer ver alguma coisa a mais nela, uma harmonia que deveria se revelar ali onde havia um corpo e lençóis, pernas e braços, a curva no quadril. Ou talvez a incompreensão seja em verdade uma compreensão mais profunda, além da linguagem (mas você não acredita nisso de verdade). Dizendo que te ama com o tom que ela julga carinhoso, talvez até com uma expressão que ela julgar sensual.

As pequenas coisas que você admite e nega para si mesmo sem acreditar direito em nada. Que não a ama. Que sim, claro que ama, imbecil. Que você gostaria de articular de alguma forma e trazê-la a admitir que ela também, mas não diz, porque sabe que também estranharia se ela tentasse algo parecido. Reproduzindo então uma série já repetitiva de conclusões que não são exatamente conclusões. Um raciocínio viciado que desempenha funções de culpa e justificativa extremamente cansativas numa procissão previsível mas de alguma forma imperativa que se desenrola até você se perder no andamento dela, até o barulho do ar-condicionado (que não estava lá e de repente está) tomar toda a sua desvanecente atenção e suas conclusões não exibirem mais palavras, sua consciência admitido em um último esforço para para se manter desperto que você está, sim, adormecendo, lutando contra um peso cuja superioridade sobre você já foi provada repetidas vezes.

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Ela se compõe no espelho demoradamente. Não estão juntos há tanto tempo e ela quer evitar o choque de intimidade demais, que ela já conheceu e não recomenda de jeito nenhum. Quer causar uma impressão quando sair do banho, afetar uma beleza despojada e manter a noção que ele deve ter dela. A que ela acredita que montou deliberadamente com tanto esforço.

Medindo os passos ao sair do banheiro, escutando a televisão ligada e ainda enxugando o cabelo, ela dá com ele dormindo, tão indefeso que não consegue se frustrar com a sua incapacidade de colaborar com um procedimento tão simples. Considera ligar o secador por um instante no banheiro e voltar, mas, no que é mais um alívio pra sua insegurança do que qualquer coisa, descarta a possibilidade com um sorriso exagerado.

Livre do exame masculino, ela procede com um diligente arrumar de coisas que certamente nem ocorreria ao rapaz, e que ela não espera que ocorra, tendo aprendido com filmes e seriados desde cedo a maneira masculina de agir, formado uma noção condescendente e maternal da imaturidade que necessariamente perfaz todo exemplar varão da espécie. Resistiu um pouco ao encontrar nele algumas inconsistências com o modelo exaustivo que ela mantém na cabeça, inconsistências que ele parecia decidido a exercer (o namorado tendo também tomado consciência temerosa da idéia que se tem dos homens e esforçando-se para provar quando oportunidades claras dançam à sua vista que ele não é esse tipo de cara, não senhor).

A ausência da atenção do rapaz é - depois de tanto tempo juntos sem interrupção - um tanto libertadora, ela percebe. É ainda cedo para que ela se sinta confortável, as únicas inseguranças e fraquezas que ela permite que ele perceba são as que ele certamente achará graciosas, que ela deixa transparecer afetando vergonha enquanto ele a conforta, magnânimo, de que não, bobinha, não tem problema.

Ela já foi ligeiramente instruída nesse sentido por amigas, e preencheu o resto com o seu bom senso. Sabe como evitar os pequenos problemas que costumam passar por cima dos casais.

As malas esvaziadas, as unhas lixadas e o quarto adaptado ao seu conforto (o vazio dos móveis a incomodava, e por isso havia empreendido uma disposição de pequenas coisas deles por todo canto, fazendo o quarto parecer habitado há dias), ela senta ao pé da cama e ondula os dedos sobre o roupão, que não é tão felpudo quanto deveria ser.

Os olhos passeiam pelo quarto por alguma distração. A roupa que ela havia separado para depois do banho parece tão tola ali sem forma em cima da cadeira. Um silêncio invade o quarto justo quando ela percebe que consegue vê-lo dormir no cantinho do espelho, um silêncio causado pela interrupção repentina de um momento particularmente barulhento do filme que ele deixou ligado. A pequena sincronia a assusta, como se alguém tentasse destacar uma importância qualquer nela perceber ali o rosto dele encarando de volta, sua expressão inconsciente. Ela se vira para a tela e logo uma conversa qualquer irrompe entre os personagens, como se nada tivesse acontecido. Um mundo separado se desenrolando no canto dos olhos.

