Monday, September 24, 2007

Onde Andreis Passarinho sugere desimportâncias que ninguém vai ler sobre o seu livro favorito
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Outro dia, percebi que nunca havia falado de Infinite Jest aqui. O que é simplesmente esquisito, para quem me conhece, pra quem sabe que aproveito oportunidades razoáveis e irrazoáveis para falar dele. Pois então,
Depois de ler uma resenha antiga, deu vontade de falar algo, depois de me irritar pela undécima vez com a capacidade monumental das pessoas de incompreender o livro, de entendê-lo como uma grande e formidável comédia, um desfile de truques e piadas sardônicas sobre essa realidade moderna aí, (alguém chega a compará-lo com um David Letterman erudito, algo assim, o que é tão especificamente equivocado que parece intencional). Ele mesmo fala isso em entrevistas, reforça pra galera que gente, isso aqui é um livro triste. Mas não conseguem ver além das notas engraçadas, do exagero que ele assume pra escrever o mundo (supostamente por achá-lo necessário). E fui perceber, pensando aqui, que isso não é de todo culpa dos resenhistas, da burrice infalível deles.
Olha, tá certo que é bacana fazer esse tipo de romance, perceber e assimilar tudo que há de um hemisfério de literatura e decidir qual forma que acha mais adequada pr'hoje, pra isso aqui *bate em mesa imaginária*. E é um feito bem impressionante, sim, o livro. Falha aqui e ali (principalmente, acho, nas gracinhas políticas que faz, que parecem estar lá só porque ele se sentiria mal se não falasse nada), mas consegue formar a vozinha descentralizada e fragmentada que tanto procura, não ofende sua inteligência e seu oh-tão-moderno costume com formas narrativas tradicionais, etc, e, mais importante na história toda, faz tudo isso sem quase nunca ficar chato (ele chega a ficar, sim, aparentemente desnecessário em alguns pontos, principalmente quando sai demais da órbita dos, sei lá, dez personagens principais, mas estou disposto a concedê-lo pelo tamanho do empreendimento, e tudo). Agora, o que não me convence é a necessidade que qualquer livro tem de assumir tanta coisa pra si mesmo, de querer ser o Grande Romance do seu tempo, de não falhar em traduzir nenhum aspecto da tradição literária maiúscula e barbuda. Tudo bem, isso faz algum sentido às vezes. Se você for o Joyce, sendo o principal deles. Mas depois dele neguinho tem que tomar tento, afugentar e confundir leitor não é vantagem não, deve ser feito só quando extremamente necessário. De resto você tá fugindo bastantão de ter que dar satisfações a boa parte das pessoas. Boa parte do tempo, traduzir um ponto em citação obscura e gracinha formal é a saída mais fácil, e não o contrário. E quanto mais citações e gracinhas dessas você vai absorvendo, mais se percebe o tanto que elas conseguem ser vazias e desnecessárias, o tanto que aparecem pra preencher alguma insuficiência do autor.
Tudo bem, de novo, se você for alguém como o Pynchon. O que ele que dizer não só precisa que a putaria contamine a forma, mas é também algo de uma urgência exclusiva ao povo que está disposto a ler os livros dele. Meu ponto sendo: quem não curte Barthelme, Pynchon e Markson, nomeando meio aleatoriamente, pela putaria formidável que é a forma deles, não deveria ficar triste pelo resto que eles podem estar perdendo, pois a putaria precisa estar ali. Não que não sejam escritores sérios, com pontos sérios, mas são escritores virtualmente inimagináveis fora do contexto deles, eles precisam do pós-modernismo (malzaew) pro livro se manter em pé, os livros deles são intensamente irrelevantes sem as chavinhas interpretativas sugeridas pela orelha, pela wikipédia. Ainda divertidos, mas irrelevantes. Ou como Pale Fire, como algumas coisas do Calvino, que têm seus conteúdos dentro da forma, não se separam por um instante.