Suspenso diante dela está o resto do dia, que sabe-se lá quando acaba. As cortinas fechadas de modo que o quarto estranho pareça alheio à qualquer influência externa. A idéia perfeita de um casal em um quarto de hotel. Ela sente um estranhamento assustador de repente por não saber que horas são. Ali em um quarto estranho com um garoto dormindo, sozinha.

Enquanto tenta lembrar nome da atriz no filme, considera se deve acordar o rapaz com planos de qualquer tipo, que seja para criar uma companhia, uma outra presença ali no quarto. Os dois esforços são interrompidos, no entanto, arrefecidos em uma disposição para chorar que não encontra resposta imediata. Os dedos prontos para impedir que qualquer lágrima deixe os seus olhos e a expressão atenta a um aviltamento de suas sobrancelhas sobre o qual ela já foi informada que deve ser evitado a qualquer custo.

Sunday, January 27, 2008

I never conquered, rarely came
(tema de hoje: CULTURA)
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Eu ia fazer um post sobre como os contos do Barthelme são quase todos um só, na verdade, apesar da aparente diversidade de confusões acontecendo. Mas aí eu lembrei que sou burro (Ha-ha).
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Esta é a primeira morte de celebridade que eu consigo entender como morte-morte. E isso sem se importar terrivelmente com o cara, sem dar muito crédito pro seu coringa pendente nem nada. Sei que achei uma pena, que lembrei de fotos com uma filhinha, que não consegui enxergar apenas o pano midiático da coisa. Só não sei dizer pra onde isso me leva em uma barrinha de maturidade.
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Quando que a onda toda de quirkiness vai parar? À maneira de ondas (necessariamente um entulho de mediocridade com coisas bacanas e genuínas no meio) ela até que me agrada, mas acho que já deu, né.
Vai demorar pacas até o último hipster, constrangido, abrir os olhos e baixar as cartas. Daqui a um tempo eles percebem algum tipo de ridículo, claro, mas aí é só se desculpar com mais uma camada de auto-consciência pra todo mundo ficar contente. Continuar baseando filmes em roupas combinandinho, baseando revistas literárias em títulos engraçados que não servem nem pra quadros do SNL.
Aposto, sem nunca ter lido, que Jonathan Safran Foer é tipo isso.



(ALGUM TIPO DE DISCLAIMER: você pode, sim, basear um filme em Ellen Page, e ainda poderá por uma década, no mínimo
OUTRO: eu gosto de parte disso que chamam aí de indie rock, eu respeito Stephen Malkmus)


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4x0 no Uberaba. 2008 é nói.




(esse blog é cada vez mais um exercício em vergonha)

Wednesday, January 23, 2008



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achewood é muito massa. não tem mais tanta graça em sair aclamando quando até a porra do new york times já percebeu, mas enfim. sei que vocês, em geral, não tem saco, então insisto.
cat and girl constrange na maior parte do tempo. white ninja é basicamente uma piada só e qwantz, deve-se admitir com a maturidade, é apenas uma manutenção habilidosa de pala (ainda que uma pala, hm, importante). xkcd é um blog legal, não conta como tira (a real é que webcomic, assim como standup, é o caminho mais fácil pra gente com metade de um cérebro que não consegue dar forma a seus comentários divertidinhos, mas não deveria ser).

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Não me esforcei o bastante, mas esses são os melhores exemplos curtos que me ocorreram.
Vão atrás dos arcos, Roast Beef no céu, na lua, Nice Pete, Great Outdoor fight. Onstad é o homem.


A Internet
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Vejam essas fotos da nossa viagem! !

Em 2008 a Internet comissiona uma música sobre si mesma no novo álbum do Momus.

As entrevistas do Dalkey Archive são bem legais. Exemplo.

A internet difere em dois grandes aspectos da realidade:
1-é potencialmente maior
2-consiste em uma série de tubos (de canos)

n+1 é muito massa, o tanto que me incomodei em ler. Pena que disponibilizam tão pouco na internet. Mas aqui resenhas decentes: . . . .

Exemplos finais e eloqüentes de internetes:

1
2
3
4
5

Para fechar, uma gatinha federal.


Wednesday, January 16, 2008

A Review of After Dark's Looney Tunes Screen Saver
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Tudo isso aí, Google-Jörmungadr e seus trabalhos todos, tudo vai ter um nome bonito daqui a umas décadas. Nós provavelmente estamos incompreendendo tudo. Rigorosamente. Achando graça em todas as coisas erradas, rindo de Wagner e seu projeto para sair da solidão enquanto coisas, assim, sérias, desenrolam-se.

Tuesday, January 15, 2008

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Não sei como neguinho se sente confortável falando do Pynchon como se fosse um autor normal. Ele é tipo a natureza, né, assim, tipo o Galactus. Ainda bem que tá do nosso lado.

Friday, January 11, 2008

Notas depois de O Idiota (que não organizo porque não merecem):
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Não aguento tão bem o tom do Dostoivéski. Por meu lado, ele poderia manter as coisas mais sossegadas, não fazer questão de ataques nervosos e "Oh, mas assim também já é inaceitável, Varvara Filipóvna!" em toda cena. Ficar de bowa por meio segundo e conceder pelo menos uns dois personagens à mediocridade.
Mas minha intolerância é meio frescura (causa uma distância considerável, sim, e irrita, mas não dá pra saber o quanto dela é culpa dos anos, da incapacidade aparente da tradução do Paulo Bezerra, etc). Tudo é claramente bem intencional e propositado, e o que ele consegue fazer depende quase inteiramente disso, de fracotes histéricos e mulheres pontualmente contraditórias, da carga intensa em diálogos estranhos.
Poucos dos verdadeiros povoadores de mundo aí não dependem de suas idiossincracias pra manter seus mundos em pé. O Tolstói, por exemplo (que Bábel diz que escrevia quinem o mundo escrevendo a si mesmo) é um dos narradores menos afetados da vida, mas não deixa de depender inteiramente do imperialismo da visão dele.
A única filhadaputa que conheço que parece dar perninhas próprias a tudo que faz é a Eliot (Henry James quase, mas a distância que ele quase sempre assume também facilita, esquisitinho que ele é).
Imaginar Raskólnikov em um livro do Tolstói é como colocar o Patolino num desenho da Hanna-Barbera. Todo mundo opera dentro de limitações bem claras e necessárias. Por isso tão frustrante e tolo imaginar qualidades para um ficcionista que não lhe sejam naturais.
O mundo dele ser tão característico e estranho é uma falha, acaba traduzindo uma espécie de limitação*. Mas sem ela dificilmente seria possível operar a força assustadora que ele tem, tão única que nem a miopia atrofiada de hoje consegue ignorar (o que não acontece com o moderadamente ignorado James, a rigorosamente ignorada Eliot).



*Você pode ter o mundo estranho que quiser, mas todo o mecanismo de ficção depende de um nível de identificação muito cuisadoso e complicado. O que se chama de estranhamento ainda é aproximação, ainda que uma engraçadinha. Eu falo do estranhamento acidental e ruim.
Grande parte da habilidade de um ficcionista está em manter a realidade daquilo palpável o tempo todo, e grande parte da masseza dos big shots está na maneira bem distinta com que cada um faz isso. Dostô é um narrador e um observador de detalhes desleixado, por isso depende inteiramente da voz específica que ele dá a cada personagem, algo que as traduções parecem cagar de uma maneira especialmente formidável.
O-O-Oh, double-binds
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Não é coincidência que o maior escritor americano e o maior quadrinhista são também as figuras mais publicamente apologéticas que eu já vi na vida. Estão avançados em milhas em relação ao resto do mundo em pedir repetidas desculpas pelo que estão fazendo (pela pretensão, pelos malabarismos) antes que você possa julgá-los. E agora venham me dizer que aquela não é uma cultura doente*.

(, diz o pseudônimo de alguém com um blog chamado 'altamente derivativo' e que é exatamente igual aos dois**, né. mas eu sou, hm, diferente. será que dá pra pedir desculpa por pedir desculpa?)

*como se houvesse algum outro tipo, *drumroll*

**exceto pela imbecilidade, ha-ha.

Tuesday, January 08, 2008

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For Reverend Green
é uma música do Nirvana, em exato. Vocês aí não percebem porque são tudo ignorante.

(e voltei de viagem, aliás, daí isso aqui deve viver)