Mas o negócio é que o Fosty (deixaeu) é um escritor moral, antes de tudo, por mais que não acreditem. Não só parece ser a principal preocupação dele, como é o que ele faz melhor. Ele é um escritor com valores específicos em cada maldita página dele, ele quer que você se importe com as coisas que importam pra ele, quer que você entenda porque tal coisa é certa e tal coisa é errada, essas coisas todas que os bons escritores parecem ter parado de fazer*. A extravagância sai, como a voz do Dickens, porque ele não consegue evitar e porque, imagino, ele não deve se sentir bem escrevendo um romance que não demonstre que ele absorveu tudo que havia a se absorver, que falhe em qualquer quesito imaginável. Ele é, não há como negá-lo, uma coisinha desesperada por aprovação, o filho da puta. Por isso alguns dos seus pontos mais fortes acabam sendo em contos, onde ele consegue, às vezes, escrever dez páginas sem abraçar o mundo inteiro de uma vez só, sem tentar desbancar o Barthelme, sem tentar mostrar pra crítico com um judo chop que ele está alguns passos a frente (e constranger a todos nós, também, às vezes).
Sim, é verdade que parte considerável do conteúdo do livro está ali furunfando na forma, como nos exemplos que dei, mas o que me parece ser o principal não está, não de verdade. Se alguma coisa, a extravagância toda vai contra alguns dos pontos principais do livro, o que fica dolorosamente evidente em boa parte dos fãs que ele tem.
Isso me irrita justamente porque gosto tanto de Infinite Jest, justamente por ele ser meu livro favorito, por ter trechos tão fantásticos e ser amorzinho pacas. Porque o livro me faz bem como poucos livros da história aí do mundo. E isso claramente importa ao DFW, é claramente a intenção principal dele (ao menos parece ser o principal para ele nos livros que ele curte). Não me incomoda que meus amigos que não gostam tanto de literatura não leiam Barthelme, mas me incomoda tremendamente que eles não leiam o Foster Wallace. Por detrás da zoeira (ou zueira, como quiser) toda há um romance, há alguns dos melhores personagens que já li, há toda uma lição a ser assimilada e o caramba. É literatura fazendo o que faz melhor, fazendo o que a coloca acima dessas artes todas bestas aí, é ficção que te ajuda a viver. E no entanto os leitores favoritos dele, a massa de leitores dele, são espertinhos vazios que se congratulam a cada minutos por ter acabado, pela quantidade de vezes que leu, a rapidez que leu, por ter entendido tal truque, por ter associado a estrutura fragmentada com carambas a quatro desimportantes. Gente que acha o livro principalmente engraçado e divertido. E a culpa é principalmente do próprio Foster Wallace, por ter meio que jogado o jogo que ele critica durante o livro inteiro.
Soa sempre injusto culpar o autor pelas interpretações retardadas que fazem dele, mas você tem que fazer um esforço, quando se acredita que está ensinando certo e errado a alguém. Você tem saber que tipo de leitores o seu livro vai atrair, quem que vai aguentar as piruetas todas. Infinite Jest poderia certamente, ao menos, manter toda a sua estrutura em 600 páginas mais diretas, sem boa parte dos trechos que só estão lá porque são divertidos pra caramba (embora, em defesa deles, eles realmente sejam divertidos pra caramba). Teria que ser outro livro, absolutamente, com outro nome e o caramba, mas seria um romance melhor em todos os sentidos. Talvez não rendesse o hype todo, o folclore, tivesse outros leitores. Mas esse seria justamente o ponto.

*Os melhores romancistas americanos recentes que conheço não fazem, ao menos. Da lista do Bloom, só o Pynchon me parece também ter algo a dizer de verdade (Roth não conta), uma forma de entender as coisas que informa toda página declaradamente, um fio que caminha através da história. A diferença é que o Pynchon não é muito humano, coitado, então o que parece realmente importar pra ele me importa muito mais ou menos, muito de vez em quando. O Delillo tem os comentários dele sobre cultura e mídia e etc, etc, mas não é por isso que ele é bom. Em alguns livros é apesar disso. E o fio que se encontra através das coisas mais famosas do Mccarthy não vale; o que está lá é a inexistência de qualquer fio possível.

4 comments:

v. pratanegra said...

http://www.insanus.org/parada/arquivos/2006/11/leitor_como_mus.html

andreis passarinho said...

issaqui tá uma bagunça ilegível que só. mas consertar significa tomar vergonha na cara e deletar, então.

josé eduardo said...

tu zoa.

andreis passarinho said...

zôo, lógico.